4 de junho de 2026

Demanda chinesa: soja do Brasil ou dos EUA?, por Roberto César Cunha

Mais que uma competição, trata-se da consolidação de modelos distintos de produção agrícola e de inserção no mercado mundial.
Foto Embrapa Soja

Demanda chinesa: soja do Brasil ou dos EUA?

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por Roberto César Cunha

A China consolidou-se como o maior importador de soja do mundo, responsável por mais de 60% das compras globais do grão[1]. A soja não abastece apenas o mercado de óleo e proteína vegetal, mas constitui a base da ração para aves, suínos e bovinos — sustentando seu imenso parque agroindustrial e alimentando uma população de mais de 1,4 bilhão de habitantes. Nesse contexto, a disputa entre Brasil e Estados Unidos por esse mercado estratégico ganha dimensões de geoeconomia global. O Brasil destaca-se por uma base agrícola mais ampla, flexível e tecnologicamente adaptada, capaz de responder às demandas chinesas de forma contínua e escalonada, assegurando-lhe uma liderança estrutural difícil de ser contestada pelos EUA.

Em 2024/25, o Brasil alcançou produção recorde de 169 milhões de toneladas de soja, resultado de décadas de investimento em pesquisa e inovação agropecuária[2]. A Embrapa Soja, em parceria com centros privados e universidades, foi decisiva na criação de cultivares tropicais[3], resistentes à acidez do solo, ao alumínio tóxico e às doenças próprias do ambiente quente e úmido. Essa tropicalização ampliou a fronteira produtiva e consolidou o país como núcleo do complexo agroexportador da soja. Hoje, a produção distribui-se em um mosaico territorial: o Mato Grosso, maior produtor, com rotações soja-milho-algodão em vastas áreas mecanizadas; o Paraná, com forte mecanização empresarial; o Rio Grande do Sul e Santa Catarina, articulando lavoura e pecuária; e o Goiás e o Mato Grosso do Sul, convertido em área fértil graças à correção química e ao avanço tecnológico. No Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e oeste da Bahia), sementes adaptadas à seca e ao estresse hídrico abriram nova fronteira agrícola. Essa diversidade edafoclimática garante ciclos escalonados de safra, permitindo ao Brasil ofertar soja praticamente o ano inteiro, o que representa uma vantagem competitiva dinâmica no comércio internacional.

Nos Estados Unidos, a produção se concentra no Corn Belt[4], em estados como Iowa, Illinois, Minnesota, Indiana, Missouri, Nebraska e Ohio. Trata-se de uma base homogênea, altamente produtiva, mas dependente do calendário temperado — com apenas uma safra anual entre o verão e o outono. A tecnologia norte-americana, baseada em sementes transgênicas de alta produtividade e resistentes a herbicidas, assegura bons rendimentos, mas carece da plasticidade territorial alcançada pelo Brasil. Além disso, 55% a 56% da produção americana é consumida domesticamente[5], esmagada para atender às indústrias de biocombustíveis (especialmente o diesel renovável) e de rações. Apenas 41% a 43% da produção é destinada ao comércio exterior, o menor patamar desde 2007/08[6]. Em 2024, os EUA exportaram 22,1 milhões de toneladas de soja para a China (21% das importações chinesas), contra mais de 74 milhões de toneladas brasileiras[7] (70% do total) — uma disparidade que traduz a perda relativa da competitividade norte-americana (gráficos 1 e 2).

Gráfico 1 – Exportações para a China (2024)

Fonte: FAO – Importações chinesas de soja: https://www.fao.org/faostat/

Gráfico 2 –Evolução da fatia de mercado (2010–2025

Fonte: FAO – Importações chinesas de soja: https://www.fao.org/faostat/

No Brasil, a ciência agrícola garante elasticidade. O desenvolvimento de cultivares adaptados a diferentes fotoperíodos permite safras sucessivas[8], como soja-milho e soja-algodão, maximizando o uso da terra. A biotecnologia produziu variedades resistentes à seca, a pragas tropicais e a solos de baixa fertilidade, viabilizando a interiorização da soja. Esse processo revela que a vantagem brasileira não é apenas geográfica, mas resulta de um sistema nacional de inovação agropecuária que articula Estado, ciência e capital privado. Essa estrutura sustenta não apenas a expansão territorial, mas também a capacidade de consolidar o país como protagonista nas cadeias globais de valor da soja.

Esse protagonismo ganha ainda mais relevância diante da crescente demanda chinesa por carne, impulsionada pela urbanização, pela elevação da renda e pela mudança nos padrões alimentares. O consumo de carne suína segue dominante (cerca de 60% do total, com 57 milhões de toneladas em 2021[9]), mas aves e bovinos ampliam rapidamente sua participação. Projeções indicam que o consumo per capita de carne na China saltará de 63 kg em 2021 para 93 kg em 2030[10], enquanto o mercado, avaliado em USD 83,7 bilhões em 2024, poderá superar USD 258 bilhões até 2030[11], crescendo a taxas superiores a 20% ao ano. Estimativas sugerem que a produção total de carne da China, de 142 milhões de toneladas em 2020, pode alcançar 194 milhões em 2035[12], com destaque para aves e bovinos. Esse movimento reflete uma elasticidade-renda da demanda por proteínas animais, o que amplia diretamente a necessidade de farelo de soja para ração.

Diante disso, a demanda chinesa por soja importada é estruturalmente crescente. Os EUA, com sua rigidez produtiva e consumo interno elevado, não possuem elasticidade para ampliar suas exportações no mesmo ritmo. O Brasil, por sua vez, reúne escala produtiva, oferta contrassazonal e economias de escala que o posicionam como parceiro insubstituível da China. Essa interdependência reforça a centralidade brasileira na geoeconomia das commodities agrícolas e fortalece sua balança comercial, ao mesmo tempo em que projeta o país como ator-chave nos circuitos globais de acumulação de capital agroexportador.

Portanto, a disputa pelo mercado chinês da soja revela mais do que uma competição por volumes embarcados: trata-se da consolidação de modelos distintos de produção agrícola e de inserção no mercado mundial. O Brasil construiu um complexo agroexportador diversificado, flexível e intensivo em tecnologia, enquanto os EUA se apoiam em um modelo homogêneo e voltado ao mercado interno. O crescimento do consumo de carne na China reforça essa vantagem estrutural brasileira, projetando o país como fornecedor estratégico e hegemônico da maior economia asiática. Essa primazia não é conjuntural, mas resultado de décadas de investimento em ciência, infraestrutura logística e adaptação produtiva, assegurando ao Brasil uma posição central na geoeconomia internacional da soja.


[1]  FAO – Importações chinesas de soja: https://www.fao.org/faostat/

[2] CONAB (2024/25) – Produção recorde: https://www.conab.gov.br/

[3] Embrapa Soja – Cultivares tropicais: https://www.embrapa.br/soja

[4] USDA – Corn Belt produção: https://www.usda.gov/

[5] USDA – Consumo doméstico EUA: https://www.usda.gov/

[6] USDA – Exportações: https://www.usda.gov/

[7] USDA – Exportações: https://www.usda.gov/

[8] Embrapa – Fotoperíodos e safras sucessivas: https://www.embrapa.br/soja

[9] FAO – Consumo de carne suína na China: https://www.fao.org/faostat/

[10] FAO – Projeções produção de carnes China: https://www.fao.org/faostat/

[11]FAO – Projeções produção de carnes China: https://www.fao.org/faostat/

[12] FAO – Projeções produção de carnes China: https://www.fao.org/faostat/

Roberto César Cunha –  Geógrafo (UFMA), Doutor e Pós-doutor em Geografia Econômica (UFSC). Especialista em agronegócios e em Geoeconomia Verde. Pesquisador científico da FAPESC
Email: [email protected]
Lattes: http://lattes.cnpq.br/3879077640339404

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1 Comentário
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  1. Joel Palma

    24 de setembro de 2025 5:33 pm

    O Estado Malvadão investindo nossos impostos em pesquisa para o aumento dos lucros do agro…mas Bolsa Família não pode, né?

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