Jornalismo é luz na escuridão
por Arnaldo Cardoso
Com a liberdade de imprensa em seu nível mais baixo no mundo em 25 anos, como mostrou o Ranking Mundial de Liberdade de Imprensa de 2026 (levantamento realizado desde 2002 pela ong Repórteres Sem Fronteiras – RSF) refletindo o contexto de expansão e aprofundamento do autoritarismo e de guerras no mundo, o anúncio na última terça-feira dos vencedores do Prêmio Pulitzer em categorias do jornalismo como Serviço Público, Jornalismo investigativo e Reportagem de rua, renova a convicção na potencialidade do jornalismo como instrumento para a defesa da democracia, das liberdades individuais e apto ao combate às formas de autoritarismo que, atualmente apoiadas por tecnologias convertidas em ferramentas de desinformação e disseminação do ódio são usadas como estratégia política.
Vencedores do Pulitzer 2026, em categorias do jornalismo em destaque
O site do Prêmio Pulitzer, administrado pela Universidade de Columbia, em Nova York, sobre os vencedores nas categorias aqi destacadas, assim publicou:
Categoria: Serviço Público – Vencedor: The Washington Post
Por desvendar o véu de sigilo em torno da caótica reforma das agências federais promovida pelo governo Trump e por relatar em detalhes os impactos humanos dos cortes e as consequências para o país.
Categoria: Jornalismo investigativo – Vencedor: equipe do The New York Times
Para reportagens aprofundadas que expuseram como o presidente Trump ignorou as restrições aos conflitos de interesse e explorou as oportunidades de enriquecimento que acompanham o poder, enriquecendo sua família e seus aliados.
Categoria: Reportagem de rua – Vencedores: Jeff Horwitz e Engen Tham, da Reuters
Pela reportagem inovadora e reveladora sobre a Meta (proprietária do Facebook, Instagram e Whatsapp, entre outras), que detalhou a disposição da empresa de tecnologia em expor usuários, incluindo crianças, a golpes e manipulação por inteligência artificial.
Acerca da queda dos Estados Unidos e outros países no Índice Mundial de Liberdade de Imprensa em 2026
Com três em cada quatro países de um total de 180, sendo considerados “problemáticos” no Índice Mundial de Liberdade de Imprensa 2026, é salutar a melhora do Brasil que ocupa em 2026 a 52ª posição, tendo subido 11 pontos, enquanto os Estados Unidos ocupam a 64ª posição, registrando queda de 7 pontos.
Entre os sul-americanos merece atençao a posição da Argentina sob o governo de Javier Milei, que ocupa a 98ª posição, tendo caído 11 pontos.
Na Europa, a Hungria ainda sob o governo de Viktor Orbán, ocupa a 74ª posição, tendo caído 6 pontos. (A significativa derrota de Orbán no recente pleito eleitoral traz esperanças sobre a melhora da liberdade de imprensa, dentre outras naquele país).
A Rússia de Putin ocupa a 172ª posição, com quedas agravadas no contexto da guerra na Ucrânia. Também em contexto de guerra (contra a Palestina, Líbano e Irã), Israel registrou uma nova queda de 4 pontos, ficando em 116ª posição. Entre 2023 e 2026 registou-se o estarrecedor número de mais de 220 jornalistas mortos na Faixa de Gaza por forças israelenses.
Traços comuns da realidade vivida nos referidos países que apresentaram queda no ranking emfoco, são: ataques sistemáticos à liberdade de imprensa empreendidos por autoridades de governo e apoiadores militantes; interferências e intervenções políticas em jornais e outros meios de comunicação; perseguição, intimidação e ameaças à vida de jornalistas e enfraquecimento de dispositivos legais para regulação e mediação de meios de comunicação, destacadamente empresas de internet (big techs), entre outros.
O ranking produzido pela RSF alerta sobre a perda de “capacidade dos jornalistas trabalharem em segurança e de forma independente”.
A RSF define a liberdade de imprensa como “a capacidade dos jornalistas, a título individual e coletivo, de selecionar, produzir e divulgar notícias de interesse público, independentemente de interferências políticas, económicas, legais e sociais e na ausência de ameaças à sua segurança física e mental.”
O Prêmio Pulitzer cuja primeira premiação ocorreu em 1917 é considerado um dos mais importantes do gênero, alcançando hoje as áreas do jornalismo, literatura, teatro e música. No entanto, é justo observar que não raro o Pulitzer enfrenta questionamentos sobre imparcialidade política, sendo percebido como crítico sistemático do governo Trump e mais próximo dos valores defendidos pelos liberais em oposição aos conservadores. Também é criticado por elitismo cultural e falta de diversidade em seu conselho, bem como por uma atenção ainda muito concentrada na produção de grandes conglomerados de mídia, em desvantagem a veículos menores ou independentes.
A edição de 2026 homenageou a jornalista Julie K. Brown, do Miami Herald, responsável por reportagens que expuseram os abusos sistemáticos de jovens mulheres pelo financista Jeffrey Epstein, com quem Donald Trump e outros poderosos de todo o mundo mantiveram relações muito próximas, ainda investigadas.
Na premiação ao The Washington Post o destaque foi para a jornalista Hannah Natanson ameaçada e levada ao tribunal plo governo Trump, tendo a casa invadida de madrugada pelo FBI, apreensão de seu celular e computador. Seu crime foi investigar ações do governo Trump, especialmente do poderoso departamento (DOGE) então comandado por Elon Musk, que empreendeu um desmonte de órgãos públicos e programas sociais, resultando em expulsão e demissões em massa de funcionários públicos, fazendo do setor público um laboratório de esdrúxulas ideologias de extrema direita.
Assim, faz-se imperioso reconhecer e defender que, nessa sombria fase vivida por sociedades em todo o mundo, uma imprensa séria, responsável e comprometida com valores de liberdade, justiça e dignidade da pessoa humana é essencial para que o mundo livre não mergulhe nas trevas da ignorância, da insensibilidade e do egoísmo que impedem reconhecer no outro um igual humano e no mundo um lugar que pode ser melhorado.
Arnaldo F. Cardoso, cientista político (PUC-SP), escritor e professor universitário.
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