5 de junho de 2026

Rio Madeira: concessão curta, por Augusto Rocha

Pior que a subsunção capitalista do trabalho, é a imposição territorial na Amazônia, sem respeitar biomas e sistemas econômicos regionais.
Rio Madeira - Arquivo Agência Brasil

Rio Madeira: concessão curta

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por Augusto Cesar Barreto Rocha

O Decreto Nº 12.600, de 28/08/2025 dispõe sobre a inclusão de empreendimentos públicos federais do setor hidroviário no Programa Nacional de Desestatização, incluindo as Hidrovias do Madeira, do Rio Tocantins e do Rio Tapajós. A opção da concessão do Rio Madeira segue a lógica do descuido e baixa importância para o Norte do país. Olha-se o escoamento das commodities do Centro-Oeste e coloca-se em risco a navegabilidade do Rio Amazonas para o trânsito de grandes navios.

Deveríamos ter estudos, que nem custariam tão caro, frente aos milhões que são gastos na dragagem inútil na região da Foz do Madeira e do Tabocal. Em 2023 e 2024 as dragagens não foram suficientes para garantir 12,8m de calado. Este ano, pela abundância das chuvas, é bem provável que ela seja desnecessária.

Ao invés de dragar, deveríamos fazer estudos hidrodinâmicos e climatológicos para viabilizar uma maior compreensão da Amazônia. Ao contrário disto, estamos muito preocupados em escoar a soja, que já ocupa uma área superior à da Alemanha. Ao conceder o Rio Madeira, coloca-se em risco todo um bioma e uma geomorfologia do Rio Amazonas. Pior que a subsunção capitalista do trabalho, é a imposição territorial na Amazônia, sem respeitar os biomas e os sistemas econômicos regionais.

A concessão, se fosse considerada de maneira sistêmica, deveria ter ido muito além do Rio Madeira. Há tanto sedimento naquele trecho de rio, que segue praticamente em paralelo à BR-319, que fazemos um misto de nem recuperar a rodovia, respeitando o seu entorno ambiental, nem respeitar o maior rio do mundo, correndo o risco de assorear ainda mais o principal canal de acesso para a indústria do Amazonas.

A logística no Norte do país é negligenciada, ignorada e a proteção da floresta e dos biomas é realizada pela inação. Precisamos com urgência de estudos sobre a vazão do Rio Amazonas, do Rio Madeira e de todo o sistema desta bacia hidrográfica. As cargas e tipos de sedimentos, a sazonalidade, as dunas móveis dos leitos do rio, o regime de enchente e formação de canal precisa ser compreendida antes de uma intervenção que pedagiará o rio.

A Amazônia é gigante, mas seguimos apenas com um interesse econômico. Esquecemos da natureza, das pessoas e das economias regionais. Queremos explorar a floresta – há pouco ou nenhum interesse no convívio, no aprendizado ou nas trocas harmônicas e pouco invasivas. A concessão que se avizinha a partir deste decreto segue pelo pior caminho.

Augusto Cesar Barreto Rocha – Professor da UFAM.

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Augusto Cesar Barreto Rocha

Augusto César Barreto Rocha é Professor Associado da UFAM. Possui Doutorado em Engenharia de Transportes pela UFRJ (2009), mestrado em Engenharia de Produção pela UFSC (2002), especialização em Gestão da Inovação pela Universidade de Santiago de Compostela-Espanha (2000) e graduação em Processamento de Dados pela UFAM (1998).

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