O assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, em 14 de março de 2018, no Rio de Janeiro, permanece cercado de lacunas investigativas estruturais. Embora Ronnie Lessa tenha sido condenado como executor e Élcio de Queiroz como cúmplice, a cadeia de responsabilidades que culminou no crime — especialmente a identidade e motivação dos mandantes — ainda está longe de ser plenamente esclarecida.
E permanece a dúvida: porque em nenhum momento aparece o nome dos Bolsonaro, embora – conforme o GGN já demonstrou – Carlos Bolsonaro se encontrava no condomínio Vivendas da Barra no mesmo momento em que o motorista Élcio Queiroz se reuniu com o assassino Ronnie Lessa.
Os argumentos abaixo foram enviados pela defesa dos irmãos Brazão.
Peça 1 — O vício original das investigações
As investigações nasceram contaminadas. Três atores com vínculos explícitos ao bolsonarismo ocuparam posições centrais no processo investigativo, criando um padrão sistemático de obstaculização.
Rivaldo Barbosa, indicado pelo general Braga Neto — interventor federal no Rio de Janeiro nomeado pelo governo Temer e figura de proa do bolsonarismo — para chefiar a Polícia Civil fluminense, assumiu o posto às vésperas do assassinato. Sua atuação à frente das investigações foi marcada por desvios deliberados: ele tentou imputar falsamente a autoria do crime ao vereador Marcelo Siciliano, numa manobra que foi desmascarada posteriormente. Em março de 2024, foi preso preventivamente no âmbito da Operação Murder Inc., autorizada pelo Supremo Tribunal Federal, acusado formalmente de obstrução da justiça e ocultação dos mandantes.
Alexandre Ramagem, então diretor da ABIN (Agência Brasileira de Inteligência), é investigado pela Polícia Federal por liderar uma organização criminosa que utilizou o software espião FirstMile para monitorar ilegalmente autoridades do Estado. Entre os alvos do espionagem figura a promotora Simone Sibilio, responsável pelo caso Marielle Franco no Ministério Público — o que configura, se confirmado, interferência direta no trabalho da acusação.
A Polícia Federal sob o comando de Sérgio Moro foi acionada para intimidar o porteiro do condomínio Vivendas da Barra, Alberto Jorge Ferreira Mateus, testemunha-chave que afirmara ter registrado a entrada de Élcio Queiroz — motorista que conduziu Ronnie Lessa até o local do crime — na noite do assassinato. Desde então, o porteiro desapareceu do circuito investigativo; há indícios de que vive fora do país. A ausência de seu depoimento formal representa uma lacuna grave e jamais explicada.
Em síntese: as três principais instâncias que deveriam conduzir a investigação estavam, em diferentes graus, subordinadas politicamente ao bolsonarismo — o que lança uma sombra estrutural sobre a integridade de todo o processo.
Peça 2 — As provas que levaram aos irmãos Brazão
A acusação contra Chiquinho Brazão e Domingos Brazão repousa, em sua totalidade, sobre provas testemunhais — não há registros físicos, financeiros ou de geolocalização que corroborem independentemente as alegações centrais. As duas fontes que sustentam a tese são Beto Bomba e Ronnie Lessa, ambas com credibilidade contestada.
O testemunho de Beto Bomba
Num primeiro momento, as suspeitas foram artificialmente direcionadas ao vereador Marcelo Siciliano (PT), numa estratégia de desvio que, conforme apurado posteriormente, foi orquestrada pelo próprio delegado Rivaldo Barbosa.
A virada investigativa veio quando um miliciano conhecido pelo apelido de Beto Bomba enviou um áudio ao próprio Siciliano, afirmando que os executores do crime seriam milicianos do Rio das Pedras, então em expansão territorial para o bairro da Praça Seca. Na gravação, Beto Bomba indicou os nomes de “Leleu”, “Macaquinho” e “Playboy” como responsáveis pelo assassinato, a mando dos irmãos Brazão.
O problema é que Beto Bomba recebia uma mesada mensal de R$ 7 mil de Siciliano — supostamente como operador político —, criando um incentivo financeiro óbvio para produzir informações que agradassem ao seu pagador. Após a saída de Rivaldo da chefia da Polícia Civil, as investigações foram aprofundadas: uma escuta ambiental foi instalada para captar conversas entre Beto Bomba e outro interlocutor identificado como Fininho. Em depoimento ao STF em 09 de setembro de 2024, um delegado afirmou categoricamente que as gravações demonstraram que Beto mentiu para Siciliano — possivelmente para garantir a continuidade do pagamento que recebia.
A delação de Ronnie Lessa
A peça central da acusação contra os Brazão é a delação premiada de Ronnie Lessa, o atirador confesso. Em seu acordo, Lessa afirma ter cometido o crime a mando dos irmãos, mediante a promessa de receber, como pagamento, um terreno avaliado em R$ 15 milhões — no qual poderia parcelar e vender lotes.
Contudo, o comportamento financeiro de Lessa após o crime contradiz a narrativa de que nenhum pagamento antecipado ocorreu. Segundo depoimento de Élcio de Queiroz e relatórios policiais, Lessa apresentou um enriquecimento expressivo e inexplicado logo após março de 2018: adquiriu automóveis de luxo, realizou viagens internacionais, executou reformas em imóveis próprios e depositou, de forma fracionada, mais de R$ 1 milhão em contas de sua titularidade, de sua esposa e de familiares. A fragmentação dos depósitos é, por si só, indicativa de tentativa de dissimulação da origem dos recursos.
Essa contradição não foi adequadamente elucidada: ou Lessa recebeu pagamento antecipado — o que torna falsa parte de sua delação — ou teve acesso a recursos de origem ainda desconhecida logo após o crime.
Peça 3 — Os Brazão e as milícias: nexo não demonstrado
Um dos pilares da tese acusatória é a alegação de que os irmãos Brazão teriam encomendado o assassinato de Marielle por temerem que ela, como vereadora do PSOL, atrapalhasse seus interesses fundiários e sua influência sobre as milícias que controlavam territórios na Zona Oeste do Rio. Esse nexo, no entanto, apresenta falhas factuais relevantes.
A reunião de articulação do crime nunca foi confirmada. Segundo a delação de Lessa, os mandantes e executores se encontraram para planejar o assassinato — porém não há qualquer evidência objetiva desse encontro: nenhuma imagem de câmeras de segurança, nenhum dado de geolocalização de celulares, nenhum registro financeiro vinculando os presentes.
Os vínculos com milícias foram contestados de múltiplos ângulos. Moradores do Rio das Pedras, delegados e figuras políticas depuseram afirmando que a atuação dos irmãos Brazão era reconhecidamente contrária às milícias naquela região. Mais significativo ainda: membros do próprio PSOL testemunharam que, embora houvesse embate político com os Brazão no plenário da Câmara Municipal, a relação pessoal era amistosa — inclusive com Marcelo Freixo e a própria Marielle Franco.
Janira Rocha, cofundadora do PSOL e figura central da esquerda fluminense, manifestou surpresa genuína diante da acusação, destacando que Domingos Brazão e Freixo mantinham uma relação de cordialidade fora do campo político-institucional.
O depoimento de Orlando Oliveira de Araújo, morador da região e crítico dos Brazão, é particularmente revelador quanto à ausência de tensão territorial com Marielle: “Nunca tive informação lá fora de que a Marielle estaria em alguma comunidade fazendo reunião para legalização interna, nada disso. Nunca tive essa informação. Eu só vim ouvir o nome de Marielle Franco no dia que ela foi assassinada.”
A declaração é duplamente relevante: além de não corroborar a narrativa do conflito territorial, sugere que Marielle — apesar de sua crescente projeção nacional — ainda não havia construído uma presença política consolidada na região que supostamente a tornaria uma ameaça para os Brazão.
E não houve sequer uma menção aos Brazão na CPI das Milícias.
Não há nenhum registro de conversas entre Brazão ou assessores com o delegado Rivaldo Barbosa.
Peça 4 — O pagamento pelo crime: uma promessa sem substância
A promessa de pagamento descrita por Lessa em sua delação — um terreno de R$ 15 milhões na Zona Oeste — tampouco resiste a um escrutínio rigoroso.
A área identificada como suposto objeto do pagamento tem dono registrado, está classificada como área de preservação ambiental e é ladeada por comunidades carentes — características que, combinadas, tornam o imóvel juridicamente intransferível nas condições descritas e economicamente desvalorizado. Anúncios imobiliários artificialmente inflados foram identificados na região, sugerindo uma tentativa posterior de atribuir valor a uma área que, na prática, não o tem.
Há ainda uma desproporção fundamental na lógica do pagamento: Lessa afirma que o crime valeria R$ 50 milhões em ativos. Contudo, Marielle Franco era, em março de 2018, uma vereadora recém-eleita, com dois anos de mandato e, apesar do crescimento de sua visibilidade pública, ainda com influência política circunscrita. A premissa de que ela representaria uma ameaça econômica tão vultosa para os Brazão — a ponto de justificar um assassinato de tamanha repercussão e risco — carece de demonstração concreta.
Peça 5 – Conclusão provisória
O que este conjunto de peças revela não é necessariamente a inocência dos irmãos Brazão — essa conclusão extrapolaria o que as evidências permitem afirmar. O que ele revela é algo igualmente perturbador: uma investigação estruturalmente comprometida desde a origem, conduzida por atores com incentivos para obscurecer determinadas pistas; uma acusação que repousa sobre testemunhos de credibilidade contestada; e uma tese sobre mandantes que até hoje não foi corroborada por evidências físicas, financeiras ou documentais independentes.
O assassinato de Marielle Franco permanece, oito anos depois, uma história inconclusa — não apenas porque os mandantes ainda não foram definitivamente responsabilizados, mas porque as condições para uma investigação verdadeiramente isenta talvez nunca tenham existido.
Aqui no GGN, mostramos inúmeras provas de que os álibis invocados pelos Bolsonaro eram falsos:
1. A história de que Bolsonaro não poderia ter recebido a ligação do porteiro, por estar em Brasilia, não se sustenta, quando demonstramos que o sistema do condomínio permitia transferência para celulares.
2. O álibi de Carlos Bolsonaro, de que passou a tarde inteira da morte de Marielle na Camara de Vereadores, foi desmentida pelo seu próprio vídeo, mostrando no equipamento da portaria, uma chamada paa a sua casa às 17 horas, avisando que “o seu Uber chegou”. Era a hora em que Lessa saía do condomínio para executar Marielle.
3. O envolvimento direto da ABIN e da PF de Moro com o episódio.
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Atilio Aguilera
3 de março de 2026 11:19 amLogo no início do texto, há um equívoco: “vereador petista Marcelo Siciliano”. Esse senhor era vereador à época pelo PHS, partido ao qual estava filiado durante as investigações. Acredito que tenha havido uma confusão com o então deputado estadual pelo PT André Siciliano. Seria recomendável consultar as fontes e fazer a devida retificação.
Atenciosamente, Atilio
jucemir rodrigues da silva
4 de março de 2026 2:51 am“vereador Marcelo Siciliano (PT)”
Marcello Siciliano era filiado ao PHS, e, não, ao PT.