4 de junho de 2026

Mourão e o projeto que deu prejuízo milionário ao Exército

Reprovado em todos os testes, projeto de simuladores gerido pelo general expõe decisões solitárias dentro do Exército
Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

O general Hamilton Mourão assumiu como gerente de um projeto militar que, segundo um dos oficiais envolvidos, resultou em um prejuízo de mais de R$ 100 milhões aos cofres públicos e numa sucessão de irregularidades encobertas dentro do Exército.

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

O que começou como um projeto para modernizar o treinamento militar com simuladores de artilharia, o projeto Simaf, se transformou em um caso de desvio estratégico e moral.

Quem conta é o coronel da reserva Rubens Pierrotti Júnior, advogado e autor do livro “Diários da Caserna – Dossiê Smart: a história que o Exército quer riscar”, em entrevista ao programa TVGGN Justiça [confira abaixo], onde narra os bastidores e irregularidades que marcaram o projeto.

“Foi um general que teve a ideia — o general Marco Aurélio, que na época comandava as escolas militares e depois foi secretário de Esportes do governo Bolsonaro. Ele via que o armamento da artilharia do Exército estava muito defasado, e a força não tinha recursos para comprar novos equipamentos. Então pensou: se não há dinheiro para comprar equipamentos, vamos pelo menos comprar um simulador”, conta Rubens Pierrotti Júnior, à TV GGN.

O projeto “Simaf”

Pierrotti participou diretamente da execução do projeto, lançado em 2010, durante o comando do general Marco Aurélio Costa Vieira, antes de Mourão assumir a gerência. Segundo ele, a proposta se apoiava em dois argumentos genéricos: menor custo e segurança.

O contrato para o desenvolvimento do sistema Simaf, que gera cenários e missões virtuais para o treinamento tático de militares, foi firmado com a empresa espanhola Tecnobit e previa transferência de tecnologia, além da instalação de simuladores em dois centros de treinamento: a Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), em Resende, e o Centro de Simulação de Santa Maria (RS).

“É baseado numa história real, de um projeto que eu participei no Exército. O Exército buscava adquirir tecnologia para construir simuladores, mas o processo foi cheio de impropriedades, cheio de coisas erradas, muito deturpado. Aconteceram diversos problemas. E depois que eu passei para a reserva, resolvi contar essa história”.

De acordo com o coronel, o projeto estava previsto para durar três anos, com custo aproximado de R$ 40 milhões, mas se prolongou por mais três, gerando gastos adicionais significativos.

Mourão, à época lotado no Comando Militar Sul, assumiu o projeto após uma crise interna e conduziu pessoalmente as negociações com a Tecnobit. Quando os primeiros protótipos chegaram ao Brasil, o simulador foi submetido a uma série de testes técnicos. Os resultados, porém, foram desastrosos.

“Nós testamos o simulador sete vezes, e ele foi reprovado em todas. A empresa dizia que corrigia, mas nada mudava”, relata. Diante das falhas recorrentes, o grupo responsável pelo acompanhamento técnico se recusou a aprovar o recebimento do equipamento.

Prevaleceu a vontade do general

Mesmo assim, Mourão decidiu seguir adiante com o pagamento. “Para liberar o pagamento, eram necessárias três assinaturas: a do gerente, a minha e a do fiscal do contrato. Eu e o coronel Silas [fiscal] nos recusamos a assinar. Mourão assinou sozinho. Isso deu um problema enorme. A empresa chegou a ameaçar levar o caso para uma corte arbitral em Nova York, conforme previsto no contrato”, revela o coronel.

O caso foi investigado pelo Tribunal de Contas da União, que constatou que o edital da licitação favorecia a empresa Tecnobit, reproduzindo praticamente propostas que ela havia enviado anteriormente, o que configurava direcionamento por parte do comando do projeto. Mesmo assim, seguiu adiante.

“Durou o dobro e custou mais que o dobro. Encontraram [TCU] diversas irregularidades, mas o julgamento durou três minutos. O ministro [Marcos Bemquerer Costa] disse apenas: ‘Não façam mais isso’. E acabou em pizza”.

“Todos os pareceres técnicos foram contrários: da AMAN, da Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais, do Departamento de Ciência e Tecnologia. Todos disseram que não valia a pena importar uma tecnologia estrangeira cara e defasada. Esses pareceres foram engavetados. Prevaleceu a vontade de um grupo pequeno de generais que queria o contrato fechado a qualquer custo”.

Apesar dos pareceres técnicos contrários, o Exército conseguiu uma aprovação formal por meio de um estudo do Estado-Maior, que autorizou a aquisição do simulador no mercado externo.

Mais de dez anos depois, o simulador continua sem funcionar plenamente. “Recebo relatos de instrutores dizendo que o equipamento não opera como deveria. O Exército criou um grupo de trabalho para desenvolver a versão 2.0, mas nunca entregou a 1.0. É a síntese da gestão militar brasileira: ineficiência coberta por hierarquia”.

O caso do projeto Smart foi parar em um dossiê entregue a jornalistas do El País, reunindo cerca de 1.300 páginas de documentos e relatórios internos. “Era um material robusto, com provas de irregularidades, notas fiscais, despachos, atas de reuniões, tudo. O Ministério Público Militar arquivou a denúncia dizendo que era anônima. É o padrão: se o acusado é general, não se investiga”, diz Pierrotti.

À TV GGN, o coronel conta que escreveu o livro como forma de registrar o que viveu, mas que ainda paga o preço por isso. “Escrevi como romance porque, se fosse denúncia, iam me prender. Mesmo assim, o Exército me processou por ofensa às Forças Armadas e abriu um tribunal de honra para tentar me expulsar da reserva e cassar a aposentadoria. É o lawfare militar: usam o regulamento como arma política, como fizeram na ditadura”.

Apesar da retaliação, “Diários da Caserna – Dossiê Smart” foi finalista do Prêmio Laurel Verbo, segundo colocado no Prêmio Book Brasil, e está entre os finalistas do Jabuti e do International Latino Book Awards, em San Diego.

“O subtítulo ‘a história que o Exército quer riscar’ acabou sendo profético. Eles realmente querem apagar essa história. Mas eu vivi isso por dentro, e não vou deixar que apaguem”.

Assista ao programa completo aqui:

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

7 Comentários
...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  1. Anônimo

    18 de outubro de 2025 11:07 am

    Voltamos a velha conversa desde os tempos de bolsonaro: a ineficiência e a irresponsabilidade dos altos escalões das forças armadas. Isso porque como são inimputáveis, não tem que dar satisfações a nenhum orgao superior agem como crianças mimadas

  2. AMBAR

    18 de outubro de 2025 5:30 pm

    É, o Brasil tem que um país pacífico, pelo menos para inimigos externos.Não aguenta duas horas de guerra. Eficiente quando atua contra o povo, forte nos conluios e na corrupção, segue o perfil padrão dos exércitos de republiquetas sul americanas. E, convenhamos, temos um exército que é uma piada pronta: tanques que desfilam soltando fumaça preta e precisam ser empurrados pelos soldados, equipamentos defeituodos, oficiais relaxados e mal formados, e, puxa, um ministro de nome Bemquerer para julgar os mal feitos de um general. Não tem como dar certo.
    Fosse na China e olha só no que daria : https://actualidad.rt.com/actualidad/569304-tercer-militar-poderoso-china-destituido-corrupcion

    1. AMBAR

      18 de outubro de 2025 9:57 pm

      Corrigindo: O Brasil tem que ser um país pacífico.

  3. José de Almeida Bispo

    18 de outubro de 2025 6:36 pm

    Não se compra tecnologia militar estrangeira.
    NÃO SE COMPRA TECNOLOGIA MILITAR ESTRANGEIRA. De ninguém. Se é incapaz de produzir, por preguiça, desleixo, mesquinharia ou algo pior: TRAIÇÃO, poupem os contribuintes de gastos e falsas esperanças de soberania.

  4. TWA

    19 de outubro de 2025 11:51 am

    Colocar políticos em postos chaves para tomar decisões pelas quais eles nunca serão responsabilizados dá nisso !
    Vejam a refinaria de Pernambuco, as usinas a fio d’água da Dilma que não produzem energia e estamos em bandeira vermelha, (tem uma no MT que está sendo descomissionada por falência estrutural da construção, as rodovias federais privatizadas na era Dilma cujo modelo era totalmente errado, ficamos mais de 10 anos pagando pedágios sem obras, as bilionárias arenas de futebol da copa, e dos jogos olímpicos apodrecendo, o polo petroquímico no RJ…. O gigantesco déficit das estatais no Lula 3, que certamente será coberto com recursos de mais dívida, mais inflação (impressão de moeda) ou menor recurso para educação…. etc Por isso tem que privatizar com modelagem séria ! Estatal é sinônimo de corrupção, mal serviço, e rombos.

  5. marcio gaúcho

    20 de outubro de 2025 10:49 am

    Os gordos e balofos generais brasileiros são o exemplo da ineficiência das forças armadas. Boas comidas, bebidas importadas, viagra à vontade e comissões sobre as compras. Tudo isso impune!

  6. Tadeu Silva

    20 de outubro de 2025 3:13 pm

    “Nós nascemos na Esbórnia”, quem lembra?

Recomendados para você

Recomendados