4 de junho de 2026

A tempestade sobre a Venezuela, por Maria Luiza Falcão

Trump sugerir espaço aéreo venezuelano fechado não é aleatório, é momento típico que antecede intervenções por parte dos Estados Unidos.
Porta-aviões USS Gerald R. Ford - Reprodução X

1. **EUA reforçam presença militar no Caribe para pressionar Venezuela**: Navios de guerra e tropas se posicionam em ação que pode desencadear conflito real.

2. **Retórica antidrogas dos EUA como pretexto para intervenção**: Designação de grupo terrorista e ações militares sob pretexto de combate ao narcotráfico.

3. **Venezuela à beira de uma catástrofe humanitária**: População vulnerável diante de possível intervenção militar externa, com riscos para infraestruturas e impacto regional.

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A tempestade sobre a Venezuela

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por Maria Luiza Falcão Silva

A crise venezuelana entrou, nas últimas semanas, em uma zona de perigo que não se via desde as grandes operações norte-americanas do século XX. A Venezuela — nação sul-americana com forte projeção estratégica sobre o Caribe — tornou-se o epicentro de uma escalada militar dos Estados Unidos (EUA) que combina provocações públicas, deslocamentos bélicos de grande escala e a construção sistemática de um pretexto para o uso da força. A recente declaração do presidente Donald Trump, sugerindo que companhias aéreas deveriam “considerar o espaço aéreo venezuelano fechado”, não é um rompante aleatório: é um aceno típico de momentos que antecederam intervenções. Quando somado ao deslocamento de navios, aviões e tropas, o alerta compõe um quadro que pode desaguar em conflito real.

O cerco militar: o maior reforço dos EUA no Caribe em décadas

Nas últimas semanas, o governo Trump enviou o porta-aviões USS Gerald R. Ford para águas estratégicas próximas ao território venezuelano, ladeado por destroieres, embarcações anfíbias, aeronaves de combate e cerca de 15 mil soldados posicionados entre navios de guerra e bases em Porto Rico.

Enquanto os Estados Unidos ameaçam atacar a Venezuela, alguns aliados caribenhos estão oferecendo apoio. O presidente dominicano Luis Abinader autorizou as forças armadas dos EUA a operarem em áreas restritas da Base Aérea de San Isidro e do Aeroporto Internacional Las Américas, no âmbito da luta contra os narcotraficantes venezuelanos, ampliando a capacidade operacional dos EUA no Caribe.

Segundo o The Washington Post, Hegseth – do Departamento da Guerra – afirmou que o destacamento teria uma “presença pequena, seria temporário, respeitando integralmente a sua soberania e as suas leis”. Ele o chamou de “um modelo para a região, um modelo que esperamos desenvolver” para outros países que desejam “unir forças conosco”.

Sabe-se, no entanto, que é o maior dispositivo militar dos EUA no entorno caribenho da América do Sul desde a invasão do Panamá, em 1989. Não se trata de mera demonstração de força. O arranjo militar está montado para permitir ataques rápidos, caso a ordem seja dada. A mensagem enviada ao mundo, e especialmente aos países vizinhos, é inequívoca: Washington está disposto a empurrar a fronteira da confrontação.

Com Trump está, também, a primeira-ministra de Trinidad e Tobago, Kamla Persad-Bissessar, que tem sido uma “defensora declarada” das ações do governo Trump em relação às ilhas. “Não tenho nenhuma simpatia por traficantes”, disse ela após o primeiro ataque — em setembro — que matou 11 pessoas. “Os militares dos EUA deveriam matá-los a todos violentamente” , reporta o Washington Post em matéria de Sammy Westfall intitulada: “Aqui estão os aliados caribenhos que estão ajudando os EUA contra a Venezuela” (tradução livre). Assustadores e violentos parecem, também, os líderes de extrema direita que se propagam no Caribe e na América do Sul.

A retórica antidrogas como justificativa em construção

Para sustentar essa escalada, Trump designou o chamado Cartel de los Soles como organização terrorista estrangeira. A decisão, embora politicamente ruidosa, carece de base factual sólida: o grupo não é um cartel estruturado nem possui comando unificado. Além disso, autoridades norte-americanas admitem que apenas pequena fração das drogas que circulam pela Venezuela chega aos Estados Unidos. O grosso do fluxo segue para a Europa ou para o Caribe.

A retórica antidrogas, portanto, funciona como pretexto — não como diagnóstico. Ela aciona mecanismos jurídicos domésticos nos EUA, abrindo espaço para operações militares que não seriam justificáveis por vias tradicionais. É um roteiro familiar a quem estudou as intervenções norte-americanas do século XX: antes dos tanques e bombardeios, vem sempre a fabricação de um inimigo criminal ou terrorista.

Um país mobilizado e sem informações confiáveis

Diante da escalada externa, o governo Maduro iniciou mobilização militar interna. Tropas foram deslocadas para zonas estratégicas, baterias antiaéreas foram ativadas e exercícios de defesa aérea se intensificaram. Mas a população, marcada por uma década de colapso econômico, hiperinflação, desabastecimento, deterioração institucional e migração em massa, enfrenta essa conjuntura em absoluta vulnerabilidade.

Entre o medo da intervenção e a falta de confiança nas informações oficiais, milhões de venezuelanos vivem num vácuo informativo. Esse ambiente, marcado por rumores e ansiedade coletiva, é terreno fértil para pânico, deslocamentos precipitados e para legitimar futuras operações “humanitárias” que, de humanitárias, quase nunca têm mais que o nome.

O impacto humanitário: uma tragédia anunciada

Uma intervenção militar teria efeitos devastadores sobre a população venezuelana, já fragilizada por colapso econômico e precariedade estrutural. Mesmo ataques aéreos classificados como “cirúrgicos” atingiriam áreas urbanas densas, colocando em risco hospitais, escolas, redes elétricas, centrais de água e sistemas de transporte. A Venezuela vive, hoje, uma crise humanitária silenciosa; uma operação militar externa a transformaria numa catástrofe aberta.

O país possui regiões inteiras sob influência de grupos paramilitares, gangues armadas e facções remanescentes da guerrilha. Qualquer ataque pode desencadear disputas violentas, rearranjos territoriais e explosões de criminalidade. Organismos humanitários alertam que milhões de venezuelanos já enfrentam insegurança alimentar severa — número que poderia se multiplicar rapidamente caso infraestruturas críticas fossem destruídas.

Para os países vizinhos, especialmente Colômbia e Brasil, os efeitos seriam imediatos. Fronteiras pressionadas por novos fluxos migratórios, cidades sobrecarregadas, serviços públicos colapsados, aumento da tensão social e episódios de xenofobia fariam parte de um cenário regional explosivo. O impacto, portanto, não seria apenas interno: irradiar-se-ia por toda a América do Sul.

Que tipo de ataque está sobre a mesa?

Analistas apontam diferentes cenários: ataques limitados a bases militares e radares, destruição seletiva de pistas clandestinas e supostos laboratórios de refino, ou uma zona de exclusão aérea — hipótese que exigiria destruir previamente os sistemas de defesa antiaérea venezuelanos, equipados com tecnologia russa.

Nenhum desses cenários seria contido. A Venezuela pode estar militarmente enfraquecida, mas possui defesas capazes de gerar danos e riscos reais. Uma intervenção poderia escalar rapidamente, transformando-se em conflito prolongado, com alto custo político e humanitário.

O continente diante do precipício

A escalada contra a Venezuela revela um padrão histórico — agora atualizado — de projeção de poder dos Estados Unidos no hemisfério. Ao longo do século XX, Washington alternou intervenções diretas, como no Panamá e na ocupação do Haiti, com operações indiretas ou clandestinas, como a derrubada de Árbenz na Guatemala, o apoio aos Contras na Nicarágua ou a interferência que precedeu o golpe no Chile.

Os métodos mudaram, mas a lógica persiste: criar justificativas para ações que expandem a influência norte-americana em zonas consideradas estratégicas.

A Venezuela tornou-se, neste início de século XXI, o laboratório dessa nova forma de intervenção. Um país já exausto e socialmente fraturado é empurrado para o centro de uma disputa que envolve petróleo, rotas marítimas, redes energéticas, influência sobre o Caribe e a tentativa dos Estados Unidos de restabelecer um tipo de hegemonia que, globalmente, tende a se dissipar.

Independentemente de posições ideológicas, uma intervenção militar colocaria toda a América do Sul em risco: ampliaria fluxos migratórios, tensionaria fronteiras, reativaria a Doutrina Monroe sob novos disfarces e enfraqueceria os mecanismos diplomáticos regionais. O Brasil, historicamente comprometido com a solução negociada e a não intervenção, tem responsabilidade real: defender a soberania venezuelana e a estabilidade do continente, antes que o conflito ultrapasse o ponto de retorno.

A Venezuela está no fio da navalha. As próximas semanas serão decisivas. O que está em jogo não é apenas o destino de um país, mas o direito da América Latina de existir fora da lógica das intervenções — e de escolher seu próprio caminho em um mundo que volta a flertar perigosamente com as sombras do passado.

Maria Luiza Falcão Silva – MSc em Economia (University of Wisconsin–Madison), PhD (Heriot-Watt University), Professora aposentada da Universidade de Brasília (UnB), membro da ABED e do Grupo Brasil-China de Economia das Mudanças do Clima (GBCMC/NEASIA).

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Maria Luiza Falcão Silva

Maria Luiza Falcão Silva – MSc em Economia (University of Wisconsin–Madison), PhD (Heriot-Watt University), Professora aposentada da Universidade de Brasília (UnB), membro da ABED e do Grupo Brasil-China de Economia das Mudanças do Clima (GBCMC/NEASIA).

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  1. Rui Ribeiro

    4 de dezembro de 2025 7:48 am

    O Golias Trump vai ser derrotada por Davi, o povo da Venezuela. O Golias não terá sucesso na tentativa de roubo das riquezas naturais dos latino-americanos. Deus não vai permitir.

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