4 de junho de 2026

8 de janeiro: lembrar para que nunca mais aconteça, por Maria Luiza Falcão

Democracia não sobrevive quando crime político é tratado como opinião. Anistia, neste contexto, não é pacificação: é incentivo à reincidência.
Foto de Marcelo Camargo -Agência Brasil

O ataque às sedes dos Três Poderes em Brasília, em 8 de janeiro, foi um golpe planejado contra a democracia brasileira.
Setores derrotados nas eleições de 2022 negaram o resultado e promoveram ações golpistas, liderados por apoiadores da extrema direita.
O episódio expôs falhas do Estado e reforça a necessidade de responsabilização para defender a ordem constitucional.

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Oito de janeiro: lembrar para que nunca mais aconteça

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por Maria Luiza Falcão Silva

Não foi um surto, foi um projeto

Oito de janeiro não é uma data qualquer. Não é um “excesso”, um “descontrole de multidões” nem um episódio isolado da crônica política brasileira. Foi um ataque frontal à democracia, planejado, incentivado e sustentado por uma narrativa golpista construída ao longo de anos. A invasão e depredação das sedes dos Três Poderes em Brasília não surgiram do nada. Foram o desfecho lógico de uma estratégia que buscava desacreditar eleições, instituições e a própria ideia de soberania popular.

Nada disso teria ocorrido sem a pedagogia permanente do ódio, da desinformação e da deslegitimação do processo eleitoral. A tentativa de golpe foi o ponto culminante de uma escalada que começou muito antes das urnas de 2022 e que teve, no ex-presidente Jair Messias Bolsonaro, seu principal fiador político e simbólico. A retórica do inimigo interno, a exaltação da violência, o desprezo pelas regras constitucionais e o ataque sistemático às instituições formaram o caldo de cultura do oito de janeiro.

As urnas falaram, os golpistas não aceitaram

O Brasil viveu, em outubro de 2022, um dos momentos mais decisivos de sua história recente. As urnas foram claras, auditadas, acompanhadas por observadores nacionais e internacionais. Ainda assim, setores derrotados optaram por negar a realidade. O discurso da fraude — nunca comprovada — tornou-se combustível para acampamentos diante de quartéis, bloqueios de estradas e, por fim, para a tentativa explícita de ruptura institucional.

O que se viu em Brasília foi a negação do princípio mais elementar da democracia: orespeito ao resultado eleitoral. Não se tratava de protesto, mas de insurreição. Não era divergência política, mas recusa da regra do jogo democrático. Oito de janeiro revelou, sem disfarces, que uma parcela organizada da extrema direita brasileira estava disposta a destruir o Estado de Direito para não reconhecer a derrota.

Lula: a vitória da democracia sobre a perseguição

A tentativa de golpe de oito de janeiro ganha contornos ainda mais graves quando se recorda quem havia sido eleito pelo voto popular. Luiz Inácio Lula da Silva retornava à Presidência da República para seu terceiro mandato após ter sido preso, condenado e posteriormente reabilitado politicamente, em um dos episódios mais controversos da história recente do Judiciário brasileiro. Sua eleição simbolizou não apenas a alternância de poder, mas a reafirmação do Estado de Direito, depois de anos de lawfare, erosão institucional e uso político da Justiça. Atacar a democracia naquele momento significava, portanto, tentar impedir que a soberania popular reparasse uma injustiça histórica. O oito de janeiro foi também uma recusa explícita à reconciliação democrática expressa nas urnas — uma tentativa de revogar, pela força, a decisão de um povo que escolheu reconstruir o país após o autoritarismo, a perseguição política e o desmonte institucional.

A sombra longa da ditadura: duas décadas que ainda pesam

Para compreender a gravidade do oito de janeiro, é indispensável olhar para trás. O Brasil viveu 21 anos de ditadura civil-militar, marcados por censura, perseguições, tortura, assassinatos políticos e supressão sistemática das liberdades. Diferentemente de outras experiências latino-americanas, a transição brasileira foi pactuada, incompleta e marcada pela ausência de justiça de transição plena.

A anistia ampla, geral e irrestrita não pacificou o país — silenciou-o. Torturadores não foram julgados, arquivos permaneceram fechados por décadas, e a violência de Estado jamais foi plenamente enfrentada como crime. O resultado foi a permanência, no interior da cultura política brasileira, de uma tolerância perigosa com o autoritarismo e de uma visão distorcida segundo a qual golpes podem ser relativizados em nome da “ordem”.

O oito de janeiro é herdeiro direto dessa transição inconclusa. Ele expressa a persistência de uma mentalidade que nunca aceitou integralmente a Constituição de 1988 e que vê a democracia como concessão, não como direito.

O Estado falhou e precisa responder por isso

O episódio também expôs falhas graves do aparato estatal. Houve omissão, conivência e, em alguns casos, simpatia explícita com os golpistas. A facilidade com que os prédios foram invadidos não foi acidental. A leniência prolongada com acampamentos à porta dos quartéis tampouco foi neutra. A democracia brasileira pagou caro pela tolerância com o intolerável.

É por isso que a resposta institucional não pode ser tímida. A atuação do Supremo Tribunal Federal tornou-se central para reafirmar um princípio elementar: não há democracia sem responsabilização. Julgar, condenar e punir os envolvidos — financiadores, articuladores e executores — não é revanche. É defesa da ordem constitucional.

A democracia não sobrevive quando o crime político é tratado como opinião. Anistia, neste contexto, não é pacificação: é incentivo à reincidência.

Memória como trincheira democrática

Relembrar o oito de janeiro não é revanchismo. É dever cívico. As sociedades que escolhem esquecer seus ataques à democracia abrem caminho para que eles se repitam, com mais organização e mais violência. A história latino-americana está repleta de exemplos do custo humano, social e econômico de golpes tratados como “excessos do passado”.

A presença de brasileiros nas urnas, nos atos de memória e nas manifestações em defesa da democracia não é ritual vazio. É um gesto político consciente, um recado claro de que o país não aceita retrocessos autoritários. Democracia não é apenas votar; é defender o resultado do voto, inclusive quando ele desagrada.

Nunca mais é agora

Oito de janeiro não terminou em oito de janeiro. Seus ecos ainda reverberam em discursos negacionistas, em ataques às instituições, em campanhas de desinformação e em tentativas de reescrever os fatos. Por isso, o “nunca mais” não pode ser apenas uma consigna moral: precisa ser uma política de Estado, sustentada por justiça, educação cívica, memória histórica, regulação democrática das plataformas digitais e fortalecimento das instituições.

Defender a democracia brasileira hoje é enfrentar, sem ambiguidades, os que tentaram destrui-la ontem. Não há conciliação possível com o golpismo. Não há neutralidade diante da barbárie. O Brasil só seguirá em frente se fizer do oito de janeiro não um trauma silenciado, mas um marco histórico de reafirmação democrática.

Porque lembrar é resistir.
E resistir é garantir que nunca mais aconteça.

Maria Luiza Falcão Silva – MSc em Economia (University of Wisconsin–Madison), PhD (Heriot-Watt University), Professora aposentada da Universidade de Brasília (UnB), membro da ABED e do Grupo Brasil-China de Economia das Mudanças do Clima (GBCMC/NEASIA).

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Maria Luiza Falcão Silva – MSc em Economia (University of Wisconsin–Madison), PhD (Heriot-Watt University), Professora aposentada da Universidade de Brasília (UnB), membro da ABED e do Grupo Brasil-China de Economia das Mudanças do Clima (GBCMC/NEASIA).

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