4 de junho de 2026

Para recuperar credibilidade dos mercados, Argentina apresenta novo índice de inflação

Da BBC Brasil

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Marcia Carmo
 
O governo argentino apresentou nesta quinta-feira seu novo Índice de Preços ao Consumidor Nacional Urbano (IPCNU), que apontou uma inflação de 3,7% em janeiro em relação a dezembro do ano passado.
 
Na prática, o governo admitiu uma inflação praticamente 2.5 vezes maior do que registrou no mês anterior. A ação foi aprovada por economistas e opositores.

Contudo, o novo índice ainda aponta para uma inflação mais baixa do que a divulgada por parlamentares opositores do governo no Congresso Nacional para o mesmo período: 4,6%.

O dado oficial da inflação argentina vinha sendo questionado pela oposição e por economistas desde janeiro de 2007, quando o Instituto Nacional de Estatísticas e Preços (Indec) passou a ser administrado por funcionários ligados ao então secretário de Comércio Interior, Guillermo Moreno. Em dezembro, por exemplo, o índice foi de 1,4%.

Por considerarem os antigos índices divulgados pelo governo imprecisos, consultorias privadas começaram a medir a inflação usando metodologias próprias, mas receberam multas do governo pela ação. A divulgação de índices não oficiais passou então a ser feita pela oposição.

Ao anunciar o IPCNU, o ministro da Economia da Argentina, Axel Kicillof, justificou a mudança.

“Entre 2004 e 2013 o poder aquisitivo dos salários na Argentina mudou, o desemprego caiu e ocorreram também mudanças na estrutura do consumo e era preciso modificar o índice de preços do país”, disse.

Segundo ele, em 2004, por exemplo, oito milhões de pessoas tinham cartão de crédito no país e no ano passado eram 13 milhões de pessoas.

Neste período, o país foi governado pelo kirchnerismo, signo político que começou com a posse do ex-presidente Nestor Kirchner em 2003 e é mantido com sua viúva e sucessora, a presidente Cristina Kirchner.

Kicillof detalhou os itens que mais pesaram neste resultado, como o aumento nos preços dos transportes e nos combustíveis.

Aprovação

O resultado apresentado pelo ministro recebeu aprovação dos economistas, incluindo os que são críticos da política econômica do governo, e também de parlamentares da oposição.

“O índice do governo foi maior ao que esperávamos e agora sim está perto da realidade e o problema deve ser enfrentado como corresponde”, disse o analista econômico da emissora de televisão TN (Todo Noticias), de Buenos Aires.

O economista Orlando Ferreres também elogiou o resultado apresentado pelo ministro da Economia.

“Este primeiro índice foi bem detalhado, está correto e sugere que o governo mudou e reconhece a inflação”, disse a BBC Brasil o economista Orlando Ferreres.

O governo, afirmou, baseou-se em uma metodologia do Fundo Monetário Internacional (FMI) e com o reconhecimento da inflação busca também “o início da retomada da credibilidade” internacional.

“O governo realizou um levantamento nacional e mostrou seriedade no resultado. Mas se o índice fosse assim todos os meses terminaríamos o período de um ano com mais de 50% de inflação. Porém, a tendência é que ela caia a partir de fevereiro”, disse o economista.

Em janeiro, o preço dos transportes teve alta de cerca de 70%. Ele afirmou que este fato não se repetiria em outros meses.

Em um relatório, a consultoria econômica Abeceb, também de Buenos Aires, disse que “em princípio o IPCNU é uma boa notícia”.

“Apesar de que teremos que estar atentos à sua evolução, a cifra publicada pelo Indec, que é muito mais próxima à estimada pelo setor privado, significa um bom começo para o novo índice de Preços Nacional Urbano. O desafio agora é reconstruir a credibilidade do organismo”, afirmou a consultoria.

Em sua conta no Twitter, a deputada federal da oposição Patrícia Bullrich escreveu: “3,7%, aos poucos o governo se aproxima da realidade. Mentiram durante sete anos e dizem a verdade agora porque o FMI os obrigou”.

Em fevereiro do ano passado, num episódio que foi definido na Argentina como “inédito”, o FMI sancionou a Argentina com uma “moção de censura pela má qualidade de suas estatísticas”, segundo informou a imprensa local, na ocasião.

O segundo passo, disseram os jornais argentinos, poderia ser a “expulsão” do país do organismo.

Segundo políticos e economistas, por determinação da presidente Cristina Kirchner o Fundo não era autorizado a rever as contas do país desde 2007, quando começou seu primeiro governo. Ela foi reeleita em 2011 e o atual mandato termina em 2015.

Na ocasião, o FMI informou em um comunicado que havia realizado uma reunião para avaliar os índices de preços e do Produto Interno Bruto (PIB) do país.

O Conselho do FMI instou a Argentina, publicou o jornal La Nación, de Buenos Aires, a adotar “medidas corretivas para fazer frente à falta de precisão do IPC-GBA (Índice de Preços ao Consumidor-Grande Buenos Aires)”.

A expectativa é que agora o Fundo avalie o resultado apresentado pelo governo argentino, o que poderia, segundo economistas, servir de respaldo ao país para suas negociações com o Clube de Paris – com quem a Argentina tem uma dívida desde 2002 – e para possíveis novos créditos com o próprio Fundo.

Telefonema

A inflação foi um dos temas principais nos dois últimos discursos da presidente em rede nacional de rádio e de televisão.

Ela disse que os que aumentam preços estavam “saqueando” o bolso dos argentinos. Nesta quinta, consumidores revelaram à emissoras de rádio e de televisão locais que a presidente ligou para eles após saber das queixas relacionadas aos preços.

“Fui a um supermercado e me limitaram a quantidade de açúcar. Mandei uma mensagem para a presidente através da página dela no Facebook e me ligaram da Presidência e falei com ela durante dez minutos. Ela me pediu detalhes e disse que fiz muito bem em reclamar”, contou Fernando Garaventa, à emissora de televisão C5N.

 
Veronica Smink

O primeiro sinal veio em outubro passado. Na época, o governo argentino anunciou, para a surpresa de muitos, que havia aceitado pagar US$ 677 milhões (o equivalente a R$ 1,59 bilhão) a cinco empresas contra as quais havia perdido uma causa no Centro Internacional de Arbitragem para Disputas sobre Investimentos.

Depois, veio a inesperada demissão do secretário de Comércio Interior, Guillermo Moreno, considerado o mentor de muitas das medidas econômicas mais polêmicas do governo de Cristina Kirchner.

Mas os gestos mais significativos vieram em 2014: em janeiro, o ministro de Economia Axel Kicillof, que havia assumido dois meses antes, apresentou uma oferta ao Clube de Paris, que compreende os 19 países aos quais a Argentina deve mais de US$ 9 bilhões (R$ 21,1 bilhões) desde a moratória dos pagamentos de sua dívida, em 2001.

Poucas semanas depois, aconteceu o que muitos acreditavam ser impossível: a pedido do Fundo Monetário Internacional (FMI), a Argentina apresentou um novo índice de medição de preços, que admitiu, pela primeira, a dimensão problemática da inflação, algo que até então vinha sendo negado pelas autoridades do país.

Finalmente, na semana passada, a Argentina deu por terminada uma longa disputa internacional ao entrar em acordo com a petrolífera espanhola Repsol sobre o pagamento de uma indenização pela expropriação de 51% do pacote de ações da petrolífera YPF, renacionalizada em 2012 – um acordo que será selado em maio, se o Congresso argentino o aprovar.

Para muitos analistas, todas estas medidas são um indício claro de que o governo quer “fazer as pazes” com o mercado de capitais, até mesmo com a intenção de voltar a contrair dívidas.

Mas por que um governo que se vangloria de sua política de desendividamento e que por anos criticou governantes passados por endividarem o país agora está mandando tantos sinais de aproximação com o mercado?

Necessidade

Especialistas como Dante Sica, diretor da consultoria econômica Abeceb.com, acreditam que a resposta é óbvia. “O governo precisa de dólares”, assegurou ele à BBC Mundo.

“A mudança de atitude se deve ao fato de que, a partir de 2011, a Argentina passou de um superavit para um deficit e que as medidas tomadas pelo governo para frear a diminuição de divisas não funcionaram”, disse Sica, em referência às restrições cambiais impostas a partir deste ano.

A rigor, o país tem um déficit fiscal há anos (ou seja, gasta mais do que arrecada), ainda que mantenha um superavit comercial, que até agora tem sido a principal fonte de entrada de divisas no país.

Mesmo assim, em 2014, o saldo comercial teve uma queda preocupante: segundo os números oficiais, em janeiro, o superavit foi de apenas US$ 35 milhões (R$ 82,3 milhões), 88% a menos do que no mesmo mês do ano anterior.

Por isso, economistas como Sica acreditam que o governo está sendo forçado a buscar dinheiro para compensar o gasto público exagerado e, com este objetivo em mente, tem se esforçado para dar sinais de boa vontade ao mercado.

Novo endividamento

Economistas alinhados com o governo, como Fernanda Vallejos, do grupo kirchnerista La Gran Marko, dizem que os sinais dados pelo governo têm o objetivo de melhorar a situação para uma futura emissão de títulos da dívida pública.

Mas Vallejos refuta que isso signifique uma mudança na política governamental.

“O governo nunca se opôs a voltar ao mercado, mas sim a pagar as altas taxas que queriam cobrar”, comentou ela à BBC Mundo.

De fato, a própria Cristina Kirchner deu sinais neste sentido durante um discurso no fim de janeiro.

“Como resultado da moratória de 2001, o mercado de capitais estava fechado para nós e, quando não estava fechado, oferecia taxas muito altas”, disse.

Mas os críticos do governo afirmam que não foi a moratória que afastou o mercado durante a década kirchnerista, mas a falta de confiança gerada pelas políticas governamentais.

A isso é atribuído o fato de países vizinhos como Brasil, Chile e Uruguai terem atraído nos últimos anos muitos investimentos estrangeiros, multiplicando assim suas reservas internacionais, enquanto os fundos do Banco Central argentino tiveram uma forte queda, de cerca de 30% em 2013.

Por sua vez, Vallejos nega que haja falta de confiança e considera que grande parte do dinheiro que ingressou nos países vizinhos veio de investimentos especulativos, que não são vistos com bons olhos pelo governo argentino por considerá-los prejudiciais a longo prazo.

Restrição externa

Um ponto em que simpatizantes e críticos do governo concordam é que a chamada restrição externa – ou falta de dólares – é um dos principais problemas da economia argentina e que ela limita o poder de compra e o crescimento do país.

A saída de divisas em dólares se intensificou nos últimos três anos devido ao forte aumento das importações de energia, que representam cerca de 10% do orçamento nacional.

Por outro lado, o gasto público se manteve alto devido às políticas de subsídios à energia e ao transporte implementadas em 2002, em meio à crise econômica, e que o kirchnerismo continua a aplicar até hoje.

Por isso, muitos acreditam que um retorno ao mercado de capitais é inevitável.

Mesmo assim, ainda falta ver se as medidas que estão sendo tomadas pelo país serão suficientes para que os organismos internacionais de crédito voltem a emprestar dinheiro à Argentina, a uma taxa que o governo considere aceitável.

Um dos fatores que levará a isso é o resultado da disputa judicial que Argentina enfrenta nos Estados Unidos com os credores que não aceitaram as trocas de dívidas por bônus de valor de face menor oferecidas pelo país em 2005 e 2010.

Em fevereiro, o governo argentino solicitou que a Suprema Corte americana revise a decisão que obriga o país a pagar mais de US$ 1,3 bilhão (R$ 3 bilhões) a um grupo de fundos de investimento, que exige o pagamento de 100% do valor dos bônus que detêm.

Se a decisão for mantida, a Argentina poderá voltar a uma moratória técnica, o que complicaria seu acesso a novos recursos.

 

Redação

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