
Agora que a maioria dos condenados do chamado “mensalão” está na cadeia talvez a gente descubra porque o Sistema Globo tem tanto ódio a Dirceu e a Genoíno, ao ponto de perseguir o hoteleiro que está oferecendo emprego a um e a pressionar pelo corte da aposentadoria na Câmara do outro.
– Ah, a Globo não está fazendo isso apenas por ideologia. Tem outras coisas mais. Talvez o professor Galileu nos possa ajudar. Vamos a ele, disse Simplício.
– Meus caros, explicou Galileu enquanto empinava sua pipa verde na Praia do Flamengo, nada é feito de graça pelo Sistema Globo. A raiva dele do primeiro governo do PT é que houve uma redução da bolsa-TV por meio de um processo arquitetado por Dirceu de democratizar a verba publicitária do Governo. Não é que ele tenha cortado a verba da Globo. Foi apenas uma alteração mais justa dos critérios de distribuição.
– E o que tem isso a ver com o mensalão?, provocou Angeline.
– Tudo. O mensalão foi a forma de dar o troco a Dirceu e à cúpula petista por sua ousadia em querer tirar da Globo sua liberdade de imprensa de achacar o Governo.
– Como assim?
– Vejamos o caso do Genoíno, ponto importante da trama. Por que ele foi incriminado?
– Pelo que eu soube, interveio Simplício, foi porque assinou um empréstimo do Banco Rural ao PT como presidente do partido.
– Isso é crime?, perguntou Galileu. No meu entender é claro que isso não é crime. Mas era preciso ter um pretexto para incriminar Genoíno e Dirceu.
– O que diz mais o processo?, perguntou Angeline.
– Diz que o empréstimo do Rural foi usado para comprar deputados do próprio PT, em tranches mensais, no caso de algumas votações importantes.
– É verdade?
– Tudo falso. Só um idiota pode imaginar que a direção do PT compraria votos de deputados do próprio partido. Mas a farsa não para aí, porque era preciso “provar” a culpa do Rural na concessão de crédito ao PT.
– Provaram alguma coisa?, voltou Angeline.
– Nerusca. A história que o promotor e o relator do processo no Supremo contaram é que o Rural deu o empréstimo confiado em ser beneficiado na compra de um banco falido em Pernambuco. Detalhe: a compra não aconteceu. Temos aí um caso típico de crime sem cadáver e sem circunstâncias incriminadoras.
– E o Dirceu, como entrou nessa?, interveio Simplício.
– Como Pilatos na cruz. Inventaram que ele, como ministro da Casa Civil, recebeu os donos do Banco Real para sacramentar o acordo do empréstimos pelo banco falido. Em nenhum lugar das 60 mil páginas do processo há uma única comprovação disso.
– Ah, mas o Direito alemão que Joaquim Barbosa aprendeu em seus períodos de recreio no exterior fala em “domínio funcional do fato”. Isso não vale?
– O jurista que inventou esse conceito veio ao Brasil na época do julgamento e se mostrou estarrecido: domínio funcional do fato, isto é, ser responsabilizado pelo crime do subordinado requer prova de culpa pessoal. Do contrário, todo chefe seria responsável juridicamente por eventuais crimes de seus subordinado numa linha hierárquica. Além do mais, Dirceu era ministro, e não dirigente do PT; não assinou nada, não tinha domínio do fato.
– Tudo isso me parece uma grande patifaria, encerrou Angeline. E foi ver o que Simplício escreveu na agenda vermelha: A Justiça brasileira tarda e, em certos casos, falha vergonhosamente!
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