Esta matéria foi publicada originalmente em 29/07/2025
O PIX desenvolvido no Brasil não é apenas um sistema de pagamento gratuito e rápido, como também desafia a espinha dorsal do poder financeiro dos Estados Unidos ao colocar luz na face oculta da disputa geopolítica, que consiste em uma batalha pelo domínio da informação financeira.
A avaliação é do ex-ministro e economista equatoriano Andrés David Arauz Galarza, durante debate na Segunda Mesa Redonda China–Estados Latino-Americanos e Caribenhos sobre Direitos Humanos, realizada em São Paulo, no dia 25 de julho. O GGN esteve presente a convite da organização do evento.
Sua análise toma por base a decisão recente do presidente norte-americano Donald Trump em impor tarifas de 50% aos produtos importados do Brasil a partir de 1º de agosto, e um dos argumentos para tal medida é uma suposta ameaça da nova política de pagamentos brasileira aos interesses norte-americanos por meio do PIX.
“O Pix, sistema que permite transferências bancárias instantâneas sem intermediação de bandeiras internacionais, é uma ameaça à hegemonia financeira por três razões”, disse.
PIX: Economia, referência e controle dos dados
A primeira, econômica, porque reduz o lucro do sistema de cartões de crédito, “um interesse capitalista que agora está sendo perdido”.
A segunda, política, porque o Pix virou referência para o Sul Global. “Se o Brasil está fazendo Pix, então podemos ter Pix Peru, Pix Colômbia, Pix México, depois Pix Moçambique e Pix Angola”.
Contudo, o economista afirma que a razão mais estratégica é o controle dos dados. “(Esses dados) não vão mais para redes financeiras e geopolíticas; e podem se tornar uma ferramenta de soberania, de desenvolvimento e de programas domésticos de inteligência artificial, voltados para os interesses do seu próprio povo e para um desenvolvimento soberano”.
Vigilância financeira como arma geopolítica
Arauz lembrou que, por natureza, os sistemas de pagamento digitais são hierárquicos e precisam de um intermediário que tenha o poder de bloquear transações, acessar dados e monitorar contas.
Essa lógica se consolidou com a aliança entre as Big Techs e bandeiras de cartão de crédito, respaldada por legislações como o Patriot Act, que dá ao governo dos EUA acesso irrestrito a transações feitas com Visa ou Mastercard.

“Hoje, a inteligência artificial consegue mapear transações que, até pouco tempo atrás, eram vistas como anônimas”, lembrou Arauz, citando o caso do Freedom Convoy no Canadá, quando doações em cripto feitas a caminhoneiros foram rastreadas e vinculadas a seus remetentes.
“O mito do anonimato financeiro na era digital não se sustenta frente aos novos mecanismos de vigilância”, ressaltou.
Na visão do ex-ministro equatoriano, a arquitetura global se converteu em ferramenta de pressão política – “as sanções contra Cuba e Venezuela são exemplos de como a vigilância financeira se transformou em arma geopolítica”.
Pix e direitos humanos
Segundo o economista, a adoção de alternativas como o sistema interbancário chinês, moedas digitais de bancos centrais e ferramentas nacionais como o Pix precisam vir acompanhadas de uma agenda de direitos humanos.
“Temos que levar essa mentalidade para as organizações internacionais de padronização, como a ISO, para que engenheiros projetem novos sistemas com base na proteção dos direitos fundamentais. A reação dos EUA contra o Pix mostra que a disputa não é só tecnológica, mas também política e social. O que está em jogo é quem controla as informações financeiras de milhões de pessoas e como esses dados podem ser usados — ou para reforçar uma hegemonia global, ou para impulsionar o desenvolvimento interno com respeito aos direitos humanos”.
Outros destaques do debate: Mídia, IA e mercado de trabalho
O encontro também discutiu como a transformação digital impacta direitos humanos em outras frentes como, por exemplo, o efeito das mídias sociais sobre os grupos mais vulneráveis.
“(As redes sociais) Usam algoritmos para mostrar o que querem que a gente veja – como raiva, medo, coisas que viralizam rapidamente. (As plataformas) Protegem os abusadores em vez das vítimas”, explica a pesquisadora chinesa Guo Min.
Para Min, o desafio é equilibrar o uso dessas plataformas, garantindo que continuem abertas para o engajamento comunitário sem se tornarem armas contra a própria democracia.

“Hoje, (as redes sociais) dão voz a quem antes não tinha espaço, expondo injustiças e ajudando a organizar movimentos, como vimos com o Black Lives Matter ou com campanhas feministas. Mas também podem propagar desinformação, ódio e violência”.
Inteligência artificial no mercado de trabalho
Outro ponto debatido foi o impacto da automação e da inteligência artificial no mercado de trabalho. De acordo com o professor argentino Martín Unzué, mesmo com a Declaração Universal dos Direitos Humanos garanta emprego, salário justo e padrão de vida digno, a exclusão social cresce inclusive no chamado Norte Global.
“A pobreza extrema tem atingido países desenvolvidos. A própria classe média tem enfrentado dificuldades de acesso à moradia e serviços essenciais”, afirmou.
Martín Unzué relembrou que economistas como Thomas Piketty já alertavam sobre o aumento da desigualdade e a hiperconcentração de renda, impulsionada por políticas regressivas e pela queda do papel do chamado Terceiro Setor. O avanço tecnológico, portanto, exige respostas estruturais.
“Precisamos pensar em novas formas de distribuição de renda, incluindo uma renda básica universal, para garantir direitos humanos em uma era de baixo emprego”, disse.
O Jornal GGN esteve presente a convite da organização do evento, realizado pela Sociedade Chinesa de Estudos de Direitos Humanos, Universidade Renmin da China e Universidade Estadual Paulista.
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