4 de junho de 2026

Justiça Implacável

Conto: Justiça Implacável

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

Espero que você seja uma pessoa má. Talvez você seja e não saiba; comigo foi assim. Sou um morto e mando essa mensagem de outro mundo para você; como? Não importa. O que importa é que essa mensagem chegou até alguém. Estou para relatar um episódio, o último do seriado da Minha Vida, que me trouxe uma sobrevida mal aproveitada, os poderes certos na circunstância errada. Estou preso e preciso de sua ajuda. Antes que eu prossiga, entenda como vim parar aqui:

Voltando para casa, eu sempre passava por um beco lúgubre como atalho. O tipo de lugar que sua mamãe-coruja não quer você passando por, mas que você acaba (eu acabei) passando por curiosidade na primeira vez. Da segunda em diante se habitua (me habituei) a usar o trecho. Morava num bairro residencial de classe média longe o bastante do centro para ter paz – salvo as algazarras dos vizinhos, ou as minhas próprias em vingança as deles. Eu era feliz. Não pra caralho; era satisfeito, simples assim. Podia ter me mudado há três anos para qualquer outro bairro que comportasse minha renda, só que resolvi me mudar justamente para “aquele” bendito bairro residencial de classe média.

“Eu mereci esse fim precoce ou fui azarado?” Perguntava-me isso porque ainda não tinha sido recepcionado por ninguém nesse além – no plano físico sabia não estar. O conhecimento sobre religiões que tive em vida não me davam luz alguma nessa cela antiga. Aliás, estou figurativa e fisicamente no escuro desde então. Há algumas horas havia uma janela no alto de uma das paredes cinzas que me rodeavam, a que ficava de frente para a grade da cela. De lá saia um 
tímido feixe de luz branca. “Poderia ser da lua?”, pensava.

A última ocorrência com a qual tinha me deparado foi com um tiro. Senti um projétil quente adentrar minha testa; foi indolor. Depois disso vim parar aqui, o que parece ser um reformatório abandonado. Estava enjaulado num cubículo de 3m². Três paredes me rodeavam, e a minha frente estavam instaladas barras de ferro grossas e enferrujadas dispostas verticalmente uma ao lado da outra, impedindo a passagem; esse lugar parece ter atravessado milênios. Corretor nenhum conseguiria sequer doar um imóvel desses, acho que nem um corretor “desse mundo”. Somente escuridão vinha do longo corredor que se estendia no breu total a minha frente, que seguia após a grade de ferro maciço daquela cela. Como numa armadilha de pirâmide, as paredes pareciam estar fechando em mim. Ficava imaginando minha cabeça, a primeira a sentir o esmagar das paredes, se rompendo; meu crânio estalando e se abrindo tão facilmente quando um ovo de Páscoa. Senti um calafrio e uma falta de ar. Fechei os olhos, abri-os e vi as 
paredes: continuavam imóveis (até quando?).

Tinha a sensação de algo estar me observando; a sensação não era boa e a presença a me observar estava ficando cada vez mais forte. Estava me sentindo encurralado por algo a se esconder na escuridão com a qual me deparava. Seria um demônio? Um carcereiro cadavérico? Um Kraken? Um dragão? (Agora dou risada, mas na hora eu sentia medo de algo no qual acabei me transformando) Tremia sem parar, meus pés ficaram leves e prontos para correr. Correr para onde? Desesperadamente, olhei para a possível resposta, que seria a janela daonde saia a “luz da lua”. Meus olhos iam percorrendo de cima para baixo a parede, o longo caminho a ser percorrido para se escapar. Alisei as pedras das quais era feita a parede da janela e vejo marcas de unhadas. Isso não era bom sinal: “outro condenado esteve por aqui e teve a mesma ideia que eu – pelo jeito sofreu de um espasmo delirante quando” ‘sua hora’ estava para chegar e perdeu algumas unhas na tentativa de fugir” – pensei. Eu, assim como ele, ainda era de carne e osso. “Pelo visto a condenação vai ter que ver com o dilacerar do meu corpo”, pensei de novo.

Minha mente me assolava, imaginava o pior por vir. A energia que emanava do chão, das paredes, do ar, era pior do que negativa, era aflitiva – isso porque eu ainda não havia abraçado a ela, me fundido a ela. Me sentia fraco, impotente; submisso e obediente ao meu juízo final, à sentença a ser proferida pelo juiz desse lugar sombrio. Já podia escutar o martelo batendo na madeira; justiça implacável.

Preferi me abstrair daquilo tudo. “Talvez lembrar de como vim parar aqui me ajude”, me veio em mente. E assim fiz: fui resgatando na minha memória as minhas últimas lembranças. Maldito beco! Tinha cortado, no total, muitas horas de caminhada do metrô até minha casa; tal como um barbeiro novato sedento por testar sua navalha, assim agiu o beco. Cortou, cortou, cortou com sua lâmina o cabelo do meu tempo. Para ele não foi o suficiente, portanto rasgou a garganta do meu tempo. O sangue jorrou da jugular.

Ouvia relatos de vítimas de assalto sempre achando que eu poderia ter feito diferente e melhor do que elas, ter reagido ou me safado de algum modo. E eu tinha toda uma tese pronta para apresentar a essas vítimas inconformadas que me contavam sobre seus assaltos. O homem, a meu ver, é bom por natureza. Se um deles se põe a infringir alguma lei do ordenamento jurídico é por conta de uma mácula ou obstáculo muito grande imposto em sua vida. Raros e quase inexistentes são os puramente vis, e se o são, sem dúvidas há uma explicação para o nascimento desse mal neles. Por isso você é especial, meu caro. Você é como eu, corajoso por ter escolhido traçar esse caminho que muitos temem trilhar.

Enfim, tendo concebido isso, presumia que qualquer ladrão, criminoso, poderia ser convencido de desistir da infração no ato da mesma. “Mas e se ele estiver cheirado? Tiver usado ‘crack’?” ouvia de questionadores da minha tese. A voz do bom senso pode alcançar a consciência de qualquer homem, desde que o emissor (vítima, no caso em questão) dela seja astuto ao transmiti-la mediante as particularidades do seu ouvinte (assaltante) e falo o que ele queira ouvir para desistir. Duvido piamente que ladrões são ladrões porque gostam de o ser, e é por aí que o discurso, tendo como público o próprio criminoso, deve seguir.

Ao cruzar o beco, num dia que pareceu ser esse mês no meu tempo psicológico, fui forçado a ter que colocar em prática o que para muitos tinha pregado como verdade. E nunca fui esmagado tão impiedosamente pela frase clichê: “a teoria é uma coisa, a prática é outra”. Um revólver apontado para minha testa. De tão perto que a arma estava, e tão amendrontado que eu me sentia, aquilo parecia um canhão de navio pirata pronto para fazer o mortífero “Ca-bum”.

– Me dê a vida ou sua vida, sua vadia; a passagem é só de ida, querida – disse num tom sádico o assaltante coberto pelas trevas do beco e de suas intenções. Posicionei as duas mãos para o alto, como uma dócil vítima faria, embora já estivesse me borrando.

– Vamos lá. Qual é seu nome? – disse calmamente e tentando enxergar além do revólver, mas só via contornos do homem.

– Hoje eu sou sua morte. Me diga: quanto vale sua vida? Sua vidinha medíocre – perguntou isso apertando o cano de metal frio contra minha testa. Aquilo quase me tirou de centro.

– Aaaahm.. bastante! Bastante – tentei ser convincente. O máximo que pude.

– É mesmo? Tanto assim? Por quê “Bastante, bastante”? Me diz – aqui eu senti pelo tom de voz dele que ele podia ver através de mim. Ele sabia que minha vida era vazia de propósito. E porra! Quanta gente também não me acompanhava nesse sentido? Isso era injusto; era como se eu tivesse sido sorteado para ser mártir pelos pecados de várias pessoas. E pior: sem reconhecimento algum, num beco inóspito.

– Não me convenceu, cara. Segunda e última chance. Capitche? – eu sempre tinha uma resposta pronta para lançar, uma contra-oferta a fazer, um argumento para refutar outro, mas dessa vez tive respaldo nenhum da minha lábia. E eu tinha consciência de que quando isso ocorria, algo de alta periculosidade estava assolando meu processador mental, emperrando o bom funcionamento dos meus pensamentos. A convicção na voz daquele criminoso misterioso, a ironia de suas falas, o humor negro; aquilo tudo estava mais que me desconcertando. Aquilo era pior que pedir “qualquer coisa bem forte” para o barman, dar o primeiro gole e se arrepender mortalmente do pedido. E eu estava mortalmente arrependido de ter começado a frequentar esse “maldito beco”. Maldito Beco. Inoportuno foi ter dado um nome para esse lugar, sob circunstâncias tão…

Fui repentinamente acordado do meu mergulho mental. Te convido para reviver o que se passou comigo posteriormente na cela, no calabouço:

“O que é isso? Estou ouvindo o barulho de correntes se arrastando. Seria outro prisioneiro? Pensei muito alto e acabei despertando algo? Me ponho num dos cantos da cela, sento, encolho minhas pernas e as abraço. Sim, pareço uma criança nessa posição, mas é inevitável. Aposto que qualquer um teria feito parecido; é o que meu instinto me permite realizar no momento. Segue-se um silêncio. Uma risada maldosa toma conta do calabouço. Uma risada maldosa e sacana, tipo essas de palhaço assassino, porém num contexto aterrador. Nunca uma risada tinha me deixado paralisado de medo; esta conseguiu. A mesma voz se pôs a falar: 

– Sabe, teve um filha da puta que conseguiu escapar uma vez. Mas isso faz teeeeeeeempo. Não se fabrica mais filhos da puta que nem ele. Seu século, sua gente, sua época, sua cultura agora só fabrica merda; merda de primeira linha pelo menos, né? – pausou para soltar aquela risadinha sacana – Desses portões que abrem, esses que você mesmo escutou abrir, sempre saem uns “caras” a fim de fazerem amizade com nossos visitantes. No caso, vooooocê – e mais risada. Senti que essa risada era sua marca registrada e muitos a escutaram ali antes de sofrerem mais que cobaias nas mão de jovens cientistas. “Teeeeeeeeempo”; essa palavra ainda ecoava no ar, e agora ecoa em minha mente.

O tempo tinha acabado quando o começo de uma frase tomou embalo para sair da minha boca e advogar em minha causa, tendo como promotor um fazedor de “Ca-buns”:

– Nã… – não foi a tempo que consegui falar algo de concreto para o pistoleiro. Um estopim ensurdecedor foi o alarme do relógio da minha vida; avisava que o aquele era o fim dela.

– Não mente tão bem com um revólver na sua testa – foi o que um rosto vermelho e cheio de vermes disse para mim com o semblante sem expressão. Um seguidor do Hakuna Matata ficaria feliz de ter um rostinho desses de almoço. Acredito que fosse o meu próprio assassino o dono desse rosto. Ficou me encarando a alguns centímetros de mim. Meu cérebro registrou estas imagens e então desligou de vez.

Depois, vim parar aqui. Talvez eu esteja com medo porque sei o que me trouxe aqui: meu egoísmo, meu espírito porco; pisei em muita gente no decorrer da minha existência. Certa vez uma cigana “leu minha sorte” naquelas bolas de cristais. Ela esbugalhou e disse que eu era sujo e devia sair de sua tenda. “Vadia estranha”, eu a xinguei quando a moça a me acompanhar perguntou como tinha sido a sessão esotérica. Isso faz o que? 10 anos. Até aquela bola de gude enorme sabia quem eu era, sabia do meu coração de piche. Não sei por que eu me fiz de desentendido até hoje. Feitos nobres? Me lembro de ter plantado uma semente de grão de mostarda nos tempos de escola – evento dessas campanhas de ONG’s ambientais. Reguei uma vez o grão; nunca mais o vi. Acho que um pouco depois da infância… sim, na adolescência foi quando percebi que fazer o bem, se doar, era algo tão vazio e improdutivo que passei a pesquisar o outro lado, o mau. Na época apenas pensava ser esperto. Você começa furando filas, acha legal, e aí vai procurando outros jeitos de ser “mais esperto” que os demais. Acaba sendo o amante da mulher de seu amigo e sonegando impostos. Agora percebo quão mau eu ia me tornando na medida em que crescia. Como fui perceber isso tão tarde? Eu sou exatamente o tipo de pessoa que eu mesmo defini como “raro ou inexistente” naquela minha tese cabeluda. E não havia grande necessidade de eu ter me tornado tão podre em troca de algumas facilidades. Fiz-o por fazer, por convenção. Isso agrava a penitência. 

É tarde demais para buscar no meu passado o que quer que tenha me corrompido; não há espaço para isso. Prefiro contar com meu “eu” natural. E se eu for mau? Qual o problema? Estou forncendo trabalho para quem faz o bem, tornando-os úteis. Pelo contrário, quem mais o faria? Chega de me submeter a esse inferninho e esses bostas daqui. Nem sei do que chamá-los. Se eu tenho alguns pecados a pagar por, então que seja, mas chega de auto-comiseração. Não estou mais amendrontado; estou é de saco cheio.

– Ei, Risadinha – eu berro com tanta dicção quanta podia de modo a ser entendido.

– O que foi, seu lixo? Quer sofrer antes da hora? – nada de humor negro dessa vez. Será que o peguei de surpresa?

– Manda aí. Cadê aqueles “caras”. Quero conhecê-los – tentei pôr um tom divertido na voz. Quero irritar esse canalha.

– Seu insolente. Vou mandar o pior para você. Reservam esse para os estupradores – que mágico. Nada de risadas. Parece que se a vítima entra no embalo da dança, eles não gostam.

– MANDE O PIOR! ALIÁS, POR QUE VOCÊ MESMO, SEU BUNDA-MOLE, NÃO VEM AQUI MOSTRAR SEU ROSTO? TEM QUE POR UNS “CARAS” DE BATEDORES.

Escuto os barulhos das correntes de antes, mas isso não me deixa mais com medo; pelo contrário: excita-me. O perigo do sobrenatural, o mal encarnado. Algo está para ser desamarrado e solto tendo a mim como presa. Algo no mínimo animalesco. “Que venha, sua besta, venha brincar.” 
O tilintar das correntes cessou faz uns minutos (e nem sei se podemos medir o tempo daqui cronologicamente).

– Desculpa, “cara”. Te intimidei? Foi isso? Quer que eu…

… (sou interrompido por um terremoto). “Droga, acho que eu me ferrei de vez.”A estrutura inteira do calabouço balança, tudo treme. Estaria entrando em colapso? Morrer esmagado por pedras não é nada legal, não tanto quanto se um…

Um rugido simultaneamente agudo e grosso, alto, e aterrorizante atravessa o ar e faz cada fibra muscular minha vibrar como uma viola. Meu coração acelera, dá uma arrancada feroz. Estou de mãos abanando, punhos cerrados, e prestes a enfrentar um ser abominável – que se ruge alto assim, no mínimo tem garras e dentes, e é enorme. Nada como um convite para um desafio sangrento vindo de um monstrengo, e no escuro Não espero que a luta seja justa depois de ter feito tantas pessoas sofrerem, aliás, espero de verdade morrer. Só não quero fazer da minha sepultura um circo para esses comensais da morte. Pelo menos isso eu estou conseguindo fazer.

– Eu vim te papar, você me chamou e eu vim – a mesma “risada sacana” saia do final do corredor enegrecido de sombras, porém remixada ao estilo terror. “Então ele não aguentou e veio me pegar pessoalmente.”

Não tenho nada a dizer, só queria poder canalizar minha raiva por tudo estar acabando assim. É nas minhas mãos que eu deposito meu sentimento de ter sido contrariado pelos meus próprios atos. Sou um gladiador num Coliseum de pedras, desarmado e pronto para ser machucado.

Páro de mirar o fundo do corredor, da onde a criatura vem dando passos pesados. Ainda embrutecido de raiva, arremesso meu punho direito nas pedras que compõem a parede ao meu lado. O meio metro de distância entre mim e a parede é cortado pelo meu soco numa velocidade alucinante; meu quadril gira agilmente e acompanha o movimento do braço. A parede é atingida pelo meu soco, pedaços quebrados de pedra voam em todas as direções. Uma cratera se forma no ponto de impacto.

Sem hesitar, recolho o instrumento dono do estrago, meu punho, e o analiso. Está intacto, com um porém: uma calcificação brilhante matizada em vermelho e branco escamoso envolve meu punho como uma luva simbiótica lembrando muito um arqui-inimigo de Peter Parker. Parece também a peça de um traje de fantasia de Homem-Lagarto. Minhas mãos agora são garras enormes e de aparência cortante. O desenho da luva parece diabólico, entretanto é formidável, a textura é linda. Se não houvesse um “bicho-papão” a caminho eu ficaria ali a examiná-la, ou melhor, a namorá-la. Parece uma obra de arte. A minha outra mão, a esquerda, ainda não está tão encoberta dessa “luva” como a direita. Mas está para ficar. Um líquido preto e viscoso escorre das extremidades da luva. Isso daqui deve ser movido a tudo de ruim que eu tenho dentro de mim, esse vazamento só pode indicar isso. Não devo mais sentir a energia negativa desse lugar porque entrei em sintonia com ela: eu reconheço ser mau e assim continuarei – é o que me dá forças.

Um par de olhos escarlates começam a surgir para além da grade de metal enferrujada. Eu quero socá-los. Não, quero furá-los, fazê-los sangrar.

Recolho meu braço esquerdo e preparo o golpe. Miro no meio de uma das barras que estão dispostas verticalmente.

Desfiro um direto de esquerda e uma das barras cede, a acertada, e voa longe. O monstrengo pára de caminhar com seus membros que devem pesar toneladas. Os dois círculos vermelhos que antes me encaravam agora apontam para o teto. Uma rajada laranja de fogo sai da boca dele e o ilumina por uns instantes. É um dragão verde, ficou de pé para me intimidar.

– Fogos de artifício sensacionais, mas para mim o senhor continua sendo o Risadinha! 

Esse fogo dele pode vir a ser um problemão se eu chegar muito perto. Como manter distância e atacá-lo? A resposta estava a minha frente: as barras de metal. Arranco uma delas sem dificuldade e num tranco só.

– Se prepare, seu lagarto, porque hoje estou me sentindo que nem uma novela medíocre, estou me sentindo São Jorge.

A esse ponto eu já posso enxergar o corpo dele e seus detalhes. Minha vista deve ter se adaptado um bocado ao escuro – esqueci de notar isso. O dragão é inteiramente revestido de uma armadura típica da de dragões, então por mais que eu o chame de lagarto, derrubá-lo não será fácil. 

Trespasso a cela na qual foi criado um vão suficientemente largo para eu passar por, levo comigo a barra-lança. Inicio uma investida direta com a lança apontada para ele. Não consigo pensar num plano melhor senão esse. Não no êxtase dessa situação.

Não parei para observar meus músculos, mas devem estar mais torneados – um bocado. Minha roupa está rasgada e vai caindo perdida no meio da corrida em direção ao alvo. Sobrou a calça que agora é uma bermuda. Bruce Banner me vem em mente. No meio do caminho insegurança e coragem se degladeiam dentro de mim, quase dou meia volta. O que vejo como alvo assustaria até o mestre de terror Stephen King: uma cabeça com chifres e em formato da de uma cobra e com olhos vermelhos. A coragem com a raiva acabam vencendo e insisto na investida. Quero furar esse maldito, arrancar os órgãos dele e fazer ele berrar de dor. Aí quero ver ele soltar uma daquelas risadinhas inconvenientes. Aí veremos.

É isso, vou acertá-lo, ele está parado, não deve saber como reagir. É agora, impacto em 3, 2, 1… 

Como assim? Ao invés de acertá-lo, ele segura minha lança improvisada e a pende para cima. Eu me recuso a soltar dela, acompanho esse pender. Ele chacoalha a lança-barra um tanto para ver se me desprendo dela. Me recuso a me soltar. Num movimento ágil, ele arremessa a barra, e por conseguinte a mim, para o lado oposto do corredor, o mais escuro.

O impacto no chão me desnorteia; o som do metal quicando no chão me irrita. Como eu havia pensado: não vai ser moleza fazer sair esse churrasco de Komodo-gigante. 

Outro problema do momento: sem luz, sem visão. Alguém por gentileza informe a Elektro do inferno assim que possível. Como lutar no breu? 

Essa pergunta deve ficar sem resposta por ora. O dragão está avançando, apenas o escuto. Me preparo para uma investida frontal dele; ela não acontece. Sinto um vento batendo sobre mim. “Ele está em cima de mim, e vai soltar aquele bafo de fogo, estou fud…” Posiciono meus braços contra a labareda que vem contra mim. Meus braços ardem, sinto cheiro de carne viva, de picanha mal passada. Solto um berro. O ser alado continua acima de mim e invisível na escuridão. Me rendo à dor das queimaduras de quinto grau, deito com a barriga virada para uma das paredes e me contorço de dor. 

– Vooou te papar – diz o dragão num tom solene e circense ao pousar.

– Espero que.. ah.. que.. você engasgue. Pro inferno com você. Hehehe, lagartinho filha da puta – pareço um soldado-caído conformado com a vitória de seu inimigo mas sem dar a ele um pingo de respeito. 

– O senhorito não está em posição de fazer piadas. Qual a graça?

– Sua cara deformada – cuspo no chão – o que mais seria? 

– Mastigar cada osso seu, perfurar sua carne. Ela deve ser suculenta.

– Ótimo, um dragão afetado. “Suculenta” … se não fosse essa dor lancinante eu estaria gargalhando de você, seu lagartinho-que-dá-o-cu.

Esse insulto ele não aturou, assim como planejei no meu ato suicida com essa porcaria de lança. Olho para ela com desdém. Essas “luvas” de nada me serviram. O Komodo gigante me busca no chão em uma só bocada e começa a me mastigar com seus dentes afiados. Eu ainda estou consciente – era apenas disso que eu precisava: meu sangue a jorrar e mais raiva a ser gerada.

Urro de dor, pois minha carne está sendo triturada e eu consigo sentir cada filamento muscular se rompendo. É agonizante; não há mais espaços para pirraças e brincadeiras. Agora há somente dor – e uma raiva ascendente. Se eu tivesse o tamanho dele, se eu tivesse garras, se eu também soltasse chamas pela boca…

Se ao menos eu fosse… um dragão.

Ao terminar de concluir esse pensamento, sinto meu corpo inteiro se alargar, aumento de tamanho para todos os lados. É como se minha raiva somada ao meu desejo de lutar tivessem se tornado realidade: minha visão começa a se distanciar das minhas pernas, que agora adquirem cores diferentes (as mesmas das luvas) e formato também. Meus dentes perdem suas características humanas e ficam pontiagudos. Dois membros novos nascem nas minhas costas; assumo que sejam asas. O mesmo aspecto presente antes somente nas luvas agora é o mesmo do resto do meu corpo. Me torno um dragão.

Meus ferimentos saram, minha pele enrijece – agora acho que posso chamá-la de escama. Meu corpo agora é mais do que o maxilar de Risadinha pode suportar, então ele cede e me desprende de sua mordida.

Rapidamente me recupero do pequeno tombo e tomo postura de combate. Talvez eu seja um dragão ligeiramente menor que ele, mas de qualquer jeito as chances de eu sobreviver aumentaram. Vai ser a luta entre um Charmeleon, eu, e um Charizard, ele; algo épico.

Antes mesmo de eu tomar a iniciativa de partir para cima, minha garganta, que é longa, esquenta. Parece um refluxo. Fiz um 1+1 mental e logo lembrei que dragões cospem fogo – e eu sou um dragão nesse momento. Dã. Preciso comemorar esse fato inaugurando meu monstro interior.

Instintivamente abro minha boca e miro para cima, que no mesmo instante vira um lança-chamas. Se não fosse essa cabeça quadrangular e esse par de olhos vermelhos a minha frente, eu estaria raptando donzelas para colocá-las em perigo – clássico. “Uma coisa de cada vez, vamos com calma”, é frustrante não ter sua vontade imediatamente atendida, mas as coisas são assim. “Primeiro eu…” – e aí do pensamento surgiu ímpeto para conversar com meu adversário:

– … mato você, depois eu dou uma reformada nesse lugar. Tá muito “bonito” para um lugar que deveria meter medo. Ah, e quando quiser morrer, é só avisar.

– (silêncio, escuto apenas sua respiração bufante)

O silêncio é rasgado por ele, que galopa com força total contra mim. Principia-se uma luta corpo-a-corpo, travada ora no chão, ora de pé. Minha gana pela vitória cresce a cada vez que sou atingido ou quando o rasgo com minhas garras. Sou menor, porém mais rápido e meticuloso sobre onde atingir. Num dos meus lances de ataque (numa briga é preciso saber tanto atacar quanto defender) eu acerto o pescoço dele com minha cauda, que até então tinha se mostrado ausente na luta. A cabeça reptiliana dele é jogada contra a parede, atordoando-o e me dando os segundos que precisava para finalizar a briga. Pulo com um impulso do bater das minhas asas, agarro sua cabeça pulando por sobre ele e forço que o restante de seu corpo acompanhe o movimento. O resultado é Risadinha, antes um pernicioso chacal soberbo, de barriga para cima e indefeso. A barriga dele, possivelmente assim como a minha, é pelada das mesmas escamas rijas e impenetráveis, o ponto fraco de sua armadura corporal.
Tenho, portanto, um banquete self-service só para mim. O prato do dia: Escondidinho de órgãos (de dragão).

Garfo na mão direita, e faca na esquerda, vou cavando a pele e encontro no caminho muitos ossos da costela. Cavo mais para baixo e me deparo com o aparelho digestivo e o intestino, ambos desmunidos da proteção dos ossos. É aqui que farei a festa. A barriga dele vira um buraco vivo de carnificina que por um milésimo de segundo me fez sentir dó dele. O sangue é vermelho-escuro, quase vinho; deve ser a imitação do sangue do ser humano. Os braços do paciente da minha mesa de operação se esvoaçam para cima e para baixo, às vezes tentando colocar seu dono de pé. Nesses momentos eu empurro contra o chão com meu “garfo” afundado em sua barriga. A dor de ter a barriga destroçada sobrepuja qualquer tentativa dele de se defender. 

– Não é mais tão engraçado, não é, Risadinha? Ah, desculpa, minhas garras indelicadas estão te causando cócegas? – ri maquiavelicamente com minha nova voz grave de dragão. Quão deleitoso era sequestrar a satisfação de outro para si mesmo! Ainda mais de um jeito tão violento e sádico. De repende eu sempre fui um psicopata louco por desmembrar seres vivos e nunca soube.

Não se passam dois minutos de operação e o paciente morre. Agora posso me concentrar em comê-lo. 

Ingerí-lo tomou mais tempo do que matá-lo. As reminiscências de seu corpo, ossos e carcaça não-comestíveis, estão espalhadas pelo chão. “Que bagunça!”, digo ao terminar de olhar em volta do local do banquete.

Fiquei tão compenetrado no banquete que acabei esquecendo de um detalhe: a janela da minha antiga cela. Solto uma das costelas que eu estava usando para limpar os dentes e voo em direção a cela. Vejo de longe não haver mais janela nem luz vindo de lá. Mesmo assim me dirijo para lá. Esbarro nas barras restantes e as derrubo com gosto assim como um atacante de rugby faria. Cravo as garras das minhas patas dianteiras e traseiras em torno do lugar onde antes havia uma janela. Esmurro as pedras, que vão caindo. Esmurro, esmurro, esmurro. E nada de saída, nada de mundo externo, nada de luz. Passou pela minha cabeça que talvez a parede fosse dar sinal de que fosse fina naquele ponto, mas a cada murro que jogava ali minhas esperanças iam se esvaindo. 

Canso de cavar a parede e me conformo com o meu fim, que parece ser ficar aprisionado nesse lugar. Há portões no final do longo corredor, da onde o dragão já morto disse saírem outros seres. Caso eu fique muito entediado, eu coloco um deles abaixo para ver do que eles são feitos.

Tudo indica que eventualmente outra pessoa virá parar aqui, e quando essa pessoa aparecer, a mesma janela se abrirá. De repente escapo daqui por lá.”

E foi assim que me tornei um dragão. Desde então já esperei demais. Por isso que tive que achar um jeito de fazer essa carta chegar até as mãos de um interessado em conhecer outro “mundo” e em ajudar um colega que também pertence ao “lado negro negro da força”.

Aguardo você por aqui. O endereço, data e hora para que você compareça no Maldito Beco está no verso dessa mensagem. Prometo serví-lo caso venha a meu encontro. Quem não quer um dragão como aliado? 

Se gostou da ideia se dirija até lá e trate de ser morto pelo Pistoleiro (este já foi informado do evento) – e por ele somente. Caso contrário sua morte será computada como qualquer outra, e aí você perderá sua chance de ouro. Você chegando aqui eu explico como funciona a burocrática logística do além.

P.S.: talvez haja outros candidatos no Beco, na mesma hora e dia, por isso será um evento e tanto. Sugiro que chegue cedo ou trate de “se livrar” deles caso realmente queira vir me conhecer. Só preciso de UMA pessoa para que a fresta se abra.

E quando sair, deixe sua bondade em casa.

Boa sorte.

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Recomendados para você

Recomendados