6 de junho de 2026

O Agente Secreto e o desafio da introdução, por Carlos Dantas

O rito das negociações entre empresários e pistoleiros em SP se repete em Recife. A interface de cumplicidade entre as Cidades é traçada
O Agente Secreto - Divulgação

Wagner Moura dirige Fusca amarelo em Recife, cenário de eventos com Marcelo, Euclides e Alexandre, personagens centrais do filme.
Marcelo, ex-professor da UFPE, enfrenta perseguição após conflito com empresário ligado à Eletrobras; tensão cresce com polícia.
Filme de Kleber Mendonça destaca carnaval, violência e resistência em Recife, com símbolos locais e críticas sociais presentes.

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O Agente Secreto e o desafio da introdução

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por Carlos Dantas

O Fusca entra no posto de gasolina, um cadáver ao relento coberto por folhas de papelão atrai os cachorros disparando berros do dono do posto, passa direto um carro levando música de carnaval, chega a polícia. 

Wagner Moura dirigindo o Fusca amarelo retoma a estrada, um corredor por dentro do canavial e segue para Recife. Cai a ficha técnica com os nomes dos artistas, técnicos e a produção. É irrecusável a lembrança da casa e suas rachaduras no filme Valor Sentimental de Joachim Trier. A viagem do Fusca continua, um símbolo-chave foi posto na tela.  

Recife surge no cenário, o teatro dos acontecimentos oferece três palcos: a casa no Espinheiro da nunca assaz reconhecida dona Sebastiana, recebe Wagner Moura, Marcelo; o Instituto de Identificação do delegado Euclides, no Ginásio Pernambucano; e o Cinema São Luís sempre com seu Alexandre, nosso conhecido de Retratos Fantasmas, dirigido por Kleber Mendonça.

Marcelo, quando se chamava Armando, era professor da Universidade Federal de Pernambuco, liderando um grupo de pesquisadores brasileiros e estrangeiros em trabalho que obteve reconhecimento internacional. Caiu em desgraça. O gatilho dos ódios foi acionado por um empresário de São Paulo, representando a Eletrobras.  

Euclides de paletó e gravata vistosos, comanda o mundo real e as transgressões, puxa conversa com Marcelo e impõe a exibição das marcas de tortura no corpo de um velho estrangeiro. O clima sugere que Marcelo pode escolher como quer entregar a sua verdadeira identidade. O suspense dispara quando Euclides manda dois policiais irem encontrar com a morte ao lado do orelhão.

Bobbi é o jovem profissional atrás de seu Alexandre manquejando pela rua, o compasso dos passos é acompanhado pela trilha sonora. Na sequência, Bobbi segue o sangue no rastro do pistoleiro mais velho manquejando, os passos aceleram ao som da trilha até que o rastro de sangue virou cilada, o tiro mata o caçador.

Mãos contando dinheiro corta a cena: contrato da morte/pagamento da traição. O rito das negociações entre empresários e pistoleiros em São Paulo se repete em Recife. A interface de cumplicidade entre as Cidades é traçada, na repetição das imagens dos arremessos da ponte para o rio.   

A menina sonâmbula percorria os telhados do campo de concentração, seu pai, o diretor do campo costumava acariciar ela antes de dormir. Jonathan Glazer em Zona de Interesse descreve o transtorno neurótico da família morando ao lado, sem filmar por dentro o campo de concentração na segunda guerra mundial.

Flagrante na sala dos arquivos, em Zona de Interesse acontece com o senhor diretor do campo de concentração e mulher judia, não identificada, no enredo em tela, a trepada foi interrompida no dia que o expediente do Instituto de Identificação começou mais cedo. 

Seguindo os policiais se encontra uma perna na boca do tubarão e mais adiante a Perna Cabeluda assombra homossexuais na praça pública. A Perna Cabeluda é uma lenda local da época, simbolizava o absurdo, a realidade vigente. O jornal fez a sua parte, explorou o sensacionalismo, o corpo do pistoleiro morto é coberto com folhas de jornal e depois vem a notícia: turista morre no carnaval de Recife.

Político nem militar são visíveis na tela, a participação especial é do retrato na parede, do presidente general Ernesto Geisel.

Na casa de dona Sebastiana chegam diversos refugiados, inclusive africanos e mulher desquitada com sua filha. No ambiente acolhedor se ouve a voz indignada: o namorado matou a moça porque ela conseguiu uma bolsa para estudar na Alemanha.

Em Bacurau, dirigido por Kleber Mendonça, o professor propõe aos alunos o uso de recurso moderno para medir a distância entre Bacurau e São Paulo. Frustração, eles não encontraram Bacurau no Google. 

Flávia é pesquisadora universitária, cumpre sua missão ao trazer o pen drive, Fernando lembra da família, de suas emoções não resolvidas, vive um tempo de abertura e conflito com as opções existenciais. Discretamente ele guarda o pen drive. A comunicação entre gerações marcou o encontro de Flávia e Fernando, uma ponte para o resgate da história. 

Concluindo, o pesadelo decifrou o símbolo-chave. Desde a introdução recebia sinais esparsos, de repente a loucura do carnaval de Recife captura Marcelo, na saída do terceiro palco. Com a marca do frevo e a lucidez da autenticidade, O Agente Secreto de Kleber Mendonça, figura entre os grandes filmes da atualidade. É um produto do cinema brasileiro. 

Carlos Costa Dantas é professor aposentado do Departamento de Energia Nuclear da Universidade Federal de Pernambuco

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