4 de junho de 2026

A voz de Hind Rajab: um relato das monstruosidades de Israel, por Roberto Bitencourt da Silva

Todas as nações vulneráveis e subalternas no capitalismo global, como o Brasil, precisam se familiarizar com o que ocorre na Palestina
Divulgação

Filme tunisiano “A voz de Hind Rajab” retrata ataque israelense a menina de 6 anos na Faixa de Gaza com gravações reais.
Obra mistura documentário e drama, mostrando sofrimento palestino e práticas genocidas de Israel desde 2023.
Autor defende rompimento diplomático do Brasil com Israel e divulgação do filme para conscientizar sobre a crise.

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Filme “A voz de Hind Rajab”: um relato das monstruosidades de Israel

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por Roberto Bitencourt da Silva

Faz poucos dias o filme tunisiano “A voz de Hind Rajab”, dirigido pela cineasta Kaouther Ben Hania, foi lançado no circuito brasileiro de cinemas. Consagrado com o Leão de Prata no Festival de Veneza, o filme concorre ao Oscar de Melhor Filme Internacional neste ano, entre outras obras, acompanhado da película brasileira “O agente secreto”.

Trata-se de uma mescla de documentário com drama ficcional. A ideia que movimenta a narrativa é engenhosa: uma menina de 6 anos de idade, chamada Hind Rajab, que se encontra na Faixa de Gaza, está presa em um carro. O veículo é alvejado por sucessivos tiros e acossado por explosões perpetradas nas cercanias pelo exército de Israel.

Contando com a companhia de parentes mortos no automóvel destruído, a pequena Hind Rajab tem a sua voz audível na história, por intermédio das conversas travadas por telefonia celular com trabalhadores de um centro de assistência e socorro, baseado na Cisjordânia, cuja ambulância mais próxima encontra-se a 8 km da criança. O detalhe decisivo: a voz de Rajab é autêntica. Foram utilizadas as gravações originais dos diálogos entre os atendentes do serviço socorrista e a menina vitimada pelo terrorismo do Estado de Israel.

“A voz de Hind Rajab” corresponde a um relato consternador, muito desconcertante, que ilumina as terríveis agruras experimentadas pelos palestinos, sobretudo após o ano de 2023. Sob a alegação de combate ao Hamas (que, para todos os efeitos do direito internacional, consiste em uma organização político-militar de resistência ao colonialismo israelense), o governo de Israel vem adotando inúmeras práticas genocidas contra o povo palestino, tais como: a ampla destruição da infraestrutura da Faixa de Gaza; o apagamento (na verdade, a devastação) dos lugares de memória e identidade cultural; o deslocamento forçado da população; pulverização das propriedades palestinas; o uso da fome enquanto recurso de punição coletiva ao povo; o assassinato metódico de vastos segmentos das gentes, particularmente crianças, mulheres, idosos.

O povo palestino está entre a cruz e a espada: a “Junta de Paz”, recentemente imposta por Donald Trump, e o terrorismo nazisionista de Israel. Ou o colonialismo dominado abertamente pelos Estados Unidos ou a “solução final” israelense. Os direitos dos palestinos, estes não alcançam qualquer reconhecimento entre os agentes econômicos e políticos que comandam a monstruosidade imperialista na região. Até o momento, mais de 70 mil palestinos foram assassinados nos últimos dois anos e centenas de milhares foram gravemente feridos.

A narrativa do filme é tensa, atrai bastante a atenção e coloca o espectador em uma posição de empatia com a causa palestina. Confesso: o autor destas linhas teve que se afastar da sala de exibição do filme para se recompor. Há passagens muito doídas, de sofrimento da criança, que dão um verdadeiro nó na garganta. Além de iluminar algumas terríveis adversidades vivenciadas pelos palestinos, o filme da tunisiana Kaouther Ben Hania revela não poucos contornos sádicos da tomada de decisões israelenses, convertendo, por exemplo, burocracia em máquina de promoção de sofrimento.

Esse filme precisa ser visto por todos os brasileiros. Senão a maior, seguramente uma das maiores barbaridades cometidas pelo imperialismo capitalista, há décadas, é a dominação violenta e a expropriação de terras e vidas exercidas sobre a Palestina, que traduzem medidas indissociáveis da natureza peculiar da civilização capitalista: o roubo, a perfídia, a espoliação, a violência, o racismo, até mesmo a destruição completa das forças produtivas (seres humanos, infraestrutura urbana, redes comerciais e de serviços, universidades, escolas, hospitais etc.).

Tudo para assegurar as assimetrias e hierarquias territoriais da divisão internacional do trabalho e do poder político global, que tanto favorecem as nações centrais do capitalismo (a tríade, como diz Samir Amin, formada por EUA/União Europeia/Japão). Destruir forças produtivas para renovar os processos de circulação e acumulação de capital manifesta-se como uma das metas mais almejadas, inerentes ao holocausto palestino.

Todas as nações vulneráveis e subalternas no capitalismo global, como o Brasil, precisam se familiarizar com o que ocorre na Palestina, como também se solidarizar com esse sofrido povo. A necropolítica (conceito difundido por Achille Mbembe), isto é, o poder de definir quem merece ou não viver e gozar de direitos, é o ápice da capacidade tirânica de exercício do poder desfrutado pelas nações centrais do capitalismo imperialista e colonialista. Somos alvos destas nações, de certo.

Nossa vizinha Venezuela, bem como Cuba, têm sido vítimas recorrentes e mais notórias em nossas terras latino-americanas. O bloqueio econômico, levado a cabo pelos EUA, afeta destrutivamente aqueles dois países, impulsionando a ocorrência de mortes, por falta de acesso a medicamentos e a equipamentos de diagnósticos clínicos etc.

Isso posto, romper relações diplomáticas e comerciais com Israel é imperioso e o governo brasileiro já deveria ter feito isso há bastante tempo. Divulgar e exibir o filme “A voz de Hind Rajab”, assim que ele saia de cartaz dos cinemas, precisa ser compromisso dos movimentos sociais, populares e sindicais, junto às suas bases.

Roberto Bitencourt da Silva – doutor em História (UFF), mestre em Ciência Política (UFRJ) e presidente da Associação dos Docentes do Ensino Superior da Faetec (Adesfaetec, S. Sind. do Andes-SN).

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