23 de junho de 2026

Da Casa-Grande à Cidade-Senzala, por Oliveira & Santos Silva

Refletir sobre o solo é um passo para compreender que o racismo não se manifesta apenas nas relações sociais, mas se materializa no espaço
Reprodução - TRE-PR

O racismo estrutural no Brasil se manifesta na segregação urbana e na desigualdade no acesso à terra e moradia.
A cidade formal foi planejada para separar e controlar, mantendo a população negra em áreas precárias e periféricas.
Combater o racismo exige redesenhar o espaço urbano, redistribuindo a terra e garantindo justiça territorial.

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Da Casa-Grande à Cidade-Senzala

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O racismo que organiza o Brasil se revela no desenho racial das cidades

por André Augusto Araújo Oliveira e Karine Corrêa Santos Silva

O Brasil gosta de se contar como milagre de mistura. Diz que aqui todo mundo se encontra, que somos feitos de muitas cores abraçadas. Mas não é essa a verdade observada no território. O mapa das cidades é mais sincero que o discurso oficial. É nele que se apresenta quem mora no alto e quem mora no fundo, quem tem escritura e quem tem medo, quem tem varanda e quem tem vala. A moradia no Brasil tem cor e, longe de ser metáfora, é herança.

E neste 21 de março, data que marca o Dia Internacional pela Eliminação da Discriminação Racial, refletir sobre o solo brasileiro é o primeiro passo para compreender que o racismo não se manifesta apenas nas relações sociais, mas se materializa no espaço, na distribuição desigual da terra e na forma como as cidades são estruturadas.

A abolição libertou o corpo, mas fez questão de negar o chão. O povo negro deixou a senzala sem acesso à terra, sem teto e sem direito de permanecer. Seguiu caminhando até onde dava, até onde sobrava, até onde o poder rejeitava. Foi assim que cresceram as periferias, os morros, as palafitas, os becos e as vielas. Também foi desse modo que se constituiu um outro Brasil, tecido pela partilha, pelo mutirão e pela vizinhança que vira família. Aquilo que muitas vezes é descrito como improviso ou informalidade pode ser entendido como continuidade de formas históricas de organização da vida negra, nas quais o cuidado comunitário e a construção coletiva do espaço constituem modos de resistência e permanência.

Em nome da técnica, do planejamento e do progresso, a cidade formal foi erguida. Mas toda técnica carrega escolha. E toda escolha revela lado. Não por acaso, como bem afirma Joice Berth, o racismo tem sido um dos verdadeiros urbanistas das cidades brasileiras. Mais do que uma falha, é um modelo que, ao longo do tempo, organizou o espaço para separar, hierarquizar e controlar. 

O zoneamento dividiu, a avenida cortou e o muro protegeu uns e isolou outros. Nessa mesma lógica, a própria ideia de cidade se apoia em um passado marcado pela terra concentrada nas mãos de poucos, situação reforçada desde a Lei de Terras, que transformou o acesso a um pedaço de chão em privilégio e manteve a população negra afastada desse direito. A isso se somaram projetos eugenistas e políticas higienistas, que buscavam “ordenar” a população a partir de critérios raciais. Assim se definiu quem podia ficar e quem tinha que sair.

A cidade foi desenhada como quem ergue uma cerca: de um lado, a casa-grande modernizada; do outro, a senzala atualizada em loteamento irregular. Trata-se da permanência de um modelo histórico de segregação urbana pautado na raça, no qual certos corpos seguem sendo impelidos para espaços de precariedade, enquanto outros continuam protegidos e valorizados.

Morar longe não é apenas viver distante. É ter tempo roubado, carregar cansaço acumulado, encarar ônibus cheio antes do sol nascer e ver a chuva virar ameaça. É viver com a sensação de que a qualquer momento alguém pode dizer: “aqui você não pode ficar”. A falta de garantia sobre a permanência na moradia também funciona como controle. Esse controle aparece ainda em outras políticas, como a guerra às drogas, que atinge de forma desproporcional áreas negras e periféricas. Não se trata de enfrentamento de problemas estruturais, mas de reforçar a gestão da desigualdade por meio da repressão.

Chamam de crescimento desordenado aquilo que foi empurrado. Chamam de ocupação irregular aquilo que foi necessidade. Mas ninguém chama de irregular a concentração da terra. Ninguém chama de desordem o privilégio herdado. Há uma pedagogia silenciosa que ensina quem pode e quem não pode. O endereço vira filtro. O CEP vira sentença. A técnica vira justificativa. E assim a desigualdade se naturaliza como se fosse paisagem.

A ausência de saneamento, de políticas contínuas e de investimento duradouro faz da cidade negra a cidade das ausências. Mas ela é ao mesmo tempo presença de cultura, de espiritualidade, de invenção cotidiana. É onde persistem práticas de organização, solidariedade e produção de vida. O Brasil consome a música que nasce na periferia, dança o ritmo que brota no morro, mas hesita em garantir o chão firme para quem cria.

O território também ensina outra coisa. Ensina que a comunidade sabe planejar. Que o mutirão constrói, que o cuidado comunitário sustenta. Ensina que casa não é mercadoria apenas; é memória, é ancestralidade, é continuidade. É onde se guarda o que veio antes e se protege o que ainda vai nascer. Como argumenta Beatriz Nascimento, a experiência coletiva produzida pela população negra também é lugar de reinvenção da vida.

É justamente por isso que falar de moradia é falar de poder. Quem decide onde cada corpo pode estar? Quem define o valor da terra? Quem transforma direito em ativo financeiro? A cidade não é neutra. Ela é projeto. Enquanto a lógica da casa-grande continuar organizando o espaço, a democracia seguirá incompleta. Não basta reconhecer o problema; é preciso desobedecer a lógica que o produz, desfazer o desenho que separa e reaprender a construir com justiça.

A cidade que insiste em não se ver continuará repetindo sua história. E, a cada enchente, a cada deslizamento, a cada despejo, a cada muro erguido seremos lembrados de que não há futuro possível sobre o mesmo chão de desigualdade. Se a moradia tem cor, a transformação também terá, e ela começará quando o Brasil decidir olhar para o próprio mapa e reconhecer que o problema não está na margem, mas no centro que se recusa a compartilhar, e também no Estado que não confronta nem corrige os efeitos da injustiça fundiária.           

No fundo, a pergunta não é onde falta casa, infraestrutura e acesso. É onde sobra privilégio. O Brasil não enfrenta uma crise de habitação por incapacidade técnica, enfrenta por escolha histórica. Escolheu proteger a propriedade antes de proteger pessoas, valorizar o metro quadrado e desvalorizar o corpo negro que o habita. Escolheu chamar de “ordem” a desigualdade herdada. E se quisermos romper esse ciclo, será preciso desmontar a lógica colonial de planejamento das cidades.

A verdadeira reforma urbana não começa no concreto, mas na consciência, quando entendemos que a terra não pode valer mais que a vida e que as desigualdades territoriais não são desvios, mas expressão de uma ordenação urbana moldada pela exclusão racial.

O Brasil só será inteiro quando o mapa deixar de ser retrato de separação e se tornar espaço de partilha. Enquanto houver casa-grande blindada e cidade-senzala naturalizada, a modernidade será apenas fachada. O futuro, se vier, nascerá da coragem de redistribuir o chão, porque justiça territorial não é pauta identitária, é condição civilizatória. Reafirmar isso no 21 de março é reconhecer que combater o racismo exige também redesenhar o urbano.

André Augusto Araújo Oliveira é assistente Social, Mestre em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Social pela UCSAL e Doutorando em Arquitetura e Urbanismo pelo IAUUSP. Integra a Rede Negra de Planejamento Urbano e Regional e o Núcleo Salvador da Rede BrCidades.

Karine Corrêa é Arquiteta e Urbanista, doutoranda em Desenvolvimento Regional pela UFT. Compõe a Secretaria Nacional da Rede BrCidades, é coordenadora estadual do Coletivo Nacional de Juventude Negra e integra o Centro de Estudos sobre Sustentabilidade, Populações Tradicionais e educação na Amazônia (Cesp).

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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