
Rota do Norte e Aquecimento Global, uma disputa I
por Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva
A história da conquista das passagens do Ártico é a narrativa de dois obstáculos radicalmente diferentes e das sucessivas tentativas para os superar. De um lado, a Passagem do Noroeste, um labirinto de gelo e ilhas desconhecidas no topo da América, um obstáculo cuja própria existência e forma eram um mistério. É que, no princípio, portugueses e espanhóis pensavam que o continente americano fosse parte desconhecida das Índias. Essa dúvida só foi dirimida ao longo do século XVI, graças à descoberta do Estreito de Magalhães e à travessia do Panamá, descrita por John Steinbeck em ‘A Taça de Ouro’)’. Do outro, a Passagem do Nordeste, a face norte do continente eurasiático, um obstáculo conhecido por terra em seus contornos, mas cuja costa ártica representava um desafio náutico de proporções titânicas.
A saga noroeste começou com as explorações portuguesas, financiadas pela coroa, no alvorecer do século XVI. Por volta de 1498-1499, João Fernandes Lavrador e Pêro de Barcelos mapearam a costa da Groenlândia e chegaram à massiva península que Lavrador batizou, dando origem ao nome Labrador. Entre 1500 e 1502, os irmãos Gaspar e Miguel Corte-Real aprofundaram estas explorações, mas ambas expedições terminaram em tragédia com o desaparecimento dos líderes. Eles não procuravam explicitamente a passagem, mas revelaram ao mundo a existência da barreira continental. O sonho, porém, persistiu. Em 1576, o inglês Martin Frobisher iniciou uma série de viagens, convencido de ter encontrado ouro (que não passava de pirita) e uma suposta passagem que hoje leva seu nome. Entre 1585 e 1587, John Davis explorou mais ao norte, descobrindo o estreito que também ganhou seu nome. A tragédia atingiu um pico com Henry Hudson, a serviço da coroa inglesa. Em 1610, ao tentar forçar a passagem, descobriu a imensa Baía de Hudson, onde seu navio ficou preso no gelo. Em 1611, a tripulação amotinou-se, abandonando Hudson, seu filho e outros sete homens à deriva num pequeno bote, nunca mais vistos. William Baffin, entre 1615 e 1616, chegou mais longe, mapeando a Baía de Baffin, mas concluiu que a passagem era intransponível. O capítulo mais sombrio desta rota escreveu-se entre 1845 e 1848 com a expedição perdida de John Franklin. Os seus dois navios, o HMS Erebus e o HMS Terror, ambos pertencentes à coroa britânica, e 129 homens, desapareceram sem deixar rasto. As operações de busca revelaram depois um cenário de horror: navios esmagados pelo gelo, motim, escorbuto, envenenamento por chumbo das latas de comida e, conforme relatos Inuíte, canibalismo entre os sobreviventes desesperados. A passagem só foi finalmente conquistada pela paciência e humildade do norueguês Roald Amundsen. Entre 1903 e 1906, a bordo do pequeno barco de pesca Gjøa, ele não lutou contra o Ártico, mas adaptou-se a ele, invernando três vezes e aprendendo técnicas de sobrevivência cruciais com os povos Inuíte antes de emergir no Pacífico.
Paralelamente, desenrolava-se a saga nordeste, um confronto contra um gigante conhecido, o continente eurasiano. A primeira tentativa organizada coube aos Sete Estados Holandeses. Em 1594, Willem Barentsz partiu para forçar uma passagem pelo norte da Rússia. Após três expedições, o seu destino selou-se em 1596 quando o seu navio ficou preso no gelo de Nova Zembla (Mar de Barent na Rússia). A tripulação realizou o primeiro inverno ártico da história europeia, construindo um abrigo que chamaram de “A Casa Salva”. Na primavera, debilitados, tentaram o regresso em pequenos botes. Barentsz morreu durante a fuga, mas o seu diário sobreviveu. Após este início dramático, a Rússia de Pedro o Grande e Catarina a Grande assumiu a tarefa de dominar a sua própria costa. Ao longo dos séculos XVII e XVIII, cossacos e exploradores mapearam a Sibéria ártica. A Grande Expedição do Norte (1733-1743), liderada por Vitus Bering, cartografou meticulosamente quase toda a costa, provando a separação entre a Ásia e a América. A conquista final demandou a precisão da ciência do século XIX. Coube ao sueco-finlandês Adolf Erik Nordenskiöld a honra de finalizar a obra. A bordo do vapor Vega, e aproveitando um ano de gelos excepcionalmente brandos, ele navegou para leste em 1878. Prevendo corretamente o fechamento invernal, deixou-se ficar preso pelo gelo a apenas um dia de navegação do Estreito de Bering. Após um inverno dedicado a estudos científicos, o Vega libertou-se no verão de 1879 e completou a primeira circum-navegação da Eurásia.
A ironia final desta dupla saga é que ambas as rotas, que consumiram tantas vidas e séculos de esforço heroico, só se tornaram viáveis no século XXI, mas não devido à perseverança humana, porém como um subproduto alarmante da sua ação sobre o planeta. O aquecimento global, derretendo o gelo marinho, está abrindo estas rotas para o comércio global. A Rota do Mar do Norte (ex-Passagem do Nordeste) é hoje uma artéria estratégica para a Rússia, enquanto a Passagem do Noroeste vê cada vez mais navios. Assim, o sonho comercial que iniciou tudo está finalmente sendo realizado, mas sob a sombra de uma transformação ambiental global. A conquista das passagens árticas é, portanto, uma narrativa dupla e poderosa: uma sobre a coragem e a adaptação humana face à natureza, e outra, mais sombria, sobre as consequências não intencionais e paradoxais do progresso.
No próximo capítulo, o alvo será o desenvolvimento tecnológico da navegação no gelo.
Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva é economista, estudou o mestrado na PUC, pós graduou-se em Economia Internacional na International Afairs da Columbia University e é doutor em História Econômica pela Universidade de São Paulo. Depois de aposentado como professor universitário, atua como coordenador do NAPP Economia da Fundação Perseu Abramo, como colaborador em diversas publicações, além de manter-se como consultor em agronegócios. Foi reconhecido como ativista pelos direitos da pessoa com deficiência ao participar do GT de Direitos Humanos no governo de transição.
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