5 de junho de 2026

Nikolas Ferreira e a Insídia do Adolescente Tardio, por Thiago Gama

A marcha recente que liderou rumo a Brasília guarda semelhanças assustadoras com o messianismo de Jonestown.
Imagem gerada por I.A. (Gemini).

Nikolas Ferreira, deputado de Minas, lidera marcha em Brasília, alimentando ódio e polarização via redes sociais e discurso binário.
Sua atuação política é marcada por discursos transfóbicos, ataques a minorias e ausência de projetos sociais para Minas Gerais.
Análise compara Nikolas a Jim Jones, alertando para o risco de manipulação digital e crise na democracia brasileira.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

Jonestown via Fibra Óptica: Nikolas Ferreira e a Insídia do Adolescente Tardio:

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A tragédia de quem cresceu na Era Algorítmica

por Thiago Gama

Proposta de Enquadramento: A Crítica como Intervenção Ética

Nota sobre o Método: Esta análise recusa a assepsia de uma neutralidade que, diante da barbárie digital, converter-se-ia em cumplicidade. Seguindo a trilha de Theodor Adorno, compreende-se que, quando o objeto de estudo é a desfiguração da Polis pela técnica, o pensamento que se pretende meramente descritivo acaba por ratificar a própria deformação que observa. Se o fenômeno aqui dissecado opera através do “esgoto digital” e da “insídia”, o rigor do historiador não pode ser apenas clínico, mas deve ser, sobretudo, um Rigor Ético.

Como propôs Walter Benjamin, a tarefa do intelectual em tempos de perigo é “escovar a história a contrapelo”. Portanto, o tom contundente desta exegese não é um excesso retórico, mas uma ferramenta de interrupção: é o “fígado” servindo à razão para denunciar o messianismo de uma “Jonestown 2.0” que se alimenta da exaustão da alma e do silêncio dos sensatos. Não se analisa o abismo com indiferença; analisa-se o abismo com a urgência de quem busca evitar a queda coletiva. Espere o leitor uma proposta de análise, não de neutralidade (impossível, em qualquer área do conhecimento humano).

Imagem gerada por I.A. (Gemini).

por Thiago Gama (UFRJ)

Esclarecido este contrato com você, leitor, proponho o estudo de caso de um adolescente tardio que foi alçado a um jogo político que desconhece a fundo e que, por isso mesmo, opera sob movimentos erráticos e na base do oportunismo do algoritmo.

Esta é a única coisa que ele realmente entende: não a engenharia de como programá-lo, mas a pulsão básica de como reproduzir o ódio e a exaustão da atenção por meio de diatribes milimetricamente desenhadas para o choque.

Estamos diante de um fenômeno que, embora use terno e transite pelos salões de mármore de Brasília, permanece cognitivamente ancorado em um quarto de adolescente, iluminado pelo azul espectral de um smartphone que dita o que é real e o que é heresia.

Este personagem, que Minas Gerais enviou à Câmara como uma espécie de “missiva de protesto” em formato humano, carrega em si um software nativo, uma arquitetura mental programada para rodar exclusivamente em lógica binária. Para ele, o mundo não possui matizes, sombras ou a elegância do cinza; tudo se resume ao zero e ao um, ao amigo e ao inimigo, ao sagrado e ao profano.

É a vitória da techné grega — a técnica pura, o saber-fazer desprovido de sabedoria — sobre a phronesis, a prudência política. Ele é, no sentido mais estrito e etimológico da palavra, um idiote (ἰδιώτης): aquele que, embora ocupe um cargo na polis, permanece encerrado em seu mundo privado de interesses narcísicos, incapaz de contribuir para a saúde do corpo coletivo. Sua oratória não busca o entendimento, mas a capitulação do outro.

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Mesmo sem nunca ter lido o filósofo e jurista alemão Carl Schmitt (1888 – 1985), ele opera, por intuição, no que o pensador descreveu como Estado de exceção permanente – ele é o soberano de uma geração que, pela Internet, e, para nossa tragédia, ele, na vida pública, define quem é amigo e quem é inimigo, e aqui está o resumo do funcionamento de seus dois neurônios.

Essa incapacidade de processar a nuance não é um defeito de fábrica isolado, mas o sintoma mais agudo de uma geração “Z” que foi bombardeada para dizer “sim” ao lixo informacional.

Ele não apenas consome esse conteúdo; ele o secreta. Como um Jim Jones dos trópicos, mas em vez de cianureto em refresco, ele oferece o entorpecimento da alma através de reels e stories.

A marcha recente que liderou rumo a Brasília guarda semelhanças assustadoras com o messianismo de Jonestown. Há ali a mesma condução de massas que sequer sabem para onde vão, movidas por um niilismo disfarçado de propósito, um vazio existencial preenchido pelo grito e pela adoração a um líder que, ironicamente, ele enxerga através de uma lente freudiana de insuficiência afetiva.

Imagem gerada por I.A. (Gemini).

A figura de Jair Bolsonaro funciona para este jovem parlamentar como o Ich-Ideal (Ideal do Eu), um substituto simbólico para uma lacuna paternal que ele tenta preencher com uma devoção que beira o patológico.

Na psicanálise lacaniana, poderíamos dizer que ele busca desesperadamente o “Nome-do-Pai” em uma figura autoritária, projetando nela a autoridade que sua própria maturidade, ainda em estágio larval, não consegue sustentar.

Imagem gerada por I.A. (Gemini).

É um amor que não questiona, um amor que atrofia o pensamento crítico e transforma o mandato legislativo em uma extensão da claque de um capitão reformado. Enquanto o Estado de Minas padece de questões estruturais, seu representante parece mais preocupado em saber se a atenção do “pai” está voltada para ele. O momento de maior êxito de sua caminhada foi seu gozo mal disfarçado, diante das câmeras de TV, quando foi abraçado por seu “irmão” Carlos Bolsonaro. Ali ele obteve a validação familiar que busca em desespero.

Esta devoção cega o impede de enxergar que a política é a arte do dissenso e da construção, não o palco para um monólogo de 15 segundos. Ele é o enfant terrible da República, o menino que quebra os brinquedos porque não sabe brincar, aquele que leva a bola embora do campinho de terra batida porque não consegue fazer o gol (ou não tem capacidade para isso), e que trata a Constituição Federal não como o pacto fundamental que protege a liberdade de cátedra e de expressão — conforme o Artigo 5º e o Artigo 206 da nossa Carta Magna —, mas como um obstáculo a ser contornado em nome de um projeto de poder que ele próprio não sabe definir.

Ele é o condutor de uma multidão em direção ao nada, um niilista que utiliza a liturgia religiosa como verniz para um ultraliberalismo canibal.

O perigo que ele representa para a democracia brasileira reside precisamente nessa ausência de estofo intelectual. É o triunfo da superfície. Ele é o herdeiro direto do estilo de Silas Malafaia, mas com uma roupagem high-tech.

Enquanto Malafaia opera no volume da voz, o jovem deputado opera na velocidade do scroll. Ambos utilizam a religião como uma chave de acesso ao bolso e à mente do fiel, transformando o Evangelho em uma planilha de ganhos e perdas de capital político. É uma religiosidade de mercado, onde a misericórdia é substituída pela eficiência do algoritmo.

Há uma ironia ácida no fato de que ele, que usufrui de toda a tecnologia de satélites e comunicações que só a esfericidade do globo e o rigor da ciência permitiram, ainda se permita o luxo da dúvida medieval. De Eratóstenes a Colombo, de Magalhães a Armstrong, a história é um desfile de mentes que este jovem deputado insiste em ignorar em prol de uma narrativa de esgoto. Sobrou internet, mas faltou, visivelmente, o banco da escola.

O binarismo que rege a mente deste jovem parlamentar não é apenas uma escolha política, mas uma limitação ontológica. Ele opera sob uma versão empobrecida da lógica de Carl Schmitt, citado acima: para ele, a política resume-se à distinção absoluta entre amigos e inimigos, sem o anteparo da diplomacia ou o benefício da dúvida.

Se o interlocutor não é um espelho, ele é sumariamente transformado em abismo. Esta é a tragédia da geração “Z” no poder: a substituição do pensamento complexo pela eficiência de um software de edição de vídeo. Ele não debate ideias; ele “refuta” espantalhos para uma audiência que já decidiu concordar com ele antes mesmo do primeiro frame. Sua atuação política opera, assim, na lógica da câmara de eco, transformando um princípio de engajamento digital em prática legislativa.

O episódio da peruca loira, no qual ele encarnou a personagem “Nicole” em pleno plenário da Câmara, é o sintoma mais ruidoso dessa falha de caráter e de rigor intelectual. Ao tentar ridicularizar a existência de mulheres trans, ele não apenas flertou com a infração penal — o que lhe rendeu uma condenação judicial pedagógica —, mas revelou a total incapacidade de lidar com qualquer coisa que escape ao binarismo biológico de sua compreensão rudimentar.

A “Nicole” de Nikolas é a representação gráfica de sua própria insídia: um homem que se veste de deboche para ocultar a incapacidade de legislar sobre a complexidade humana. Ali, o deputado de Minas não foi um defensor de valores; foi um adolescente fazendo bullying no pátio do colégio, mas com a diferença perversa de carregar um bóton de parlamentar no peito e o dinheiro do contribuinte no bolso.

Nesse ponto, a comparação com Kim Kataguiri torna-se inevitável, embora desfavorável ao nosso “menino prodígio” mineiro. Enquanto Kataguiri, em sua gênese, tentava articular uma gramática liberal — por mais contestável que fosse —, Nikolas submerge no lodo do ódio puro e simples, sem o verniz de qualquer projeto de país.

Se um buscava a reforma do Estado, o outro busca apenas a manutenção do caos que alimenta seu engajamento.

É um personagem que cresceu nas estruturas do esgoto digital, onde a leitura é substituída pelo título da notícia e a compreensão é trocada pela reação rápida. É o triunfo do idiote político que, ao chegar à Polis, descobre que não tem nada a dizer além de repetir os bordões que o algoritmo já santificou.

Sua oratória, frequentemente descrita por seus seguidores como “corajosa”, é, na verdade, um exercício de profunda covardia intelectual (que raramente se sustenta em um debate de fundamentos).

Ele ataca minorias e instituições sob o escudo da imunidade parlamentar, mas recua para o vitimismo quando confrontado pela lei. É o clássico comportamento do “valentão” das redes sociais que, quando instado a apresentar um projeto de lei que não seja uma peça de propaganda ideológica, entrega o vazio.

Sua religiosidade, cruzada com um ultraliberalismo predatório, cria uma teologia da exclusão: um Deus que odeia os mesmos inimigos que ele e um mercado que santifica apenas os seus aliados. É uma religião sem o “Religare”, uma fé que desune e que se serve do altar para pavimentar o caminho até a urna.

O olhar desse “adolescente tardio” é frequentemente sobressaltado, niilista em sua essência, mas revestido de uma falsa esperança messiânica. Ele conduz massas que, assim como ele, parecem ter desistido da realidade em favor do espetáculo.

Ao marchar para Brasília, ele não buscava soluções para a saúde pública ou para a educação — áreas que ele, ironicamente, deveria zelar na Comissão de Educação —, mas sim a validação de sua própria importância.

Da Legitimidade do Método: A História Comparada e a Clínica do Político

Para que esta análise não seja reduzida ao mero exercício retórico, é imperativo explicitar os fundamentos metodológicos que sustentam a analogia entre a marcha de Nikolas Ferreira e o fenômeno de Jonestown. A História Comparada, longe de buscar identidades absolutas, opera na identificação de analogias estruturais e recorrências morfológicas. Como ensina Marc Bloch, o método comparativo permite isolar a “razão de ser” de instituições ou movimentos através do contraste, revelando o que há de singular e o que há de sistêmico. Ao evocar Jonestown, não se sugere um desfecho idêntico, mas utiliza-se a categoria de “comunidade emocional fechada” — conforme teorizado por Max Weber e refinado pela historiografia contemporânea — para explicar a suspensão do julgamento crítico em favor de um messianismo técnico. A comparação é válida porque ambos os fenômenos partilham a estrutura da “entrega incondicional” a uma narrativa que isola o indivíduo da realidade factual, seja pela selva física, seja pela fibra óptica.

Sob a perspectiva da psicanálise, a validade desta autópsia intelectual ancora-se na obra de Donald Winnicott e seu conceito de “espaço transicional”. Nikolas opera em um estágio onde a realidade externa é colonizada por objetos subjetivos (o algoritmo); sua recusa em amadurecer politicamente é o que Winnicott descreveria como uma falha na transição para o princípio de realidade.

Complementarmente, recorremos a Christopher Lasch e sua análise sobre a “Cultura do Narcisismo”. Lasch demonstra como a personalidade narcisista — dependente da aprovação constante e incapaz de alteridade — é o subproduto de sociedades que trocam a substância pela imagem. Nikolas não é um acidente, mas o “tipo psicológico” perfeito da era da atenção capturada.

Do Amparo Legal e o Escrutínio do Poder

Este texto está rigorosamente protegido pelo ordenamento jurídico brasileiro. A liberdade de cátedra e o direito à análise científica são pilares da Constituição Federal, garantidos pelo Artigo 206, inciso II, que assegura a “liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento, a arte e o saber”. Como doutorando e pesquisador, este texto constitui uma intervenção acadêmica no espaço público, imune à censura prévia.

Ademais, é entendimento pacificado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) que agentes públicos, especialmente parlamentares, estão sujeitos a um “ônus da tolerância” significativamente maior. Especificamente o acórdão da ADPF 130, que estabeleceu a “posição preferencial” da liberdade de expressão no ordenamento brasileiro.

Em regimes democráticos, o escrutínio sobre a vida e o discurso de um deputado deve ser extremado, pois sua atuação impacta diretamente o destino da Polis. A crítica severa, o uso de analogias históricas e a análise psicológica não constituem ofensa, mas exercício da cidadania e do dever intelectual de “escovar a história a contrapelo”. A tentativa de criminalizar a análise política de um representante do povo configura, em si, o Lawfare que esta crônica denúncia.

Imagem gerada por I.A. (Gemini).

A JAMESTOWN 2.0

É preciso olhar para o que chamaremos de “Jonestown 2.0”. Se Jim Jones precisou de uma floresta na Guiana para isolar seus seguidores da realidade, o nosso adolescente parlamentar mineiro utiliza a fibra óptica para criar um enclave psíquico onde a lógica não penetra.

A marcha para Brasília não foi um deslocamento geográfico; foi uma coreografia litúrgica. Ele não caminha para legislar; ele caminha para que o algoritmo, essa divindade invisível e faminta, receba seu dízimo de dados e engajamento. É o messianismo do pixel, onde a salvação é medida em likes e o apocalipse é o esquecimento digital.

A simbiose com Silas Malafaia revela a transição da “Governança Pastoral” clássica para a “Governança Algorítmica”. Enquanto o mentor opera na chave do grito e da autoridade eclesiástica do século XX, o pupilo é o mestre da atenção fragmentada.

Nikolas é a atualização do software de Malafaia: mais rápido, mais leve e capaz de rodar em dispositivos móveis. Ambos partilham da mesma teologia da prosperidade política, onde a fé é um instrumento de coerção e o púlpito, seja ele de madeira ou de cristal líquido, serve para sinalizar quem deve ser excomungado da polis. É um jogo de espelhos onde a religião perde sua dimensão de mistério para se tornar uma simples técnica de controle de danos e de mobilização de massas ressentidas.

Aqui, o olhar sobressaltado do deputado — aquele brilho vítreo de quem consome a própria imagem em looping — denuncia um vazio existencial que a política institucional jamais poderá preencher.

Ele é um condutor de massas que, na verdade, é conduzido pela próxima tendência do trending topics. Sob à luz da psicologia profunda, sua relação com o “Capitão” assemelha-se a uma fixação edípica não resolvida; ele busca na figura do ex-presidente a autoridade que sua própria insuficiência afetiva e intelectual não consegue gerar (logo em quem?)

É o “desejo do Outro”, conforme a gramática lacaniana: ele não quer ser um deputado; ele quer ser o que ele imagina que o “Pai” quer que ele seja. Esse mimetismo patológico anula qualquer possibilidade de originalidade política, transformando-o em um ventríloquo de ideias mortas. É a mesma operação mental de Carlos Bolsonaro, Eduardo, Flávio e Jair Renan. Sem saber, Nikolas se parece mais com os “irmãos” do que com o pai que adora.

Imagem criada por I.A. (Gemini).

É preciso alertar para o desastre em câmera lenta: o diploma de Direito deste jovem parece ter servido apenas como um passaporte para a ignorância funcional. Como alguém que tem o dever de zelar pela educação nacional pode cultivar dúvidas sobre a esfericidade do planeta?

Há aqui uma contradição performativa: ele se vale dos frutos mais avançados da ciência (satélites, microprocessadores) enquanto alimenta, para seu público, narrativas que questionam os fundamentos do próprio conhecimento que os produziu. É o sintoma de uma formação que privilegiou o impacto da fala sobre a coerência do pensamento.

Alguém neste país deve dizer – Deputado, o Sr. é uma vítima de dois sistemas: o brasileiro, que não te deu uma boa escola, e do Silício, que te formou no ódio do Facebook.

Essa leitura, contudo, não deve servir para uma absolvição. A compreensão das causas estruturais de um fenômeno — a degradação da educação pública e a arquitetura predatória das plataformas — é o primeiro passo para combatê-lo, não para eximir seu agente de responsabilidade. Assumir um mandato representa, em tese, a adesão a um patamar mínimo de racionalidade e compromisso com a coisa pública, exigências que seu projeto político ativo parece rejeitar.

Ele utiliza os estratos populares mais baixos a fim de disseminar a linguagem e os códigos desses grupos para vendê-los ao ultraliberalismo mais canibal. Ele não oferece projetos de saneamento, de renda ou de dignidade para os pobres de Minas; ele oferece o direito de odiar junto com ele.

Ele troca o pão pela peruca loira, a saúde pelo deboche, e a educação pelo binarismo tacanho que separa o país entre “nós” e “eles”. Nikolas é o triunfo do niilismo disfarçado de virtude, um jovem sem projeto de vida que se tornou o condutor de um país que, se não acordar, será levado para o mesmo abismo que Jim Jones reservou aos seus.

Nikolas se converteu na mediocridade alçada ao estrelato, onde a paródia da vida real encontra o seu ritmo mais sombrio. Se o punk rock do The Clash gritava contra o conformismo com uma urgência que vinha das vísceras e de um propósito político genuíno, o nosso “deputado de chupeta” opera uma versão degradada e digital dessa rebeldia.

É inevitável evocarmos a música mais famosa do The Clash como farsa absoluta: “Nikolas Calling”, os versos de Joe Strummer ganham um eco vazio: Nikolas calling to the far-away towns / Now war is declared and battle come down / Nikolas calling to the underworld / Come out of the cupboard, you boys and girls.

Imagem gerada por I.A. (Gemini).

Mas, ao contrário do chamado para a consciência de 1979, o chamado de Nikolas é para o armário do preconceito, para o porão do binarismo e para a exaustão de uma juventude que, em vez de mudar o mundo, prefere “cancelar” a alteridade em vídeos de 15 segundos. Enquanto o The Clash tinha uma causa, Nikolas tem apenas uma meta de visualizações. É a juventude com cargo, mas sem alma; com voz, mas sem mensagem.

O que assistimos é a insídia da República vestida de frescor juvenil. Através da lente lacaniana, Nikolas vive um “estágio do espelho” permanente e patológico: ele não vê a si mesmo, mas apenas a imagem idealizada que o Grande Outro — personificado pelo algoritmo e pela figura paternal de Jair Bolsonaro — devolve para ele.

Bolsonaro opera, em sua dinâmica psíquica projetada, como uma bússola afetiva que parece suprir uma carência de referencial simbólico autônomo.

Por isso, ele prefere o binarismo confortável do “amigo versus inimigo”, uma redução drástica da realidade que protege sua fragilidade emocional de qualquer contato com a complexidade do mundo real. Pelo Pai ele é capaz, se necessário for, de sair de São Leopoldo à Brasília, e além. Antes ele sozinho, a tragédia são os que ele devora na caminhada com ele, e os milhões que se arregimentam na Internet para acompanhá-lo.

Nesta marcha ruidosa para Brasília, ele se revelou o Jim Jones de uma seita que não precisa de isolamento geográfico para ser controlada. A seita do algoritmo opera por meio de gatilhos mentais e da retroalimentação do ódio.

Nikolas é o mestre da techné do esgoto, um ás em navegar pelas correntes de desinformação que, segundo reportagens de veículos como o Intercept Brasil e o G1, têm sido o combustível de sua ascensão meteórica.

Ele é o exemplo perfeito de como a falta de leitura — e aqui não falamos de diletantismo, mas de densidade intelectual — produz personagens que confundem “lacração” com legislação (a “paródia analítica” foi inevitável, mas foi utilizada com propósito, afinal, estamos tentando entrar na mente do binário).

A dúvida sobre a esfericidade da Terra, relatada em momentos de “descontração” digital, não é uma anedota; é um sintoma. É o colapso da escola básica diante da onipotência da rede social. Um bacharel em Direito que não consegue distinguir uma cláusula pétrea da curvatura do horizonte é, antes de tudo, uma falha sistêmica do nosso modelo educacional, e, por que não, do nosso modelo universitário.

Enquanto Minas Gerais demanda por estadistas que compreendam a economia política e a justiça social, recebe um adolescente que se fantasia de “Nicole” para agredir a dignidade de cidadãos LGBTQIA+

Ele é a tragédia que irrompe na Polis para bagunçar o coreto e, como Kim Kataguiri antes dele, corre o risco de submergir no lodo da própria irrelevância assim que o próximo “brinquedo” do algoritmo surgir, ou, quem sabe, quando o Pai demandante, acreditar que o filho de pixel não tem mais serventia. Será doloroso para Nikolas, e libertador para Minas e para o Brasil.

Se piscarmos, este “adolescente tardio”, confortável em seus 15 anos mentais, poderá ocupar cadeiras ainda mais altas, tornando-se senador ou governador de Estado, tamanha é a capacidade de mobilização do ódio retroalimentado.

Contudo, visto à distância segura do tempo, Nikolas Ferreira será lembrado apenas como uma das tragédias históricas que irromperam no Brasil para bagunçar a Polis e, após cumprirem seu papel de ruído, submergiram no lodo da própria insignificância, devorado pelo monstro algorítmico.

Imagem Gerada por I.A. (Gemini).

Ele é um sintoma da República, um produto de dinâmicas midiáticas e afetivas que encontraram solo fértil em um contexto de crise institucional e polarização. Sua trajetória oferece, antes de tudo, um estudo de caso sobre o que se entende por ‘projeto’ quando a política se reduz ao espetáculo da exaustão.

Thiago Gama é Doutorando em História Comparada pelo PPGHC da UFRJ.

Fontes:

AGÊNCIA BRASIL. Deputado Nikolas recusa acordo para encerrar processo no Supremo. Brasília, 2024. Disponível em: Agência Brasil – EBC. Acessado em 28 de janeiro de 2026.

BRASIL. [Constituição (1988)]. Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Presidência da República, 1988. Disponível em: Presidência da República. Acessado em 28 de janeiro de 2026.

CORREIO BRAZILIENSE. Número de Nikolas aparece em investigação do INSS ligada ao Banco Master. Brasília, 2026. Disponível em: Correio Braziliense. Acessado em 28 de janeiro de 2026.

MIGALHAS. Nikolas Ferreira é condenado em R$ 200 mil por discurso transfóbico na Câmara. [S. l.], 2025. Disponível em: Jornal Migalhas. Acessado em 28 de janeiro de 2026.

PODER360. Nikolas encerra caminhada e raio atinge apoiadores. Brasília, 2026. Disponível em: Poder 360. Acessado em 28 de janeiro de 2026.

THE INTERCEPT BRASIL. A máquina de influência de Nikolas Ferreira na Meta. [S. l.], 2025. Disponível em: The Intercept. Acessado em 28 de janeiro de 2026.

Bibliografia:

ARENDT, Hannah. A condição humana. Tradução de Roberto Raposo. 10. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2007.

BLOCH, Marc. História e historiadores. Tradução de Inês Duarte. Lisboa: Teorema, 1998.

FOUCAULT, Michel. Segurança, território, população: curso no Collège de France (1977-1978). Tradução de Eduardo Brandão. São Paulo: Martins Fontes, 2008.

FREUD, Sigmund. O eu e o id, “autobiografia” e outros textos (1923-1925). Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. (Obras completas, v. 16).

HABERMAS, Jürgen. Teoria do agir comunicativo: racionalidade da ação e racionalização social. Tradução de Flávio Beno Siebeneichler. São Paulo: Martins Fontes, 2012. v. 1.

LACAN, Jacques. O seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988.

LASCH, Christopher. A cultura do narcisismo. Tradução de Daniel Aarão Reis Filho. Rio de Janeiro: Imago, 1983.

LEVITSKY, Steven; ZIBLATT, Daniel. Como as democracias morrem. Tradução de Renato Aguiar. Rio de Janeiro: Zahar, 2018.

SCHMITT, Carl. O conceito do político. Tradução de Álvaro L. M. Valls. Petrópolis: Vozes, 1992.

WINNICOTT, Donald W. O brincar e a realidade. Tradução de José Octávio de Aguiar Abreu e Vanede Nobre. Rio de Janeiro: Imago, 1975.

WU, Tim. O imperativo da atenção: o negócio de capturar e vender nosso foco. Tradução de Cássio de Arantes Leite. São Paulo: Editora Vestígio, 2020.

ZUBOFF, Shoshana. A era do capitalismo de vigilância: a luta por um futuro humano na nova fronteira do poder. Tradução de George Schlesinger. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2020.

Inserção de obra musical:

THE CLASH. London Calling. In: London Calling. Londres: CBS Records, 1979. 1 disco sonoro.

Redação

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  1. Rui Ribeiro

    6 de fevereiro de 2026 10:54 am

    Os idiotas vão dominar o mundo e vão fazê-lo não por capacidade, mas pela quantidade. Eles são muitos.

    Apesar de serem muitos, eles não sabem voar. Podemos surpreendê-los nas suas pocilgas e recuperar as perólas que eles tentam enfiar na lama ao chafurdá-la.

  2. Rui Ribeiro

    6 de fevereiro de 2026 10:56 am

    “É verdade que existem vários idiotas no congresso. Mas os idiotas constituem boa parte da população que merecem estar bem representados”. – Hubert Humphrey

  3. Sergio Pausic

    8 de fevereiro de 2026 2:19 pm

    Uma análise de lavar a alma! Parabéns ao autor.

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