A “Grande Israel”, a sionização de cristãos e o eixo de resistência iraniano
por Francisco Fernandes Ladeira
A compreensão contemporânea dos conflitos no Oriente Médio exige desconstruir narrativas puramente religiosas ou locais, avançando para uma análise que identifique o papel de Israel como uma peça central na manutenção da hegemonia global anglo-estadunidense. Conforme defende o presidente da Federação Árabe Palestina do Brasil (FEPAL), Ualid Rabah, o conceito de “Grande Israel” deve ser interpretado como um verdadeiro “nome fantasia” para o estabelecimento do espaço vital do Ocidente na região.
Nesta lógica, Israel não atua meramente como um Estado-nação soberano em busca de segurança, mas como uma unidade militar avançada – um porta-aviões terrestre – estrategicamente posicionado para garantir que o Reino Unido, inicialmente, e os Estados Unidos, posteriormente, mantenham o controle sobre rotas comerciais, reservas energéticas e o bloqueio à integração de potências rivais.
Um ponto nevrálgico dessa estratégia, conforme aponta Ualid Rabah, é o projeto de “sionização de cristãos”. Trata-se de uma engenharia demográfica e ideológica planejada para converter e doutrinar populações ao redor do mundo, visando fazer com que estas passem a se identificar com as pautas sionistas. A finalidade desse projeto é criar uma reserva demográfica potencial que, no futuro, possa ser utilizada para substituir populações locais nos territórios pretendidos pela “Grande Israel” – que abrange uma extensa área entre os rios Nilo e Eufrates.
Sob essa lógica, esse contingente de novos “sionistas cristãos” serviria para conferir uma aparência de legitimidade à ocupação, preenchendo o vácuo populacional gerado pela expulsão dos nativos. Esse mecanismo é projetado como uma ferramenta para sustentar o expansionismo a longo prazo, buscando garantir que eventuais territórios conquistados sejam ocupados por populações ideologicamente alinhadas aos interesses do Ocidente.
Esta arquitetura geopolítica atualmente encontra no Irã o seu maior desafio histórico. É fundamental recordar que, até a Revolução de 1979, o Irã governado pelo Xá era o pilar de sustentação dos interesses ocidentais no Oriente Médio, funcionando como o principal aliado militar e estratégico dos Estados Unidos na região. Sendo assim, a queda desse regime e a ascensão da Revolução Iraniana não representaram apenas uma mudança interna, mas a perda do principal aliado estratégico do imperialismo, transformando o país persa de sentinela do Ocidente no principal foco de resistência contra o expansionismo sionista e a hegemonia de Washington.
Essa ruptura forçou uma reorientação da política externa estadunidense, consolidada pela Doutrina Carter em 1980, que estabeleceu o uso da força militar como resposta a qualquer ameaça aos interesses estadunidenses no Golfo Pérsico, visando conter a influência iraniana e garantir o fluxo petrolífero. Data desse período também a aproximação com o Egito por meio dos Acordos de Camp David, que efetivamente retiraram a maior força militar do mundo árabe da frente de resistência ativa. Os Estados Unidos já haviam perdido o Irã e não poderiam permitir que o Egito permanecesse como entrave aos seus interesses.
Já na virada do século XXI, a invasão do Iraque em 2003 e a posterior instrumentalização da Primavera Árabe como uma ferramenta de guerra híbrida serviram ao propósito de desestabilizar Estados que podem oferecer contrapeso ao projeto de expansão territorial israelense.
Nesse cenário, o reconhecimento de assentamentos sionistas ilegais na Cisjordânia e a atual situação na Faixa de Gaza são analisados sob a ótica de Ualid Rabah como parte de um laboratório para processos de limpeza étnica. Gaza torna-se, assim, o campo de teste para táticas de deslocamento populacional sistemático que poderão ser aplicadas em outros territórios destinados à “Grande Israel”.
Portanto, o confronto atual não é apenas regional, mas uma disputa global onde o Irã lidera a resistência contra a consolidação de um espaço vital ocidental que busca redesenhar as fronteiras do Oriente Médio à revelia de sua própria população.
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Francisco Fernandes Ladeira é pesquisador de pós-doutorado do IFMG – campus Ouro Preto. Doutor em Geografia pela Unicamp. Autor do livro “Palestina na geopolítica global Pós-2023: Narrativas e Contranarrativas” (Editora CRV)
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JOSE OLIVEIRA DE ARAUJO
21 de maio de 2026 7:32 amAlgumas pessoas consideradas progressistas são contrários as atrocidades dos nazi sionistas, mas defendem a existência do estado de Israel. O que precisa ser conservado é o povo judeu e não o estado sionista.