
Para os hindus, disse Galileu a Simplício, as palavras têm um valor próprio que materializa seus significados. Mandar alguém para a puta que o pariu não é apenas um desabafo simbólico, e sim a indicação de um propósito objetivo, como se a palavra tivesse o poder de mudar a natureza da mãe do ofendido. “Por isso, recomendam as mães aos seus filhos pequenos, tenham muito cuidado com o significado das palavras”, observou o professor.
– Que coisa interessante, disse Angeline. Aqui as palavras são feitas sobretudo para esconder os significados.
– Especialmente em política econômica, completou Simplício.
– Vocês têm razão. Há muito tempo estou juntando material para fazer um dicionário sobre o significado das palavras usadas diariamente no noticiário econômico. Com frequência elas não significam nada, mas servem perfeitamente para enganar os trouxas.
– Conte-nos a respeito, pediu Angeline.
– Vocês notaram que todo economista ou comentarista de televisão agora fala de taxa de crescimento econômico “robusta”? Sabem o que isso significa? Nada.
Sabem o que significa política fiscal “responsável”? Simplesmente pau no funcionalismo e corte nos serviços públicos essenciais.
Sabem o que significa política monetária “austera”? Por a taxa de juros nos cornos da lua.
Sabem o que é política econômica “amigável” para o investidor? Simplesmente abrir as pernas para a especulação financeira desenfreada oferecendo juros estratosféricos e cortando impostos mediante desonerações fiscais.
Sabem como o governo obtém a “confiança” do mercado e dos comentaristas de televisão? Pondo-se de quatro diante dos especuladores.
Sabem o que é “insegurança jurídica”? É rejeitar contratos em que o setor público sempre leva no rabo e o “mercado” sai com o lucro.
Sabem o que é dívida “administrável”? É uma situação na qual o governo não pode se endividar para financiar investimentos.
Sabem o que é política ambiental auto-sustentável? Nada, pura embromação.
Sabem o que significa tripé macroeconômico? Perguntem a Marina da Silva.
Sabem o que é “segurança jurídica”? É respeitar contratos espúrios desde que feitos contra o setor público.
– Isso não é um dicionário, é um almanaque de sacanagem, disse Simplício.
– O que tem mais?, quis saber Angeline.
– Se a gente juntar tudo isso, temos um programa inteiro de política econômica do tipo recomendado pela Globo e especial para campanha eleitoral. Assim, para ter uma taxa de crescimento “robusta” é preciso ter uma política fiscal “responsável” e uma política monetária “austera”, manter a dívida num nível “administrável”, ter uma política econômica global “amigável” para o investidor com base no “tripé macroeconômico”, mantendo uma política “auto-sustentável”, com isso obtendo a “confiança” do investidor e do “mercado”, o que é essencial para a atração de investimentos.
– Eu ouço isso toda hora, disse Angeline.
– Justamente porque tudo isso não significa nada. Se significasse, a gente poderia cobrar. Como não significa, não há o que cobrar. Fazemos tudo segundo o propósito desse figurino e em vez de um crescimento “robusto” temos um crescimento de merda!
Simplício escreveu na agenda vermelha: “Palavras, leva-as ao vento. Mas algumas delas fodem o povo.”
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