5 de junho de 2026

Um álbum especial, por Aquiles Rique Reis

Entre Arcos é o álbum do mestre fandangueiro Zé Pereira e do músico e pesquisador Felipe Gomide.

Um álbum especial

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por Aquiles Rique Reis

Hoje falaremos de Entre Arcos (Mandril Áudio), álbum do mestre fandangueiro Zé Pereira e do músico e pesquisador Felipe Gomide. O primeiro, guardião da tradição caiçara do fandango, é natural de Ariri, no litoral de São Paulo; o segundo, um paulistano, é referência no ensino e difusão da rabeca e do pífano. Importante é que, juntos, revelam a energia do encontro de suas gerações.

            Ungido a patrimônio imaterial, o fandango é uma festa cuja dança a dois, feita em compasso ternário, tem influências árabe e flamenca. Proveniente de Portugal e Espanha, o gênero, uma das manifestações populares mais antigas do Brasil, foi trazido para cá pelos colonizadores. Apesar de ter nomes diferentes a depender da região do Brasil, hoje, por se tratar de Mestre Zé Pereira, trataremos apenas do fandango caiçara.

            Ao ouvir as onze faixas, todas de autoria do mestre, vieram-me às ideias sua semelhança espiritual com as canções praieiras de Dorival Caymmi: o mar, as aves marinhas, os pescadores, estão ali como imagens singulares de um país com sete mil quilômetros de litoral.

            “Entrada do Divino”, tocada apenas pela rabeca de Mestre Zé Pereira, é precedida pelo alvoroço de aves a voejar.

“Meu Pé de Rosa” vem pelas rabecas de Mestre Zé Pereira e Felipe Gomide, numa levada amaxixada que lhe dá ares faceiros.

“Adeus Morena”: o piano inicia, e logo as rabecas vêm para se juntar à laúza das aves marinhas.

            “Ai Moreninha”: ouve-se o marulhar das ondas e logo o cello toca com ele, para ele, enquanto Mestre Zé anuncia: “O que aprendi, estou aprendendo, ainda”. As flautas e as rabecas vibram alegremente.

“Avião Estrangeiro”: a sanfona resfolega e o folguedo rola com as rabecas.
            “Embaixo da Laranjeira”: a flauta vem, e o som da viola machete de Mestre Zé Pereira se mistura com ela. As rabecas vêm. A viola ponteia e a percussão açula.
            “Larilailai”: uma nota contínua da sanfona se cola à rabeca e o duo soa afetuoso. Vêm as duas rabecas e o couro come. O bandolim se achega com tudo.

“Cabelo Ondado”: as rabecas, apoiadas pelo pandeiro, encontram-se com o violão e o cello. A festança, com pinta de baião nordestino, come solta, até restar um solo do pandeiro que prenuncia o final.

            “Minha Moreninha”: o piano inicia e o surdo embalança com a machete.
            “Toada de Longe”: rabecas, sanfona, percussão, baixo e bandolim, se ajuntam ao cello e a flauta, reverenciando um dos inúmeros toques do fandango.

“Despedida do Divino”: a rabeca de Mestre Zé Pereira toca para finalizar um álbum que reflete como poucos a diversidade da música popular brasileira, aquela que, a meu ver, faz dela a melhor do mundo.

Aquiles Rique Reis

            Nossos protetores nunca desistem de nós.

Ficha técnica: Ariane Rodrigues (flauta), Natanael Souza (acordeom), Henrique Gomide (piano), Ana Eliza Colomar (cello), Gedeão Soares (percussão), Bruno Pontalti (mixagem e masterização), Felipe Gomide e Rodrigo Ramos (arranjos e produção).

Ouça o álbum:

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Aquiles Rique Reis

Músico, integrante do grupo MPB4, dublador e crítico de música.

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Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

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