Os jovens criadores de mais de 80 anos voltam à luta
Urariano Mota
Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil voltam às ruas neste domingo
21 de setembro. Escrevi antes sobre a sua permanente rebeldia no curso dos
seus mais de 80 anos. No texto de 2024, publiquei que ao ver os rostos dos
criadores, nós nos vemos neles. Não tanto pelo aspecto físico, ou pela
forma dos seus corpos, que estão melhores do que os nossos nestes dias.
Alguns, como Paulinho da Viola e Caetano Veloso, estão mais bonitos.
Como uma lei geral para indivíduos que não são um primor de aparência
aos 20 anos, o passar do tempo os tornou belos. Mas não é à mais recente
forma física que me refiro. A verdade é que ao ver seus rostos nos
refletimos neles. O rosto que vemos não é o da fotografia destes dias. Por
trás deles, ou melhor, bem à sua frente, estão os rostos do que fomos na sua
juventude.


Pelos novos desafios, contra duas decisões da Câmara dos Deputados que
emporcalharam o país, contra a PEC da Bandidagem e a votação que foi
adiante, em caráter de urgência, de um projeto de lei para anistiar os
golpistas do 8 de Janeiro, eles voltam.
Neste 21 de setembro, voltam e voltamos em honra da civilização brasileira
e da sua mais longa rebeldia. Por isso, retorno também ao publicado há um
ano.
A idade real desses criadores é a que resiste em nossa memória dos seus
mais fecundos tempos de resistência. Mais que resiste, toma conta de tudo
e se sobrepõe a qualquer outra. Daí, a burrice dos calendários que não
sabem nem percebem que Chico Buarque é
“Ouça um bom conselho
Que eu lhe dou de graça
Inútil dormir que a dor não passa”
Ou que Caetano Veloso é
“Eu quero ir, minha gente, eu não sou daqui
Eu não tenho nada, quero ver Irene rir
Quero ver Irene dar sua risada”
Na época, achávamos que a risada de Irene vinha a ser a metralhadora de
Che na Bolívia
O Gilberto Gil que vemos, entre indeléveis imagens, é o de
“Olha lá vai passando a procissão
Se arrastando que nem cobra pelo chão
As pessoas que nela vão passando
Acreditam nas coisas lá do céu “
Paulinho da Viola é como um sucesso inapagável do tempo
“Não posso definir aquele azul
Não era do céu nem era do mar”
Milton Nascimento, em vez dos próximos 82 anos, é o criador em nosso
íntimo
“Maria, Maria é um dom, uma certa magia
Uma força que nos alerta
Uma mulher que merece viver e amar
Como outra qualquer do planeta”
Esses criadores, com aparência falsa de mais de 80 anos, neles somos até
mesmo os que não estão mais a nosso lado como Sidney Miller,
inesquecível
“Minha estrada, meu caminho,
Me responda de repente
Se eu aqui não vou sozinho,
Quem vai lá na minha frente?”
E lembrar poucos, o imediato destes que fazem parte de nós mesmos parece
até uma injustiça. Porque a sua lembrança envolve tantos e tantas, que a
individualização chega a ser um crime de lesa-humanidade. Quero dizer
que não se podem ausentar da nossa idade e formação Dorival Caymmi,
Pixinguinha, Noel Rosa, Cartola, Nelson Ferreira, Capiba, Antônio Maria,
Luiz Vieira, Dolores Duran, Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Geraldo
Pereira, Ismael Silva, Wilson Batista, Canhoto da Paraíba, Ernesto
Nazareth, João Pernambuco, Isaurinha Garcia, Aracy de Almeida, João do
Vale, Assis Valente, Tom Jobim, João Gilberto, Johhnny Alf, Elza Soares,
Elis Regina, Carmen Costa, meu Deus do céu, que injustiça seria se não
lembrássemos
E Gal Costa, o que seria de nós sem a sua rebeldia?
Então a refletir, descobrimos um fato contraditório em suas vidas. Ao
contrário do que recomendam os conservadores, ou a mais sensata
ponderação, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque, Milton
Nascimento, Paulinho da Viola, não se abrigaram da tempestade em
cabanas de urgência. Ainda que não tenham vestido uma couraça, uma
roupa de herói durante a ditadura, à sua maneira eles dormiram no chão
feito Ho Chi Minh no Vietnã. Eles foram expulsos da casa onde moravam,
como Karl Marx em Londres. Eles estiveram próximos dos olhos vidrados
de Che na Bolívia.

Eles estiveram com os heroicos militantes da resistência que foram às
últimas. Isto é, eles cantaram compuseram, desafiaram, sofreram o
terrorismo enquanto tudo era fascismo no horizonte do Brasil.
Em páginas do romance “A mais longa duração da juventude” escrevi:
“Vejo as águias encanecerem, acompanho os fios brancos de suas cabeças
se tornarem frágeis, quebradiços, e me falo e percebo que algumas não
piscaram no alto. No píncaro do tempo, não decaíram, como se fossem uma
revolta contra a biologia, contra a organização da vida que se desorganiza e
se desintegra quando chega ao fim. Parodiando Goethe no poema Um e
Tudo, eles foram atravessados pela alma do mundo, e com ela lutaram sem
descanso, como se vivos pudessem ter a eternidade. Tomaram outras
formas, mas mantiveram a permanência do ser da juventude”.
Calendário, recolhe-te à tua insignificância! Pois contar 1,2, 80 e mais, não
é compreender a marcha dos dias. A idade real desses criadores é a dos
seus tempos mais fecundos. Agora e sempre, até a penúltima gota de
tempestades.
*Vermelho Os jovens criadores de mais de 80 anos voltam à luta –
Vermelho
Urariano Mota – Escritor, jornalista. Autor de “A mais longa duração da juventude”, “O filho renegado de Deus” e “Soledad no Recife”. Também publicou o “Dicionário Amoroso do Recife”.
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ODONIR OLIVEIRA
22 de setembro de 2025 9:20 amBela postagem, Urariano. Relembrei outros tempos do Blog do Nassif e mesmo do GGN de uma década atrás. Talvez pelo brilho de seu texto e pelo colchão de plumas das manifestações de ontem Brasil afora. Como tudo era MELHOR!