25 de junho de 2026

Audiovisual brasileiro e a soberania industrial, por Helder Quiroga

O setor audiovisual é um ativo de Soft Power - uma fonte de influência cultural, diplomática e de imagem positiva dos países no mundo.
Créditos: Shulers Shutterstock

Audiovisual brasileiro gera 600 mil empregos e movimenta R$ 70 bi no PIB, superando indústria farmacêutica e automobilística.
Setor carece de política de Estado, enfrenta pirataria, falta de investimentos e ausência de indústria nacional de equipamentos.
FICA e governo buscam estratégias para fortalecer o setor, incluindo cooperação internacional e uso dos FUNCINES para fomento.

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Audiovisual brasileiro e a soberania industrial

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por Helder Quiroga

O Audiovisual Brasileiro é uma potência nacional e um dos maiores mercados consumidores deste segmento no mundo, mas padece de uma política estruturante que dê conta dos desafios que o setor enfrenta, com ausência de uma regulação justa do Vídeo por Demanda, a imperativa presença da IA (Inteligência Artificial) nos novos modelos de produção cinematográfica, e a falta de investimentos estratégicos que possibilitem ao cinema brasileiro ser um vetor econômico para o país, capaz de gerar emprego e renda e combater as desigualdades sociais que ainda persistem em nosso território.

No entanto, por dois anos consecutivos, com presença histórica no Oscar, principal premiação do cinema mundial, em uma delas ganhador de melhor filme estrangeiro com “Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles, o audiovisual brasileiro continua a surpreender pela resiliência em se manter na posição como um dos países mais promissores neste segmento.

Os números revelam que, além de ser um importante símbolo nacional, segundo dados da Oxford Economics para a Motion Picture Association (MPA), o Audiovisual Brasileiro também tem se tornado um importante polo de desenvolvimento econômico para o Brasil, gerando algo em torno de 600 mil empregos e fazendo girar cifras da ordem de 70 bilhões de reais no PIB da economia brasileira, superando a indústria farmacêutica e também a indústria automobilística, dois ativos econômicos relevantes para o desenvolvimento no país.[1]

Porém, o nosso Audiovisual Brasileiro não tem até o momento o apoio político necessário, capaz de torna-lo uma politica de Estado, deixando de ser apenas uma política de governo. A ausência de uma plataforma industrial que induza o crescimento do setor em médio e longo prazo, faz com que nosso cinema, nossos jogos eletrônicos, nossa radiodifusão, se mantenha como uma promessa e não como uma realidade.

Compreender e falar do audiovisual na lógica da política industrial, impõe como tarefa a construção de um sistema estratégico de apoio permanente para o setor, mirando nas novas gerações de cineastas, técnicos e produtores, e gerando um ecossistema atrativo para investimentos em infraestrutura, combate à pirataria, formação, inovação e gestão, tanto pública, quanto privada.

Este é um segmento, como muitos dizem, de calda longa, ou seja, a trajetória de um filme vai muito além da relação entre espectador e consumo, ela proporciona o que poucas áreas profissionais conseguem materializar: ideia, conceito, produção, distribuição, exibição e exportação de produtos, conteúdos e experiências.

Na era do conhecimento tecnológico, o audiovisual é uma ferramenta indispensável para a educação, para a ciência e a tecnologia, para transmissão de informações, e para consolidação da imagem de uma nação. É um segmento que alia tecnologia e cultura, comunicação e identidade, emprego e soberania, podendo ainda se tornar um grande aliado do governo e da sociedade brasileira no combate às desigualdades sociais, na luta contra o racismo e a desigualdade de gênero, através de ações que levem cinema e promovam a criação audiovisual nas escolas, universidades, nas comunidades de periferia, na zona rural e também junto aos povos originários.

Nos últimos tempos, com o crescimento expressivo da demanda de mercado e também da necessidade de evolução dos patamares de produção de conteúdos, o debate sobre regulação das plataformas e das big techs tem gerado divergências sobre como conduzir de maneira altiva este importante segmento da economia nacional. A necessidade de uma reformulação das estruturas de financiamento e fomento à atividade cinematográfica, e também de exportação do nosso audiovisual, surgem como obstáculos a serem superados para dar conta do volume e da envergadura do Audiovisual Nacional, incluindo neste campo a animação, os jogos eletrônicos e a radiodifusão brasileira estendida às plataformas de streaming e empresas de tecnologias associadas a esta atividade.

O mundo está passando por grandes mudanças em seu sistema geopolítico, e para além das terras raras, do petróleo, dos mananciais hídricos e da geração de energia, o setor audiovisual é um instrumento estratégico para a formação de opinião e consolidação de uma democracia real e soberana. Digo soberana, pois se trata da forma como queremos ser vistos no país e no mundo afora. Trata-se da construção de identidade, dos valores e princípios de uma nação e da defesa de uma cidadania cada vez mais plena e fortalecida.

Em uma nação preocupada com sua autonomia tecnológica e industrial, a dependência produtiva é um problema grave. No audiovisual não é diferente. Para se ter uma ideia dos gargalos que impossibilitam que este segmento se desenvolva, não são produzidas no Brasil câmeras de cinema, equipamentos de captação sonora, projetores, equipamentos de iluminação para filmagem e lentes cinematográficas. Até pouco tempo atrás ainda importávamos poltronas de salas de cinema. No país da música, não temos no Brasil um estúdio especializado em gravação de trilhas sonoras com orquestra para cinema e televisão, dependendo de mercados como o México, Hungria e EUA para produzir conteúdos com maior nível de qualidade técnica e gerar competitividade para o nosso mercado.

Outro grande desafio para o crescimento do Audiovisual Brasileiro está no seu ambiente fiscalizatório; somente a pirataria e o compartilhamento ilegal de conteúdos têm causado um prejuízo anual estimado de R$ 15 bilhões, com 34% dos internautas brasileiros acessando conteúdos ilegais segundo dados da ANCINE e da ANATEL em reportagem transmitida pela TV Record. [2]

Pirataria, falta de investimento de longo prazo, ausência de uma política transversal e precariedade do ambiente regulatório têm provocado um efeito negativo para essa importante atividade econômica nacional, impossibilitando um crescimento efetivo e duradouro do nosso sistema audiovisual como um todo.

Algumas iniciativas têm pontuado o debate sobre a importância de uma Politica de Estado para o Cinema Brasileiro, encabeçado pela recém-criada Federação da Indústria e Comércio do Audiovisual Brasileiro.  A FICA tem atuado na construção de uma agenda estratégica para o setor, junto ao Ministério da Indústria e Comércio Exterior (MDIC), incluindo pela 1ª vez na história o Audiovisual dentro do Programa da Nova Indústria Brasil, principal mecanismo de apoio governamental ao desenvolvimento industrial brasileiro.

Durante os últimos dois anos, a Federação da Indústria e Comércio do Audiovisual Brasileiro (FICA), entidade que busca unir os principais segmentos da indústria do audiovisual no país, tem se debruçado em desenvolver estratégias que possibilitem ao setor criar um ambiente competitivo tanto em nível de aprimoramento das politicas públicas, como em fomentar um ecossistema tecnológico e competitivo para os segmentos que englobam o mercado do audiovisual em sua totalidade.

Ao todo, foram estabelecidos eixos estratégicos para a consolidação de uma Política de Estado inserida no GT (Grupo de Trabalho) Desafios de Adensamento das Cadeias da Nova Indústria Brasil (NIB) com a síntese das necessidades emergenciais para o aprimoramento e desenvolvimento do Audiovisual Brasileiro.

O documento construído junto ao MDIC aponta soluções que vão desde a criação de núcleos de desenvolvimento tecnológico em parceria com o Ministério de Ciência e Tecnologia do Governo Federal para atrair o setor industrial brasileiro como importante parceiro do Audiovisual Nacional, até a utilização dos FUNCINES (Fundos de Financiamento da Indústria Cinematográfica Nacional) recém estruturados pela ANCINE,  como instrumentos de fortalecimento das relações negociais, incluídos na estrutura de fomento.[3]

Recentemente, dois representantes da FICA participaram pela 1ª vez de uma missão oficial do Governo Brasileiro à Índia e à Coreia do Sul, acompanhando o Presidente Lula, juntamente com comitivas de empresários, buscando abrir novos mercados para o Cinema Brasileiro e apresentando iniciativas de atração de investimentos, propostas de acordos de cooperação bilaterais e de desenvolvimento tecnológico entre os países. [4]

Além de sua contribuição para a economia formal, o setor audiovisual é um ativo de Soft Power — ou seja, uma fonte de influência cultural, diplomática e de imagem positiva dos países no mundo. A presença de produções brasileiras em grandes festivais internacionais, a circulação de conteúdo em plataformas globais e o impacto cultural de séries e filmes no exterior contribuem para ampliar o reconhecimento do Brasil além de fortalecer sua presença no cenário global. Esse efeito é especialmente notável quando tem emergido um superávit comercial de serviços audiovisuais, com exportações crescendo mais de 19 % ao ano e adicionando bilhões à economia brasileira, ao mesmo tempo em que impulsionam setores como turismo e cultura.

Com tudo isso, podemos dizer que o Audiovisual Brasileiro é um caminho sem volta, pois além de ser um importante vetor de desenvolvimento econômico da indústria, contribui para a economia do país, criando empregos, gerando renda, divisas externas e estimulando setores conexos, como turismo, moda e gastronomia, demonstrando como pode ser um importante elemento de desenvolvimento tecnológico de inovação.

Nesse sentido, o audiovisual, para além de uma política cultural, deve ser entendido como parte da estratégia nacional de desenvolvimento econômico e inclusão social, promovendo o Brasil internamente e posicionando nosso país de maneira soberana como uma potência cultural digna de respeito e admiração no Mundo inteiro.

Em resumo: “Ainda Estamos Aqui!”

Helder Quiroga – Mestre em Comunicação Social na linha de Pesquisa em Imagem e Som da Universidade de Brasília; Pós-Graduação em Cinema pelo Instituto de Educação Continuada da Universidade Católica de Minas Gerais (IEC-PUC MG); Graduação em Comunicação Social da Universidade Católica de Minas Gerais (PUC MG). Como Profissional do mercado é Diretor de Cinema, Produtor, Consultor em mercados audiovisuais, Coordenador de Audiovisual da ONG Contato, Membro do GT de Audiovisual do Programa da Nova Indústria do Ministério de Indústria e Comércio Exterior (MDIC), Câmara da Comunicação e Audiovisual da FIEMG, Membro das Câmaras Técnicas de Produção, Distribuição e Exibição da ANCINE (Agência Nacional de Cinema) e Ganhador do Grande Prêmio do Cinema Brasileiro de 2016 com o filme “Égun – Os Mistérios do Mar”.


[1] https://www.oxfordeconomics.com/resource/the-economic-contribution-of-brazils-audiovisual-industry-in-2024/

[2] https://www.youtube.com/watch?v=DR2P36MggAE

[3] https://www.gov.br/ancine/pt-br/assuntos/noticias/ancine-aprova-nova-regulamentacao-dos-funcines

[4] https://www.poder360.com.br/poder-cultura/lula-quer-parceira-entre-cinema-brasileiro-e-sul-coreano/

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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