Argentina: De volta a 2001?
por Angelita Matos Souza e Arthur Busch Pelicer
A reforma laboral argentina parece ser mais um capítulo na obsessão de parte do “andar de cima” no sentido de aniquilar o peronismo — hoje, em sua versão atualizada, o kirchnerismo —, destruindo o movimento trabalhista e seus sindicatos.
A revitalização do peronismo, via kirchnerismo, foi possível após o colapso de 2001 e representou uma inflexão antineoliberal moderada; a qual o governo de Mauricio Macri prometeu pôr fim. Sem êxito, na interpretação dele porque foi obrigado a maneirar nas reformas neoliberais.
Daí a promessa de radicalização por Javier Milei, figura tão excêntrica que até permitiu ao seu oponente no segundo turno, o ministro da Economia Sergio Massa, desempenho eleitoral razoável, apesar da inflação superior a 200% registrada durante a sua gestão no governo de Alberto Fernández.
A recém-aprovada reforma trabalhista (mais a redução da maioridade penal) representa um retrocesso enorme, mas parte dos trabalhadores precarizados, que compõe a base de apoio do governo Milei, pode ser que a veja como enfrentamento à “casta” no mundo do trabalho.
Como aponta (entre outros) Klaus Dörre (2022), em Teorema da expropriação capitalista, a expansão de um mercado de trabalho dual fragmenta a classe trabalhadora em termos favoráveis à acumulação de capital: para os trabalhadores formais, os precarizados surgem como ameaça; e nestes desponta o ressentimento em relação às garantias implicadas na exploração formalizada dos primeiros.
A reforma implica em uma espécie de “igualização por baixo” que, mais do que destruir o kirchnerismo, parece inspirar-se, ironicamente, na experiência chinesa de inserção na economia mundial, baseada na oferta de força de trabalho muito barata e desprotegida.
Contudo, nada encontra-se mais distante da experiência chinesa do que o chamado anarcocapitalismo. No país asiático foi a confiança nas capacidades estatais que atraiu investimentos externos e o processo de desenvolvimento foi conduzido pelo Estado, progressivamente no sentido da superação da hiperexploração dos trabalhadores.
Agora, o governo Milei atuar para que esse passado, do qual a China segue buscando se distanciar, seja o futuro dos trabalhadores, implica impor custos sociais severos, sem garantia de atração de investimentos relevantes, simplesmente porque o Estado argentino está em decomposição.
Uma nova ajuda de monta da parte dos EUA vai depender das eleições do meio de mandato do presidente Trump, e não assemelha sensato contar muito com ela. A maioria dos empresários argentinos, segundo sondagem do INDEC, indicou que a reforma terá pouco impacto sobre as decisões de investimento/contratações, retraídas pela queda do consumo no país. Talvez, industriais brasileiros (o que restou deles) queiram se instalar no vizinho para aproveitar a reforma, mas se isso ocorrer, não será significativo.
Com efeito, é pouco plausível que a Argentina “anarcocapitalista” atraia muitos investimentos produtivos, principalmente porque se trata de um país que vive à espera da próxima crise e qualquer ventinho, uma brisa, já é suficiente para desencadear fuga de capitais e a crise é detonada.
Aliás, estudo conduzido pelo Centro de Pesquisa Financeira da Universidade Torcuato Di Tella, divulgado em 20/02/2026, concluiu que a Argentina teria 99% de probabilidade de ingressar em recessão técnica nos próximos meses. A repetição de 2001 parece estar logo ali, ao dobrar a esquina.
Se vier o colapso, resta saber se, mais uma vez, a Argentina morrerá para em seguida ressuscitar. É possível, de maneira articulada à transição energética (o país é rico em minerais cruciais para a transição energética e à indústria de alta tecnologia), todavia, se ocorrer, certamente não será resultado do anarcocapitalismo.
Tudo dependerá de uma combinação favorável entre fatores internos e externos e, sobretudo, da capacidade estatal para transformar o risco da prevalência de uma economia de enclave em oportunidades de desenvolvimento.
Seja como for, pode ser que o governo Milei ainda tenha tempo para aprovar uma reforma da previdência que penalize mais os trabalhadores e uma tributária reduzindo impostos para os ricos.
Angelita Matos Souza. Docente no IGCE-UNESP
Arthur Busch Pelicer. Discente no IGCE-UNESP
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