3 de junho de 2026

UM PUBLICITÁRIO NO DIVÃ

 MÁRIO PRATA. 

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Júlio estava beirando os cinqüenta. De uma geração contrária aos princípios freudianos, vinha sofrendo dos males do espírito. Mas agora estava demais. Era muita tensão, muita criação. Não dormia mais. Só pensava naquela cerveja que tinha que lançar. Sua vida estava se transformando num inferno. Pressão, tensão, angústia, melancolia, nervos à flor da pele. Irritado com a mulher e as filhas. Tava um chato. Foi um amigo mais chegado que o convenceu a ir a um psicanalista. Não dói, dizia. E você não vai ser obrigado a falar nada que não queira. Foram alguns meses buzinando na cabeça do Júlio. – Está bem. Vou uma vez. Mas se ele começar a falar na minha amamentação, na tesão pela minha mãe, que eu tinha que ter dado quando era moleque, eu me mando. – Imagina. Isso é uma visão antiga. Hoje em dia nem divã tem mais. Tinha divã. Mas ele se recusou. Sentou-se na cadeira na frente do sujeito. E começou a falar, a princípio desconfiado, mas depois foi se soltando. – É isso que você precisa. Relaxar. Esquecer um pouco o seu trabalho. Dedicar-se mais ao lazer, à família, viajar. Esquecer um pouco o trânsito, o medo da Aids, a concorrência, os contatos, ler as revistas e não, os anúncios das revistas. Relaxar, está me entendendo? Relaxar! Não se alterar com pouco, não ficar ansioso, não perder as estribeiras, para falar um português bem claro. – Mas como é que eu vou relaxar assim de uma hora para outra? Fico tenso e nervoso o dia inteiro. – Por exemplo, aqui mesmo nesse prédio, no messanino, tem um piano-bar lindo. A essa hora, sete da noite, deve estar vazio. Tem um velhinho simpático no piano, que conhece todas aquelas músicas do seu tempo. Desça lá quando sair daqui, senta no balcão, peça um Manhatan, que é a especialidade deles. Mas não tome de um só gole e vá embora, não. Tome devagar. Vá sentindo o gostinho do cárpano, do Jack Daniel, passe a língua pela cerejinha. Devagar, como se o mundo não fosse acabar nunca. Fique meia hora neste único drinque. Você vai aprendendo a se controlar. Não pense em mais nada. Apenas beba. Realmente o Monk estava vazio às sete e dez. Apenas um velhinho dos anos quarenta tocava algumas músicas de Glenn Miller no seu velho piano de calda. Um som bom, baixinho, realmente relaxante, pensou Júlio. Foi para o balcão. Nenhum cliente, um garçom atencioso. Pediu a bebida. A bebida chegou. Ele ameaçou tomar num gole, só mas se lembrou da recomendação. Apenas molhou os lábios na bebida. Gostou. Sentiu o cárpano. Afastou o copo e ficou admirando a cor do drinque. Balançou a taça, ameaçou tomar um gole maior, mas se segurou. Afastou o copo. Estava, que maravilha, relaxando. Foi quando ele viu o macaquinho. No canto do balcão a olhar desafiadoramente para ele. Não posso me abalar. Calma. Ele olhava o macaquinho. O macaquinho olhava para ele. Pegou a taça para um gole. O macaquinho veio andando, pelo balcão, na direção dele. Ele, calmo. Ao passar por cima da taça, o macaquinho abaixou e colocou o saco dentro do Manhatan do Julio. E seguiu o seu caminho parando na outra extremidade do balcão de jacarandá. Não posso perder a calma. Não tinha ninguém perto para ele conversar, contar o que o macaquiunho tinha feito com ele. Só o pianaista por perto. Foi até o velho pianista e, com a voz mais calma possível e pausada disse: – Um macaquinho colocou o saco dentro do meu copo. O velhinho interrompeu o Samba de Uma Nota Só, olhou para o Júlio, simpático: – Assovia o começo para ver se eu me lembro da melodia…

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Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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