4 de junho de 2026

As últimas do Sabino.

 

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Por Zuenir Ventura

Nunca acompanhei um enterro como o de Fernando Sabino. Acho que foi como ele queria. Os amigos conversavam, riam, contavam histórias e não iam embora, apesar do forte mormaço. Foi o mais demorado de que se tem memória.

“Se colocarem um copo de cerveja em cima do túmulo, ninguém mais sai daqui”, comentou o deputado Miro Teixeira, marido de Leonora, filha de Fernando. O ponto alto (já ia escrever “da festa”) foi a Ramblers Traditional Jazz Band tocando músicas como nos funerais de negros de Nova Orleans.

O cronista deve ter gostado. Claro que teria preferido participar da apresentação tocando bateria, como fizera um ano antes quando reuniu alguns amigos para comemorar seu 80 aniversário.

Tudo ali no São João Batista fazia lembrar o autor de “O homem nu”, que recriou as divertidas peripécias do dia-a-dia de tal maneira que às vezes o cotidiano parece inspirar-se nele. Há histórias que a gente ouve e diz: “Isso é coisa do Fernando Sabino” — como uma cena ocorrida no cemitério e com a qual ele faria uma deliciosa crônica.

Esbaforido, o jovem repórter, sem saber muito bem quem é o morto e muito menos quem são os amigos a entrevistar, pergunta:— O Hélio Pellegrino mora no Rio ou em Minas?— Mora aqui mesmo — respondeu o informante apontando para as sepulturas.

Vi muita gente rir chorando. Verônica entre lágrimas se lembrava rindo da última vez que estivemos com seu pai no bar da Livraria da Travessa, não faz muito tempo. Com uma boa platéia na mesa, Fernando estava especialmente engraçado.

Como no enterro, não queria deixar ninguém ir embora. Quando alguém ameaçava se levantar, ele perguntava: “Vai fazer um discurso?” E não parava de contar histórias: “Espera aí, ouve só a última do mineiro.”

Eram as minhas preferidas, porque ele conhecia a alma de seu povo como a dele próprio. Dizia que mineiro é tão cauteloso e desconfiado que não gosta de revelar nem a identidade.

— Qual é o seu nome todo? — pergunta o carioca.— Diz a parte que você sabe — desconversa o mineiro. Nessa outra, o escritor conta o diálogo com um motorista mineiro em Nova York:

— Ah, você também é de Minas?

— Sou, sim sinhô.

— De onde?— De Minas mesmo.

Se consegue esconder de onde é, imagina quando lhe pedem uma opinião política.

— Que tal o prefeito daqui?

— O prefeito? É tal qual eles falam dele.

— E o que é que eles falam dele?

— Dele? Uai, esse trem todo que falam de tudo que é prefeito.

Minas vai perder muito de sua graça sem as últimas do Fernando Sabino.

Zuenir Ventura é cronista, jornalista e escritor brasileiro

* O cronista mineiro – genial – Fernando Sabino nasceu em 12 de outubro 1923 e morreu em na véspera de completar 81 anos, dia 11 de outubro de 2004, no Rio de Janeiro. A pedido, seu epitáfio é o seguinte: “Aqui jazz Fernando Sabino, que nasceu homem e morreu menino!” Um gozador até o final.

 

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