3 de junho de 2026

No coaxo do sapo, todos vão estar em 64 bits

Guilherme Arantes, do Facebook

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

As pessoas não têm a menor noção das diversas revoluções que ocorrem cotidianamente nos centros de programação cibernética…Estamos vivendo um novo ciclo, uma “terceira onda”, outro verdadeiro tsunami hightech no mundo, que vai marcar profundamente nossas vidas em diversos aspectos, sejam operacionais, logísticos, estratégicos, culturais, políticos, sociais, estéticos e até éticos. Quem não se apercebe desses processos fica no mundo cada vez mais como um mero “consumidor passivo”…A realidade se manifesta aqui fora, na superfície visível, mas ela foi gerada a partir de complexas estruturas mentais urdidas na calada dos laboratórios de pesquisa, área de malucos que pensamos não terem nenhuma conexão prática conosco…Ledíssimo engano. Enquanto o mundo se distrai numa universalíssima “balada”, numa festa de vaidades e frivolidades, as pirações de “nerds” de hoje afetarão a vida daqui a 5, 10, 50 anos, sem termos a menor noção da complexidade, e até da perversão, do controle , da vigilância invasiva, depois que tudo passou a ser regido por máquinas lógicas. Na teoria, as bases foram semeadas na Europa do Século 19, na industrialização americana dos anos 30 aos 50, mas na prática mesmo, o caldo fermentaria em garagens universitárias da ensolarada Califórnia, exigindo resiliência e juventude imaginativa, para criar um mercado de trabalho completamente novo…Steve Jobs e seus colegas hippongas são realmente geniais, eu devo dar o crédito aqui, ficaram meritoriamente biliardários com “mind games” absolutamente inúteis para os colegas de universidade, da época, que os achavam “delirantes”. Mas o mundo da realidade não é só o conservador, o mundo pé-no-chão, mas sim o universo do delírio. É o delírio que conquista, e nada mais. Uma historinha sensacional.
Na onda número zero, uma marolinha ingênua, de 4 e de 8 bits, foram estruturadas as primeiras noções de “Kernels” , ou seja, de núcleos lógicos de processamento, implantados entre as burras e rudimentares placas eletrônicas, e sua utilização prática em aplicativos úteis para o dia-a-dia das pessoas, tais como programinhas comerciais de estoque e cobrança, de caixas eletrônicos, controles e comandos de máquinas, automóveis, máquinas de costura, de solda e fresa, de estamparia em metalurgia, de tornos mecânicos, alarmes, PABX e telefonia a cabo, e muitos outros menos cotados…Na música, foi a entrada dos primeiros samplers, como os da Ensoniq , E-Mu, e a febre das baterias eletrônicas, como as Roland TR, ( Marvin Gaye, Michael Jackson e toda Black music dos anos 80) , e posteriormente as poderosas Linn, como a minha LinnDrum, com seus “chips” de 8 bits em eproms…( Billy Idol, Depeche Mode, Human League, B52, Cindy Lauper, etc ) Bons tempos.. Nossa geração rodou em 8 bits, e com a gente também rodavam os “Pacman”, os primeiros videogames… Um exemplo palpável de 8 bits eram os velhos videogames Nintendo, Sega, a serie “Mario Bros”, Gauntlet, Na época, a maioria das nossas funções humanas ainda eram bàsicamente analógicas, e o processamento computacional ainda era meramente adjutório, um “luxo”, uma moda supérflua para entendedores…Na segunda fase dessa onda zero, surgiriam as linguagens C Compiller, mais tarde batizadas no Windows, definitivamente, como C+ Distributable, até hoje muito utilizadas, o que mostra terem sido um acerto, e que seriam a base para programações de sequencers , bem como de “voice editors” para administração de timbres em “libraries” de grande complexidade, até hoje largamente utilizadas via protocolo “midi”. Aliás, o “midi” é dessa era de 8 bits, e NUNCA EVOLUIU. Ninguém se interessou em “modernizar“ o MIDI protocol, cuja velocidade de transmissão permaneceu até hoje na mesma faixa precária de “bauds”, ou seja, de “data flow”. O mundo queria mesmo era Multimídia, som, imagem, e isso viria a ser uma realidade na onda seguinte. A primeira Tsunami, de 16 bits.
Nesta fase, em plenos anos 90, foram implantados os sistemas OS 7,8 e 9 no Mac, o Windows 95. 98, os celulares, ( lembro bem do Startac, nosso objeto de consumo, mas que ridículo…Também, pra quem carregava os primeiros tijolões….) Essa era dos 16 bits marcava a chegada do CD, o formato Compact Disk com seu codec de 44.100 hz, fruto de um esforço conjugado da Phillips européia com a Sony japonesa. Negócio milionário, onde o fornecimento do granulado policarbonato, a matéria prima, gradualmente alavancou a alemã Bayer a uma posição de absoluta liderança no mundo. Devido a suas características ópticas e mecânicas, esse material originalmente do CD – invadiu a industria em geral, e hoje boa parte dos automóveis é feito desse incrível material, quase indestrutível…Celulares, TVs, telescópios, eletrodomésticos, e até coberturas de estádios, domos de aeroportos, rodoviárias, e até astronaves são hoje feitos de policarbonato. Mas o CD foi o grande impulso desse fenômeno. Surfando na onda dos 16 bits nos veio a Internet, com os infames modems discados…
Mas logo se preparava uma tsunami devastadora, com a chegada das plataformas de 32 bits. A conexão USB substituindo as antidiluvianas portas seriais e paralelas. No Mac, o OSX, com as suas portas firewire, as Daws ( estações de trabalho de áudio digital) e na parte gráfica, na fotografia, no vídeo, com a evolução da Adobe e sua posterior associação com Jobs…Já no mundo dos PCs , o XP , uma evolução do NT para o mercado, atingiu um grau de estabilidade até hoje inigualada- pra mim, o melhor sistema para uso geral, insubstituível, incomparável. Com o Service Pack 3, nunca mais ninguém teve problemas…Pois os 32 bits trariam a invasão final de rádios, TVs, a chegada do DVD, o celular multimídia, orkut-google-tweeter-facebook, e por ai afora, tudo, tudo o mais era em 32, da engenharia e da arquitetura com os espetaculares CADs, dos escritórios com planilhas e suites de aplicativos, isso pra não esquecermos das clínicas e consultórios médicos, hospitais…Dessa era, algumas das melhores notícias para a humanidade – os diagnósticos, ultrassonografias, ressonâncias magnéticas, e nunca mais a medicina seria a mesma… medicamentos avançadíssimos, e o mundo parecia funcionar como sempre sonhavamos… Lógico que há hoje uma inclusão social-digital muito salutar, gerada pela era dos 32 bits. Voce tem o povo o tempo todo pendurado no celular, postando no “face”, mensagem pra lá, mensagem pra cá…Mas nada é perfeito, e a roda precisava girar. Pra isso, o mundo se apresenta sempre desigual. Onde não houver desigualdade, não haverá movimento, são as tais “diferenças de potencial”…O fato é que vem aí os 64 bits, e eu pressinto, com uma certa perplexidade, que o mundo vai se tornando caro, com a tal globalização, tempos bicudos de preços altos. Inflação no mundo inteiro, é o que vem aí. E “High-tech” se preparando para NÃO SER democrática – essa é a minha impressão. Muita exigência de “performance”, e a humanidade se dividindo eternamente em camadas de poder aquisitivo e operacional, num processo proposital, estudado, de dividir a população em dois níveis muito claros. Pois nessa chegada dos 64 bits, coisa do momento deste ano de 2014 , vejo uma parcela considerável da humanidade ficando inexoravelmente pra trás, em sucessivas obsolescências de 16 e de 32 bits, tecnologias que nos eram totalmente suficientes para vivermos e criarmos nossas parcas produções culturais dos anos 90 e 2000. Não vimos o mundo caminhar culturalmente, muito pelo contrário, vimos um mundo-caranguejo, andando de lado, quando não para trás. É preocupante. Tem muita gente de talento que vai ficando na estrutura anterior, que não vai ter como pagar, simplesmente, ou nem vai encontar um porquê para a aquisição de um computador de 64 bits de R$10000,00 ou R$20000,00, capaz de materializar pessoas em 3D, fazer teletransporte, e outras loucuras multimídia que ainda vão inventar pra subtrair o dinheiro de nossas modestíssimas contas bancárias. Já perceberam a armadilha para as novas gerações ? Um garoto, uma garota, formados em faculdade, hoje, vão fazer o quê, exatamente ? Se pra nossa geração já era difícil ter um propósito na vida, um ganha-pão, imagine hoje, com as panificadoras de diplomas ? Pensam que estou reclamando do Brasil ? Engano – ISSO É NO MUNDO TODO. Mundo perverso. Hoje, um MBA não representa mais nada. Todo mundo tem MBA , até aí , nenhum diferencial…Hoje, uma segunda-língua, um segundo-idioma já não representa mais nada… Teria um terceiro idioma ? E um quarto idioma ? Fala mandarim ? Mas o que é isso ? Quem é que precisa de computador 64 bits num mundo que não tem emprego decente mais !!!!!!
Agora vamos voar com o assunto 64 bits para a MUSICA POPULAR. Qual é o panorama ?
Sabiam que em 1980 eu não tocava em FM…isso todos sabem…mas que Bethania, que Elis, que Roberto Carlos, que a maioria dos nossos monstros-sagrados NÃO tinha conseguido migrar para o FM ( “Freqüência Modulada”) e que tinha “ficado no AM” ? Voces sabiam que na música sempre foi assim ? Do 78 RPM para o 45 RPM. Do 78 para 33 RPM … Para o LP…. Do LP pra o CD foi uma transição terrível, muitos colegas “ficaram” no vinil…Depois vieram os VideoClips…( eu, por exemplo, embatuquei aí…fiquei pra trás…porque nem gravadora e nem empresário queriam investir nada em alguém que já dava faturamento sem precisar de videoclips….) e houve uma fase muito nobre dos videoclips, com cineastas e fotografia incrível, diferenciando e muito os artistas desse período…Final dos anos 80, começo dos perversos 90…E depois veio o famigerado DVD…esse, então, é um produto diabólico… Certíssimo está o Almir Sater, meu ídolo em TUDO. Esse cara sabe tudo, é um artista completo e fenomenal, incomparável. Ele já disse que não gosta de fazer DVD, porque o DVD “substitui” a presença do artista. Tudo a ver. Sabe muito, principalmente sobreviver numa era tão difícil. Mas vamos voltar aos 64 bits…O que vem aí, afinal ? Porque tamanha elocubração, porque tamanha preocupação ? Porque vejo um tempo em que os artistas de valor, de princípios, de ética, e que têm uma proposta transformadora, não-hegemônica , não-alinhada na sociedade “inclusiva “da diversão/vaidade/pragmatismo/perversidade de linguagem NÃO TERÃO MAIS ACESSO A TECNOLOGIAS DE ÚLTIMA GERAÇÃO. Eis o ponto.
Vamos a um exemplo – não vou citar nomes aqui, porque não é (mais) meu tom polemizar. Digamos que um compositor notável de música popular do Brasil, um clássico, até famoso, mas não muito endinheirado, decida que está no ponto, com canções inspiradas pra fazer um novo trabalho. Provavelmente, neste ano da graça de 2014, ele vai gravar sua obra em 32 bits, e (ainda ) não em 64, porque ? Porque os estúdios e produtores que investiram na estrutura de 32 bits simplesmente estão com um pé atrás num mercado que não é” comprador”, ou seja, num mercado que não oferece viabilidade alguma de retorno.
Agora vamos ao outro extremo, um outro exemplo do que eu quero dizer: um “artista”, garotão malhado com cabelo de cacatua, “inventado” por um fazendeiro da área do agronegócio, num esquema milionário que pressupõe jabazeadas milionárias e esquemas mirabolantes nos conhecidos programas da “grande mídia”, cantando ridiculamente “colocadinho”, com letra do tipo “Tchu-tchá-tchá-tchu-tchá-tchú-tchá-tchá-tchu- tchá” , “prá cima-prá baixo-prá-frente-prá-trás” – adivinhem em quantos bits ele vai gravar ? Entenderam a revolução tecnológica ?
Como escreveria, no meu lugar, o brilhante Arnaldo Antunes :
“Tsunami de quê… Tsunami de quê…”
Benvindos a 2014.
Prometo resistir, sou caroço.
Na Coaxo do Sapo, todos vão estar em 64 bits. Com AMOR pela música.
Eu agüento o mundo, então ele que me agüente!

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Recomendados para você

Recomendados