
Foi um italiano chamado Beccaria, autor do livro “Do Delito e das Penas”, que introduziu no ocidente, ainda no século XVIII, o conceito jurídico de que a pena não devia ser um ato de vingança mas uma oportunidade para regeneração do criminoso. Assim, há um recuo de mais de dois séculos nos nossos padrões de civilização quando, por força de um clamor público inventado pela mídia raivosa, os condenados do chamado “mensalão” são perseguidos por uma Justiça vingativa até mesmo dentro cadeia.
Ao ouvir essas ponderações do professor Galileu, Simplício se deu conta de que era melhor esquecer essa história do “mensalão” para evitar que, por puro espírito de justiça, se começasse a insultar a mãe de alguns ministros. “Veja você, se as condenações fossem absolutamente justas, inequívocas, cristalinas, não aconteceria que quatro ministros, ou seja, um terço do total votasse contra a condenação de Dirceu e Genoíno. Só isso basta para pôr em dúvida a justiça da sentença. A condenação foi um ato midiático, e pronto”, disse Angeline.
-Vão dizer que falamos isso porque somos todos do PT, observou Simplício.
– Eu não sou, disse Galileu, e sei que vocês também não são. Acontece que não gosto de ver injustiças. Pertenço àquele tipo de gente que, sem ganhar nada, me juntaria numa campanha para salvar da cadeira elétrica um condenado injustiçado. Também não acho que se deve tratar com pão-de-ló criminosos hediondos. Entretanto, a todos os condenados se deve dar uma oportunidade de regeneração já que o crime, muitas vezes, nasce de condições sociais degradantes, sendo que a própria sociedade tem culpa nisso.
– A culpa de Dirceu e Genoíno é que a sociedade política possibilitou o caixa dois eleitoral, disse Simplício.
– E o curioso é que o julgamento do “mensalão” que não foi mensal não contribuiu um milímetro para o fim da prática do caixa dois nas campanhas , observou Galileu.
– Como assim?, quis saber Simplício.
– A única forma de acabar com o caixa dois é pelo financiamento público das campanhas. O problema é que imprensa enxovalhou de tal forma os políticos que a sociedade dificilmente apoiará dar dinheiro público para campanhas políticas. Daí o círculo vicioso.
– Mas nos conte por que o senhor está tão irritado com a perseguição a Dirceu a ponto de invocar um testemunho do século XVIII?, perguntou Angeline.
– Veja, a principal forma de reabilitar um preso é pelo trabalho. A Globo tomou o emprego que Dirceu arranjou antes mesmo do pronunciamento judicial. Agora limitam as visitas. E não deixam ele usar computador. Querem imobilizá-lo fisicamente.
– O lado bom disso, concluiu Angeline, é que Dirceu terá tempo de sobra para organizar uma fuga em massa da Papuda.
Simplício escreveu na agenda vermelha: A vingança da Globo e de Veja contra Dirceu é a vingança do rato solto contra o gato preso.
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