O déficit comercial dos Estados Unidos voltou a crescer em março, refletindo um novo momento na política tarifária do país e os efeitos ainda instáveis da guerra comercial conduzida pelo governo de Donald Trump.
Dados divulgados pelo Departamento de Comércio mostram que o déficit em bens e serviços atingiu US$ 60,3 bilhões no mês — uma alta de 4,4% em relação a fevereiro.
O aumento foi resultado de um movimento duplo:
- Exportações cresceram 2%, alcançando um recorde de US$ 320,9 bilhões
- Importações subiram 2,3%, chegando a US$ 381,2 bilhões
Apesar do avanço das exportações — impulsionado principalmente por petróleo, soja e insumos industriais — o crescimento maior das importações ampliou o saldo negativo.
Um dos destaques foi o setor energético: os EUA registraram superávit recorde em petróleo, favorecido pela alta dos preços internacionais em meio à guerra envolvendo o Irã.
O dado de março é o primeiro retrato completo após uma decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos, que em fevereiro derrubou grande parte das tarifas globais impostas por Trump.
A Corte considerou que o presidente excedeu sua autoridade ao usar uma lei de emergência para aplicar tarifas elevadas a diversos países.
Com isso, o governo foi forçado a recuar e substituiu as medidas por uma tarifa uniforme de 10%, aplicada com base em outro dispositivo legal — a chamada “Seção 122”.
Tarifas ainda são incerteza
O problema é que essa solução é temporária. A tarifa de 10% expira em julho, a menos que o Congresso a renove. Enquanto isso, o governo já busca alternativas para manter sua política protecionista.
Entre as iniciativas em curso estão novas investigações com base na “Seção 301”, que permite tarifas contra práticas comerciais consideradas desleais.
Essas investigações miram dois pontos principais:
- países que não bloqueiam produtos feitos com trabalho forçado
- economias com “excesso de capacidade industrial”, que pressionariam o mercado global
Déficit segue elevado no cenário estrutural
Apesar das oscilações recentes, o quadro estrutural permanece: o déficit comercial dos EUA atingiu nível recorde em 2024; o país segue dependente de importações de alto valor, como chips e medicamentos; e as empresas continuam antecipando compras externas para evitar tarifas futuras
Além disso, mudanças nas cadeias globais — com empresas saindo da China — não eliminaram o desequilíbrio, apenas redistribuíram fornecedores.
O tema comercial deve ganhar ainda mais peso nos próximos dias. Trump tem uma viagem programada para a China, onde vai se encontrar com o presidente Xi Jinping, em uma agenda que deve colocar o comércio no centro das negociações.
O encontro ocorre em meio à queda das importações americanas de produtos chineses e à tentativa dos EUA de redesenhar suas cadeias de suprimento.
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