4 de junho de 2026

A mídia e o rojão que atingiu o cinegrafista

Que a mídia manipula, já é sabido. Mas além disso, vem perdendo cada vez mais a capacidade de informar seus leitores. O episódio do cinegrafista da Band, ferido gravemente na manifestação de anteontem, fornece uma prova inconteste disso. As primeiras informações davam conta de que o cinegrafista havia sofrido afundamento craniano e que este teria sido causado por um rojão. Me espantei: rojão pode causar afundamento craniano? Fiz a pergunta aqui no blog, recebi uns mísseis balísticos em resposta. Todas as pessoas com que falei também não souberam responder e se espantaram com o fato. A ideia que eu e elas tínhamos de um rojão é aquele canudo de papelão, com um cabo e uma espécie de cabeça de fósforo para ser aceso e comemorar barulhentamente um gol, a passagem do ano etc. Os rojões de vara, conforme apareceu depois na mídia, também associei a um relativamente inofensivo foguete da minha infância (no máximo, poderia causar queimaduras), que em vez de cabo, tinha uma vara para ser fincada no chão.

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Ontem à noite, ainda invocado com o tal rojão mortífero, cuja letalidade a midiona assegurava sem comprovar, me ocorreu dar uma olhada no O Dia, portal que esqueço de consultar, mas que ainda pratica um bom jornalismo nesse tipo de questões do cotidiano. E descobri que a inocente palavra “rojão” qualifica também um artefato perigosíssimo, cuja fabricação e venda me espanta seja permitida. Transcrevo abaixo trechos de duas matérias, explicando tudo muito bem explicado, o que os outros veículos não fizeram.

“Técnico em explosivos do Esquadrão Antibombas, o inspetor Ellington Cacella explicou que o rojão precisa de autorização para ser disparado e tem que ser lançado a uma distância de 30 metros e com uma vara de um metro — o que atingiu Santiago estava a três metros dele. […] Ele foi lançado fora do padrão. O suspeito não respeitou as normas de segurança. [Duvido que o suspeito soubesse: provavelmente, como veremos abaixo, comprou sem autorização em algum vendedor inescrupuloso de fogos de artifício.] […]

“Especialistas ouvidos pelo DIA disseram que o rojão que atingiu o cinegrafista alcança até 1.680 metros por segundo de velocidade depois da detonação da pólvora que o compõe (60 gramas), o que pode matar na hora uma pessoa. Rodrigo Muller, instrutor da Muller Consultoria e Treinamento, alerta que o explosivo pirotécnico, com amplos feixes de luz, vem sendo amplamente usado em protestos por manifestantes, que o manipulam para que fique sem direção quando acionado.

“Manifestantes retiram a cabeça pontuda e a vareta que serve para lhe dar estabilidade. Assim, o transformam em algo perigoso e potencialmente mortal e sem trajetória definida”, explicou Muller. Segundo ele, o produto é regulado pela Lei Federal 4.238, de abril de 1942. Os efeitos causados por esse rojão — semelhante ao que matou Kevin Espada, de 14, ano passado, num jogo do Corinthians na Bolívia — produz som alto, grande deslocamento de ar e rastro alaranjado. “Se atingir um muro, chamusca apenas. Num ser humano, pode matar”, reforçou o tenente da PM do Paraná Ilson de Oliveira Júnior, que tem experiência internacional em cursos de especialização militar em explosivos.”

http://odia.ig.com.br/noticia/rio-de-janeiro/2014-02-08/para-a-policia-explosivo-que-feriu-cinegrafista-era-de-black-bloc.html

Queima, só se for autorizada

O rojão treme-terra, semelhante ao que feriu o cinegrafista Santiago Andrade, custa R$ 8,50 e pode ser comprado facilmente em casas do ramo por qualquer pessoa acima de 18 anos. O Decreto Federal 3.665, de 2000, é claro em seu Artigo 4º: fogos de classes C e D (da qual pertence o artefato) só podem ser queimados “com licença da autoridade competente, com hora e local previamente designados, nos casos de festa pública, seja qual for, e dentro do perímetro urbano, seja qual for o objetivo”.

A Lei Estadual 5.972, de 2011, determina que a comercialização de fogos de artifício obedeçam ao decreto citado acima e à Lei Federal 4.238, de 1942. Neste sábado, equipe do DIA constatou a venda de rojões treme-terra numa casa de fogos em Duque de Caxias. Nenhum documento que comprovasse licença do Exército — que disciplina a fabricação e venda do produto — era solicitado pelos vendedores

http://odia.ig.com.br/noticia/rio-de-janeiro/2014-02-08/jovem-flagrado-com-rojao-pode-pegar-ate-35-anos.html

Faço agora nova pergunta: tem sentido ser permitida a venda e fabricação de um artefato tão perigoso? será que, para festejar, tem sentido usar um treme-terra?

 

 

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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