
Entristece-me a situação de Marisa Letícia. Vidas humanas têm valor intrínseco, e, para que eu me regozijasse com o desaparecimento de alguém, seria preciso que o morto fosse um monstro ou me tivesse causado dano irreparável. Não é o caso de Marisa. Sem surpresa, mas com consternação, verifico que nem todos pensam assim.
Uma passeada pelos comentários que circularam na internet depois que a notícia da piora do estado da ex-primeira-dama foi divulgada revela não só que muita gente se alegrou com isso como ainda fez questão de lançar publicamente impropérios contra Marisa e a família. Por quê?
A resposta tem a ver com política. Parte da humanidade não resiste à lógica do nós contra eles, que, nas versões fortes, prega que toda desgraça que recair sobre o grupo adversário é uma bênção para o nosso. Mas não é só. Muitos dos que vituperam só o fazem porque estão interagindo, não com pessoas de carne e osso, mas com as teclas de um computador. Arrisco até prognosticar que se, num passe de mágica, esses indivíduos fossem teletransportados para o velório de seu objeto de execração, apresentariam, genuinamente comovidos, condolências à família.
Meu ponto é que nosso aparato emocional, e também o intelectual e o moral, foi concebido para funcionar num mundo em que as interações entre pessoas eram ao vivo e em cores, não remotas e semianônimas. E isso, creiam, faz toda a diferença.
O melhor exemplo é o linguístico. Basta jogar um recém-nascido numa aldeia qualquer e voltar cinco anos depois que ele estará falando com perfeição o idioma local. Mas você pode deixá-lo o dobro do tempo ouvindo apenas a programação do rádio ou da TV numa língua estrangeira e nem por isso ele a aprenderá.
Não estou advogando pelo banimento da internet, que traz muito mais bônus do que ônus. Mas é bom lembrar que o que nos faz humanos é a interação com outros humanos.

maizetrindade
3 de fevereiro de 2017 4:21 pmHélio Schwartsman
Excelente observação, Carol Proner! É por opiniões equivocadas, semelhantes à do Hélio Schwartzman, que transitamos de uma revolta política para uma política fascistóide de ódio que transcende o que se pode chamar de legítimo.
Max Christian Frauendorf
3 de fevereiro de 2017 4:39 pmo relativizador geral de tudo
Sim, Carol, esse “colunista”, por meio de engenhosas arquiteturas da escrita (este talento, convenhamos ,ele tem), vem relativizando tudo quanto é assunto polêmico. Esconde-se habilmente atrás das “vicissitudes humanas”, ou então recorre à pesquisas de origem mais que duvidosa para corroborar psicologismos que “explicariam” comportamentos fascistóides e autoritários. “Naturaliza” essas manifestações e vai abrindo caminho para aceitação de ataques a tudo o que através de milênios, a evolução da racionalidade humana logrou alcançar. Ao nos aproximar de nossa origem animal,ele deita justificativas naquele pequeno espaço decadente da fsp, expõe teorias que neutralizaram justamente o que nos distinguiu das outras espécies: a racionalidade que nos possibilitou viver em sociedades mais complexas, e sim, mais justas. Já li coisas assustadoras como “pesquisas” que “geneticizam” certos padrões comportamentais e tolerâncias com a expressão de neonazistas que no limite, beiram o alinhamento. É por estas e outras que cancelei minha assinatura da falha de são paulo. Ela tem dado espaço para que pessoas, a exemplo deste rapazote, usem de sua inteligência para llustrar com alguma intelectualidade aquilo que existe de mais escroto nas sociedades humanas.
GalileoGalilei
3 de fevereiro de 2017 4:45 pmUé?
“Parte da humanidade não resiste à lógica do nós contra eles, que, nas versões fortes, prega que toda desgraça que recair sobre o grupo adversário é uma bênção para o nosso.”
O “nós x eles” não foi invenção do PT e dos governos petistas?
João de Paiva
3 de fevereiro de 2017 7:16 pmPerceber a de classes não signigfica flertar com o nazifascimo
Prezado,
Você se apropria do nome de um grande cientista, para expor aqui um diversionismo, para confundir, para tentar justificar a simpatia expressa pelo autor do texto – de forma engenhosa e dissimulada, como bem mostrou Carol Proner – às idéias, preconceituosas, eugenistas e (por que não?) nazifascistas.
Não foi o PT que inventou a luta de classes e os interesses antagônicos entre as classes dominantes e as classes dominadas. Há 150 anos Marx e Engels demonstraram, cientificamente, a existência dessa luta. Tanto esses dois pensadores como outros pioneiros dos ideais socialistas e comunistas não pregavam o extermínio de adversários, sobretudo se estes estivessem agonizantes, no leito de morte. (Nerm pense colocar como pioneiros do socialismo figuras como Joseph Stálin e seguidores deste).
Mas nem de longe o PT foi ou é socialista. Quem acompanha o partido desde a fundação sabe que o PT pode ser enquadrado, no máximo, como social-democrata. O PT nasce de uma associação entre líderes sindicais, intelectuais e líderes religiosos – sobretudo ligados à ala progressista da Igreja Católica, a Teologia da Libertação. Como líder sindical Lula sempre foi um habílimo negociador, um conciliador. Nem Lula nem o PT jamais se voltaram contra o sistema capitalista.
Esse chavão tolo “nós x eles” é válvula de escape usada por muitos, para relativizar o ódio nazifascista, disseminado pelos veículos de mídia e hoje a mais grave patologia social que desagrega a sociedade brasileira e a encaminha para um guerra civil, uma luta fratricida, a qual pode levar à fratura do País.
É simples resumir a diferença básica entre ser de Esquerda e sr de Direita. Quem é de Esquerda coloca em primeiro lugar o interesse coletivo, das classes trabalhadoras. Quem é de Direita defende os privilégios das classes dominantes e se vale da teoria da meritocracia, para justificar os privilégios.
Robson Santos
3 de fevereiro de 2017 9:39 pmParabéns, caro João. Creio
Parabéns, caro João. Creio que você conseguiu ser bem didático e de grande boa fé para com esse cidadão galileo, mas, no fundo, acho que esses caras ficam só de zoação, não querem nada com nada… nem pensar, ou questionar, refletir… só curtir… enquanto podem, só zoar, enfim… parabéns pela boa vontade!
Quanto ao PT, sendo ou não socialista, é o que ainda temos de um partido de massa e de viés democrático/republicano… Lula foi o que conseguimos conceber de melhor como líder popular – neste historicamente putrefato universo político tupiniquim – com enraizamento e condições de mobilizar a grande e secular massa de desvalidos deste nosso amado Brasil… Não tem a altitude moral de um Mujica? de um Mandela? Talvez, mas é também um grande – reconhecido internacionalmente – , e é nosso, a quem os caracteres mais abjetos deste país, de todos os naipes, querem agora destruir, por tudo o que representa… Não hão de conseguir!
Viva o Brasil! Viva o povo brasileiro!
Não nos esqueçamos:
“Ou ficar a pátria livre ou morrer pelo Brasil”
“Mas se ergues da justiça a clava forte verás que um filho teu não foge à luta”
Dona Marisa Letícia Lula da Silva! Presente!
Serjão
3 de fevereiro de 2017 10:56 pmLula foi o que conseguimos
Não tem a altitude moral de um Mujica? de um Mandela? Talvez…
Poderia explanar mais sobre essa afirmação? A razão da dúvida?
O que o leva a pensar assim?
Será somente a confirmação do dito: Ninguém é profeta na sua própria terra?
A consagração de um mito necessita da distância espaço-temporal?
Gostaríamos (com certeza não devo ser o único) de entender melhor sua afirmação.
GalileoGalilei
4 de fevereiro de 2017 12:19 amSurpreendente
Sinceramente esperava um pouco mais de perspicácia.
Do jeito que investiram cegamente contra o que é EVIDENTEMENTE uma crítica aos setores da direita que não param de repetir o mantra de que o “nõs x eles” foi inventado pelo PT, vocês serão capazes de se jogar pela janela com uma simples finta de corpo de qualquer dirteitista bocó.
Um pouco mais de sagacidade, gente. Não vai ser assim que a direita será derrotada.
Já estamos bem mal e arriscamos de nos ferrarmos mais ainda ficando com a b… no chão com cara de patetas.
É muito raro quando o touro consegue levar a melhor sobre o toureiro. Se fosse mais frequente não haveria o “espetáculo”.
GalileoGalilei
3 de fevereiro de 2017 11:39 pmChato ter que explicar a ironia
Terá sido tão difícil assim ter percebido que o comentário era justamente uma crítica aos que difundiram pelos quatro cantos que o “nós x eles” foi criado pelo PT?
Francamente!
GalileoGalilei
4 de fevereiro de 2017 12:29 amNormalmente não costumo explicar a ironia
Por que não costumo subestimar a inteligência dos leitores.
João de Paiva
3 de fevereiro de 2017 6:55 pmEste texto de Schwartzman é um escárnio
Prezados,
Quem deve ler o artigo desse pseudo-filósofo é a maga patalógika, hoje na presidência do stf. Não foi ela que disse que o escárnio venceu o cinismo (aliás, em matéria de cinismo ela é doutora)?
Exemplo maior de escárnio só mesmo o stf dos ínclitos gilmar mendes, luiz fux, dias toffoli, celso de mello (esse que segundo o jurista Saulo Ramos “é um juiz de merda”), rosa weber, luiz edson fachin, marco aurélio mello, luís roberto barroso e mesmo Ricardo Lewandowski (que se acovardou e foi pusilânime na condução do impeachment fraudulento, que na verdade foi um golpe de Estado) ou o ministério público – dos dallagnóis e carlinhos hemorróidas da vida – e pf – que tem nos seus quadros os delegados criminosos e aecistas – como márcio anselmo, maurício moscardi grillo e igor romário de paula – (sobretudo os envolvidos na ORCRIM da Fraude a Jato). Como exemplo máximo de escárnio destaquem-se o criminoso contumaz, sérgio fernando moro, que alguns chamam de juiz federal, e o TRF4, que não só chancelou e coonestou os crimes continuados de sérgio moro, como os justificou, ao instaurar o Estado Fascista de Exceção.
Antonio Uchoa Neto
3 de fevereiro de 2017 7:39 pmMeu pai, entre 2003 e 2014,
Meu pai, entre 2003 e 2014, ano em que faleceu, cultivou um silencioso ódio a Lula.
Só se referia ao ex-presidente como “molusco”.
Nas poucas ocasiões em que estive com ele, nesse período, tentei em algumas ocasiões esmiuçar a origem e o porquê desse sentimento, mas ele, habilmente, se esquivava.
Meu pai era advogado, foi relações públicas de algumas empresas multinacionais, mas, por motivos diversos, não alcançou o padrão de vida que sempre julgou ser merecedor, e morreu pobre.
Já era pobre, bem antes de desenvolver esse ódio. Teve tempo e tinha inteligência mais do que suficiente para perceber em que lado estaria, nesse esquema estúpido de “nós contra eles”.
Evidentemente, não cairia nessa esparrela, pois sabia que a questão era bem mais complexa. Pelo menos, manteve a honestidade intelectual que sempre teve.
E francamente, essa história de teletransporte eu aceitaria com naturalidade, na boca de um Merval Pereira, ou de um Alexandre Garcia da vida. Ou em um final de telenovela.
Mas, vindo de um bacharel em filosofia, é o fim do mundo.
Mostra a que ponto chegou a elite desse país, seja ela qual for, financeira, política, ou intelectual.
Eduardo Outro
3 de fevereiro de 2017 8:12 pmEntão tá, mas eu também tenho
Então tá, mas eu também tenho uma explicacão para a atitude deles, principalmente se forem médicos: eles se alimentam no café da manhã com um copo de ódio, almocam e jantam frustracão com sobremesa de fracassos reprimidos e nos intervalos fazem um lanchinho ou lanchão de inveja. À noite dormem à custa de álcool e lexotan após sexo finalizado precocemente e sem orgasmo. E por que são assim ? Porque não aceitam a diversidade, não toleram negros, inclusão de qualquer espécie, pobres principalmente nordestinos, só conseguem compartilhar com seus iguais a vidinha fútil que levam. Ao se defrontarem com a realidade de um casal como Lula e Marisa, que tinham tudo que eles não têm e não tinham nada do que eles têm, não aguentam o tranco a reagem. E não me venha alguém cobrar tolerância e interacão com esse tipo de diversidade, ela é necessária entre os da mesma espécie, coisa que eles não o são. E a culpa é da Política e do computador !
João Luis
3 de fevereiro de 2017 10:58 pmNem uma palavra de
Nem uma palavra de autocrítica pela perseguição e pelo ódio que o seu jornal difundiu anos e anos a fio?
Rui Ribeiro
4 de fevereiro de 2017 5:10 amA solidão é fera, o Solitário, sua vítima
A solidão talvez até faça o mal que alguém nutre espiritualmente aflorar mas não é ela que causa o mal em si. É que a televisão passa o tempo todo ligada num jogo obsceno, lançando idéias malévolas, a maioria das vezes subliminarmente, mas agora mais escancaradamente, sem rodeios. Eles querem ver o circo social pegar fogo, eles querem reconstruir Roma com o colieu, não querem sangue, não pão e circo., nada obstante o show deva continuar
Doney
4 de fevereiro de 2017 10:08 amTexto arguto.
Texto arguto.