4 de junho de 2026

primeiro aniversário de morte de Nicanor Parra e a venda de livros de poesia

ao anti-poeta /1914-2018

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se existisse uma receita para vender 200 livros de poesia
não sei também se a obedeceria
mas certamente essa receita existe, seus cálculos são precisos
e fisgam a forma exata dos bolsos possíveis de se encantar.

mas poesia, dizem, não vende nada
e mesmo quem vende não paga nem o colírio aos olhos.
além do mais, talvez nos deparemos sempre com os mesmos compradores.

mas quem sabe, agora que penso exaustivamente,
faturar a venda de 200 livros de poesia
é como escalar uma montanha que já subi mais de uma vez
e não vendi os 200 livros. mas a montanha continua a existir
como forma de praticar o corpo e a mente
que cedo ou tarde estarão bastante desgastados
sendo assim para todos, também aos que não almejam escalar montanhas
e vender 200 livros de poesia. mas sempre posicionamos o corpo
e a mente para alguma espécie de empenho cotidiano.

nos dias atuais, o problema tem sido justamente a falta de postura
dos respirantes humanos, nesta parte da terra
que não saem do lugar mais baixo e um pouco longe da montanha
ao tentarem dali, da baixeza suprema, criar
todos os artifícios possíveis para destruir a esta bela montanha
que se mostra, todos os dias, diante de nossos olhos:
a destruição virou tarefa escolar e subir montanhas
uma prática quase banal para algumas espécies de poetas.

ressalva: subir e descer montanhas, e voltar a subir, não garantirá
o cumprimento dos objetivos, sonhos ou vontades,
caso ainda pior se falamos de poetas.
aliás, ressalva II: alguns poetas, lá do alto da montanha projetam o corpo
e a mente tantas vezes para baixo, que, em algum momento,
conseguem atirar-se de vez.
e, como última consideração:
isso não é uma receita para vender 200 livros de poesia. a esperança permanece absolutamente forte pelo fato de existirem ainda muitíssimas montanhas.
pois será preciso destruir a todas essas para que não mais existam os poetas.
fim das ressalvas.

*

 – estimado Nicanor,
a venda de livros de poesia se parece ao ato de subir uma montanha.
quantas vezes, lá de cima, devemos gritar para que nos escutem?
diga você que já passou ao outro lado da natureza.

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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