
Eleições de meio de mandato nos USA: a guerra dos mapas eleitorais e o cerco de Trump à democracia.
por Gisele Agnelli
Recém-empossado para seu segundo mandato, em março de 2025, Donald Trump assinou uma ordem executiva exigindo comprovação física de cidadania como condição de voto nas eleições federais dos Estados Unidos. A medida, rapidamente bloqueada por tribunais federais como inconstitucional, não passou de uma encenação autoritária. Um gesto performático sem sustentação legal, mas que cumpriu seu papel político: mobilizar a base trumpista e corroer a confiança pública no processo eleitoral.
Essa dinâmica, legislar pelo espetáculo e governar pela erosão institucional, é a marca registrada do segundo mandato de Trump. Se em 2020 sua derrota foi seguida de uma tentativa aberta de golpe, em 2025 o caminho escolhido é mais sofisticado: não mais o ataque frontal às urnas, mas a manipulação estrutural das regras eleitorais.
O epicentro dessa manipulação é o redistritamento eleitoral (gerrymandering). No Texas, a Câmara aprovou, por 88 a 52 votos, um mapa que atende diretamente ao pedido de Trump: garantir até cinco cadeiras adicionais ao Partido Republicano nas eleições de meio de mandato de 2026. O processo foi marcado por acusações de discriminação racial e denúncias de que distritos negros em Houston e Dallas foram diluídos em áreas republicanas.
Na prática, quando um bairro majoritariamente negro ou latino é dividido entre dois distritos, essa comunidade perde a chance de eleger alguém que represente suas demandas de forma consistente. Seus votos são “diluídos” e se tornam minoria em distritos desenhados para garantir vitórias republicanas. O efeito é que os políticos passam a escolher seus eleitores, manipulando os limites distritais de forma a garantir cadeiras seguras, ao invés de os eleitores escolherem livremente seus representantes.
Isso distorce a ideia básica de representação democrática e fere o princípio do “one person, one vote” : uma cabeça um voto. Trata-se de uma tentativa de redefinir-se quem conta como cidadão e, portanto, quem tem o direito de decidir o futuro político do país. A Suprema Corte dos EUA já reconheceu a gravidade de gerrymandering racial em decisões anteriores (como Shaw v. Reno, 1993), mas, na prática, com a atual composição conservadora, tende a tolerar esse tipo de manipulação sob o pretexto de que se trata de “decisão política legítima”.
O caso do Texas é emblemático porque mostra como o redistritamento eleitoral fora do calendário normal do censo (o chamado mid-decade redistricting), que acontece este ano, virou uma arma do trumpismo para manipular o mapa eleitoral e garantir vantagem já nas eleições de meio de mandato de 2026. A Constituição dos EUA exige um censo a cada 10 anos (anos terminados em 0). Logo após o censo, os estados redesenham seus distritos eleitorais para a Câmara dos Deputados, com base nos novos dados populacionais. O último censo foi em 2020, e o próximo só será em 2030. Portanto, o redistritamento natural deveria ter ocorrido apenas em 2021–2022, e só voltaria depois de 2030. O Texas (aparentemente o primeiro de vários outros estados republicanos já se movimentando para repetir a estratégia) decidiu refazer os mapas distritais no meio do ciclo decenal, sem nenhum censo novo. É uma manobra legalmente possível (a Suprema Corte não proíbe explicitamente), mas politicamente agressiva porque, em vez de refletir as mudanças demográficas populacionais recentes, o mapa eleitoral “a pedido do Trump” reflete só a interesses partidários.
A Califórnia, sob o vocal Gavin Newson, reagiu em sentido inverso, tentando reverter até cinco cadeiras republicanas para os democratas, ainda dependente de referendo. Até Barack Obama saiu publicamente condenando o redistritamento “modelo texano” solicitado por Trump e defendendo o contra-ataque democrata. O embate já se transformou em uma verdadeira “guerra de mapas”, antecipando a disputa pelo controle da Câmara antes mesmo das campanhas pelo voto.
Na Flórida, o governador Ron DeSantis reforça o bloco republicano MAGA. Depois de impor seu próprio mapa distrital em 2022, busca redesenhar novamente as fronteiras mirando os últimos redutos democratas no sul do estado. Entre os alvos está o distrito de Sheila Cherfilus-McCormick, desenhado há décadas para garantir representação negra no Congresso. O ataque frontal às salvaguardas da Lei dos Direitos de Voto (Voting Rights Act,) desmantela proteções históricas contra exclusão política.
Criada em 1965, fruto direto da luta de Martin Luther King Jr. e do movimento dos direitos civis, a Lei dos Direitos de Voto completa 60 anos sob seu maior ataque histórico. Conquistada ao preço de marchas reprimidas com violência, a lei derrubou barreiras raciais explícitas, instituiu a exigência de supervisão federal em estados com histórico de discriminação e fortaleceu a proteção judicial para que minorias tivessem acesso real às urnas. Hoje, esse marco civilizatório, nascido do sangue e da coragem de quem enfrentou o racismo institucional, está sob ataque.
Além do gerrymandering e da manipulação do censo, Trump também intensificou sua ofensiva contra o voto por correio, modalidade fundamental para trabalhadores, estudantes e minorias com menor acesso a seções eleitorais. Desde 2020 ele tenta transformar o voto via correspondência em sinônimo de fraude, sem jamais apresentar provas consistentes. Trump argumenta que esta modalidade de voto beneficia os Democratas, mas estudos acadêmicos (Sanford 2020 e outros) não respaldam essa visão. Trata-se de mais uma peça do mesmo projeto: esvaziar a universalidade do sufrágio, criando barreiras logísticas e simbólicas para reduzir a participação eleitoral de quem não faz parte de sua base.
O que está em jogo nas eleições em 2026 é o controle da Câmara e do Senado: se Trump perder uma das casas do Congresso, terá de enfrentar resistência legislativa, algo que não tem hoje. Se perder as duas casas legislativas (embora o Senado seja mais difícil de virar) abre-se até a possibilidade de um pedido de impeachment.
Portanto, para Trump, a engenharia eleitoral em curso significa sua própria sobrevivência no poder. A cada distrito manipulado, a cada censo distorcido, Trump joga pela blindagem de seu próprio mandato. As eleições de 2026 não são apenas de meio de mandato: são um plebiscito sobre a democracia americana e sobre o futuro político do próprio Trump.
Gisele Agnelli – Socióloga com especialização em ciências políticas, graduada pela PUC-SP, pós-graduada em Marketing e em Gestão da Informação, ambos pela ESPM. Fundadora do #VoteNelas. Atualmente reside nos EUA e faz parte do Movimento de Lideranças Femininas do Partido Democrata, Hoosier Women Forward.
O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.
“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN “
Fábio de Oliveira Ribeiro
26 de agosto de 2025 11:05 amO contexto político e econômico da eleição de meio de mandato é importante. Mas o contexto tecnológico em que os EUA estão mergulhados talvez seja o fator que condionará tanto o resultado das eleições quanto o resultado delas.
A bolha da IA está prestes a explodir e ela provocará uma regorganização importante no setor, com a concentração de mais poder nas mãos das Big Techs capazes de resistir às flutuações no preço de suas ações. Empresas pequenas, mais sujeitas à explosão da bolha (OpenAI, Antropic, etc) ficarão em situação pior. O desconforto causado pelos prejuízos causados por agentes de IA aplicados ao gerenciamento de negócios pequenos e médios está sendo encoberto pelos problemas empresariais internos causados pelas tarifas de importação. Mas os prejuízos dos investidores em empresas de IAs talvez se propague pelo sistema bancário norte-americano.
Isso para não mencionar o fato de que (como está ocorrendo rapidamente no Brasil) a bandidagem rapidamente mergulhou na aventura da IA e está ganhando fortunas ao utilizar a nova tecnologia para estruturar pequenos e grandes golpes financeiros. O Estado, como sempre, é lento demais para fazer frente ao problema e para piorar Trump está desmantelando o FBI. Os banqueiros talvez se salvem, mas os correntistas prejudicados foram mergulhados na sensação de insegurança total.
Os norte-americanos não sabem quando suas contas-correntes serão furtadas por hackers, mas tem razoável certeza de que isso poderá ocorrer à qualquer momento. Qualquer vacilo no smartphone e bum… lá se foi um punhado de dólares. Recuperar o prejuízo nesses casos (especialmente se a vítima for pobre) pode acabar sendo impossível, especialmente num país cuja justiça é elitista e amedrontada pela quadrilha de Donald Trump.
O medo generalizado jamais democratizou qualquer sociedade. Mas pode ser uma ferramente para acelerar o processo de desdemocratização de um país. Cá, os Bolsonaro empregaram a mesma estratégia e quase tiveram sucesso. O fracasso de Donald Trump nos EUA parece ser mais e mais incerto, o que nos leva à próxima consequencia: sem esperança de resolver disputas políticas através de eleição, os norte-americanos frustrados (muitos deles são veteranos das Forças Armadas), podem escorregar rapidamente para ações diretas. Talvez não seja fácil matar um precidente, mas não é difícil provocar incêndios florestais imensos ou causar o descarrilamento de três de cargas, etc. Talvez isso se torne mais comum, uma guerra suja contra a natureza e a economia dentro da guerra suja de Trump contra a democracia.
Os norte-americanos não são pacatos. Nunca foram. Mas agora essa característica deles poderá se voltar para dentro do país com uma força inimaginável há uma década. Os vitoriosos estão ao lado de Trump, mas os datacenters deles são vulneráveis física e virtualmente. E eles serão atacados ferozmente, não pela Rússia ou pela China e sim pelos próprios norte-americanos? A conferir.