
no Substack: Amanhã não existe ainda
Contagem regressiva #52
Falta um ano para a eleição que escolherá o novo presidente da República, além dos governadores e ocupantes do Poder Legislativo. Com a esquerda na defensiva, a direita fragmentada na disputa pelo espólio do seu condenado líder inconteste e o mítico centro, como sempre, inexistente, o cenário é tenso, para dizer o mínimo. A partir de hoje, vou publicar semanalmente uma análise da conjuntura focada no cenário eleitoral: a contagem regressiva para 4 de outubro de 2026.
Três anos depois da dramática eleição de 2022, fica patente que o grande realinhamento político-eleitoral no Brasil, aquele que foi desenhado a partir da agitação para o golpe de 2016, está longe de se esgotar.
O espaço da esquerda está integralmente ocupado pelo Partido dos Trabalhadores – ou, melhor, por Lula e pelo lulismo. Por mais que sua política de extrema moderação, conciliação ou mesmo capitulação incomode a alguns, não se produziram condições para o surgimento de uma alternativa. Mesmo o PSOL, que, com todas as suas idiossincrasias, tentou encarnar esta alternativa quando surgiu, resignou-se a virar um satélite do PT e um fiel do lulismo.
A direita tornou-se sinônimo de bolsonarismo. Os problemas legais do chefe têm levado a uma disputa acirrada por seu espólio eleitoral, sem que se esbocem movimentos de distanciamento em relação a ele. Mas a situação é bem diversa daquela de Lula, quando foi impedido de concorrer em 2018 – e não apenas porque um impedimento foi forjado pela Lava Jato, enquanto o outro é ancorado em uma montanha de fatos. Lula pacificou seu campo ao escolher Haddad como sucessor em 2018. Jair não mostra esta ascendência, seja pelo estilo de liderança, seja porque nunca se preocupou em organizar uma estrutura partidária, preferindo operar na lógica do clã.
Aquilo que, no Brasil, se aproxima de um centro “real”, como uma parcela do PSB, o MDB de Tebet ou o grupo de Marina Silva, foi levado, pela agressividade e irracionalidade da extrema-direita, a embarcar na coalizão lulista. Aos viúvos da “terceira via”, no empresariado e na imprensa, resta apenas a esperança vã de civilizar algum trânsfuga do bolsonarismo e dotá-lo de viabilidade eleitoral. Mas, como mostra o comportamento de sua aposta preferencial, o governador paulista Tarcísio de Freitas, é remotíssima a possibilidade de que isso dê certo.
Não temos centro, mas temos Centrão: a miríade de operadores políticos que pensa exclusivamente em suas vantagens de curto prazo (cargos, prebendas, verbas, oportunidades de corrupção) e age com pragmatismo cínico. Embora boa parte do esforço de Lula, antes como agora, seja cortejar esse pessoal, em nome da “governabilidade”, é inequívoco que a simpatia espontânea deles vai para Bolsonaro. Talvez porque o PT, bem ou mal, dá voz a movimentos populares que tensionam suas práticas tradicionais; talvez porque saibam ou intuam que o atraso, que o ex-capitão encarna melhor do que ninguém, é condição necessária para o seu sucesso. Seja como for, tal como aconteceu em 2022, Lula vai ter que agir para obter não o apoio, que é improvável, mas a neutralidade de pelo menos uma parte deste grupo.
E, também como em 2022, o que Lula tem de principal a apresentar ao eleitorado é a oportunidade de impedir o retorno da extrema-direita ao poder. O que parece ser ainda mais indispensável, a crer no exemplo dos Estados Unidos, onde a volta de Trump se mostrou muitas vezes mais destrutiva do que já havia sido seu primeiro mandato.

A rigor, a situação difere da eleição passada. Nela, a campanha do candidato do PT se apoiava em dois pilares: estancar a devastação bolsonarista e restaurar o tempo dourado de seus primeiros mandatos. Mas seu novo governo não foi capaz de empolgar e, após três anos, não há como continuar colocando a culpa na herança maldita da presidência anterior – por mais que a desorganização da máquina do Estado no quadriênio de Bolsonaro e Guedes tenham deixado marcas que ainda se fazem sentir.
Falta um plano de desenvolvimento para o país. Não se avançou na recomposição dos direitos trabalhistas, muito menos na sua extensão às novas relações laborais do capitalismo contemporâneo. A política de proteção ambiental ficou muito mais na retórica do que na prática. Em uma área fundamental, como a saúde, o governo não conseguiu sequer recuperar a cobertura de vacinação – e, em outros aspectos, tudo o que pôde oferecer foi a promessa de transferência de pacientes do SUS para a rede privada. Outra área fundamental, a educação, permaneceu presa a projetos privatizantes, não buscou qualquer diálogo efetivo com estudantes e profissionais das escolas em um tema tão sensível quanto a reforma do ensino médio e, de maneira geral, apostou no aprofundamento de soluções neoliberais, com a distribuição de dinheiro para indivíduos, na forma de “pés de meia”, em vez de buscar soluções estruturais. Na segurança pública, incapaz de apresentar um projeto, o governo permitiu que a população permanecesse refém do discurso punitivista esgrimido pela direita. Os ministérios entregues à representatividade de grupos minoritários mostraram uma aguda incapacidade de gestão. Neles, mas não só, há uma luta fratricida e paralisante por cargos e visibilidade.
Este não é todo o quadro, é claro. A tabelinha do bolsonarismo com Washington, configurando uma verdadeira traição aos interesses do país, deu ao governo a possibilidade de recuperar o discurso do nacionalismo, que a extrema-direita insistia em usurpar. É a chance de equilibrar um pouco o jogo neste campo. O escândalo deflagrado pelo influenciador Felca, sobre a exploração de crianças nas plataformas virtuais, colocou a direita na defensiva na questão da regulação das redes; a PEC da Blindagem animou as ruas contra um Congresso corrupto; as questões da tributação dos ricos e da escala 6×1 permitiram à esquerda disputar a posição de defensora do povo contra as elites. Em suma, o lulismo tem condições de recuperar seu discurso.
E o governo tem também “boas notícias” para apresentar. O Brasil voltou a sair do mapa da fome, o desemprego está em baixa histórica. Seria possível pensar na reedição da situação dos primeiros mandatos petistas: políticas compensatórias reduzindo a vulnerabilidade dos mais pobres e expansão do mercado de trabalho com vagas de baixa qualificação. Mas, enquanto lá se disseminava a ideia de que, ainda que aos trancos e barrancos, o Brasil estava encontrando um rumo, agora predomina o sentimento de que estamos empacados.
Vários fatores precisam ser mobilizados para explicar esta diferença, que não é apenas, nem mesmo sobretudo, um problema de comunicação do governo. Um deles, sempre lembrado pelos analistas, é que a ascensão da extrema-direita mudou o jogo, colocando no centro da disputa certos valores que, em sua narrativa, estariam sendo ameaçados pela erosão das hierarquias sociais. O lulismo se mostra despreparado para reagir a esta situação. Por um lado, é incapaz de reativar a solidariedade de classe, preferindo acenar ao discurso individualista e meritocrático que é o de seus adversários. Por outro, em suas franjas que se querem mais “progressistas”, cede a modismos identitários que, embora desprovidos de substância, são mal deglutidos por grande parte da população.
(Alerta – ou “disclaimer”, como se diz no português de hoje – sempre necessário: o que eu chamo de “modismos identitários” são discursos que se exibem como transgressores e a ocupação simbólica de espaços de representatividade por integrantes privilegiados de grupos subalternos, mas que nada afetam as estruturas de dominação vigentes na sociedade. É bater pé no uso do pronome neutro, mas silenciar sobre o direito ao aborto. É exaltar a “negritude”, mas não enfrentar a exploração e a marginalização de uma classe trabalhadora que, quanto mais espoliada, mais negra é.)
Além disso, a inflação elevada, sobretudo para aquilo que afeta os mais pobres, como alimentos, combustível e aluguéis, corrói a sensação de bem-estar que o alívio na situação econômica podia gerar. O governo tem uma margem de manobra limitada, com a política de juros altos imposta pelo Banco Central (sendo que agora nem é mais possível culpar Roberto Campos Neto), o sequestro do orçamento público pelo Congresso, as restrições ao investimento público pela ortodoxia fiscalista e os vetos a qualquer mudança mais profunda na estrutura tributária. De resto, escaldada pela queda abrupta em meados da década de 2010, com a recessão que fez retroceder rapidamente muitos dos ganhos dos anos anteriores, a população não está disposta a se entusiasmar facilmente.
Mas o principal motivo pelo qual não se sente que o Brasil encontrou um rumo é que realmente não temos um rumo. No primeiro ciclo petista, era possível dizer que, paradoxalmente, a ausência de um projeto de país era o rumo apontado pelo governo. Lula e, em menor medida, Dilma tinham interiorizado a correlação de forças adversa e buscavam sobretudo identificar brechas que permitissem avanços pontuais. A ideia, para expor de uma forma esquemática, era que as mudanças assim obtidas seriam aceitas pelas classes dominantes, no processo de construção inofensiva de um país um pouco menos injusto e violento – inofensiva para elas, classes dominantes, que não veriam ameaçada sua posição na sociedade.
A crise aberta com a deflagração do golpe de 2016 e, em seguida, com a ascensão do bolsonarismo tornou insustentável esta racionalização. As classes dominantes já mostraram que não desejam esse país menos injusto e menos violento. Muito pelo contrário, elas dependem da desigualdade aberrante e da vulnerabilidade extrema da massa da população. A sequência de declarações contra os programas de transferência de renda, como o Bolsa Família, por empresários de sucesso é apenas a ilustração folclórica de um fenômeno estrutural. O baixo dinamismo da economia brasileira faz com que, para amplos setores, a inserção nos mercados internacionais dependa da superexploração da mão de obra. Por outro lado, como Jacob Gorender já apontava em relação à nossa elite escravagista, é uma classe dominante dominada, com baixa autonomia, dependente de seus parceiros externos. Assim, a distância social em relação ao restante da população é um componente central para sua autoestima. Em suma: desigualdade e miséria não são facultativas.
O conflito tarifário com os Estados Unidos deu a Lula a chance de recompor pontes com essa gente. O risco, porém, é que esta recomposição leve a mais uma acomodação com o status quo, enterrando o primeiro esboço de enfrentamento que o governo foi capaz de articular – a campanha sobre a injustiça tributária no Brasil. Sempre lembrando que o apoio das classes dominantes ao projeto nacionalista será, como de costume, incerto e efêmero.
De fato, até agora, os ataques do clã Bolsonaro à economia nacional causaram reclamações e estranhamento, mas não afetaram a simpatia da burguesia pela extrema-direita.
É um pleito que se avizinha desafiador. As pesquisas de intenção de voto apresentam Lula um pouco à frente do candidato da direita, quem quer que seja ele. Mas elas significam muito pouca coisa, ainda mais com tanta antecedência. Não se mostram persuasivas nem mesmo para levar ao efeito de manada, de partidos e financiadores querendo ficar ao lado do possível vencedor.
O presidente está ainda mais envelhecido do que em 2022 – quando seu desempenho em campanha ficou longe do que se viu em eleições anteriores. É provável que enfrente um adversário mais articulado do que Jair Bolsonaro. O uso da máquina do Estado para impedir a livre manifestação dos eleitores e fraudar o resultado não estará mais presente, o que é uma excelente notícia, tanto para a candidatura de Lula quanto para a democracia. Mas o jogo sujo da desinformação nas plataformas sociodigitais estará a toda, turbinada pela disseminação das ferramentas de inteligência artificial, bem como a instrumentalização da religião e a pressão sobre os fiéis por um alinhamento à direita.
Ganhar a votação parece possível. Mais difícil é imaginar que no novo mandato, seu quarto, Lula será capaz de atuar de forma menos retrancada, avançando no caminho da superação da ameaça da extrema-direita e introduzindo transformações mais profundas na sociedade brasileira. Este veredito é sustentado pelo prognóstico sobre a composição do próximo Congresso, já que ninguém em sã consciência imagina que será muito diferente do atual. Por consequência, das concessões que o presidente reeleito precisará fazer em nome da bendita “governabilidade”. Com o governo carente de apetite para qualquer enfrentamento e com a esquerda incapaz de reativar a mobilização popular na amplitude necessária, serão mais quatro anos de agonia para chegar, em 2030, a uma nova decisão apocalíptica – e, desta vez, sem o nome de Lula na urna.
Luis Felipe Miguel é professor do Instituto de Ciência Política da UnB. Autor, entre outros livros, de O colapso da democracia no Brasil (Expressão Popular). Coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Democracia e Desigualdades (Demodê).
O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.
“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN “
Carlos
6 de outubro de 2025 1:13 pmSegundo o texto: “…o governo Lula tem pouco a oferecer além da renovada promessa de deter o bolsonarismo.”
Precisa de mais?
Este chorume denominado bolsonarismo é um cancro, não se convive com isso e leva mais do que três anos para eliminar seus efeitos nocivos