6 de junho de 2026

Do ECOSOC ao Conselhão: a importância de voltar a planejar o futuro, por Maria Luiza Falcão

O desenvolvimento não nasce apenas das forças de mercado nem das decisões governamentais: exige diálogo, coordenação e visão de longo prazo.
Selo Ecosoc - Arte Eduardo Kobra

Brasil é eleito para o ECOSOC da ONU com 181 votos, mandato de 2027 a 2029, destacando importância do diálogo social.
Conselhão, criado em 2003, foi extinto em 2019 e recriado em 2023 para retomar o planejamento e diálogo social no Brasil.
Experiências europeias e asiáticas mostram que planejamento estratégico e diálogo social são essenciais para desenvolvimento sustentável.

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Do ECOSOC ao Conselhão: a importância de voltar a planejar o futuro

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por Maria Luiza Falcão Silva

O Brasil acaba de ser eleito para integrar o Conselho Econômico e Social das Nações Unidas (ECOSOC). A nação conquistou 181 votos e garantiu um mandato de três anos que será exercido no período de 2027 a 2029.

A eleição do Brasil para o ECOSOC passou quase despercebida pelo debate público nacional. No entanto, trata-se de uma notícia que merece atenção. Mais do que um assento em um organismo internacional, ela oferece uma oportunidade para refletirmos sobre um tema cada vez mais ausente das discussões políticas brasileiras: a necessidade de espaços permanentes de diálogo, planejamento e construção de consensos para o desenvolvimento.

O ECOSOC é um dos órgãos principais da Organização das Nações Unidas. Criado em 1945, ao final da Segunda Guerra Mundial, nasceu da percepção de que a paz não poderia ser construída apenas por meio da diplomacia ou da segurança militar. Seria necessário enfrentar também as causas econômicas e sociais dos conflitos: pobreza, desigualdade, desemprego, exclusão e falta de oportunidades.

Ao longo de décadas, o Conselho tornou-se um fórum de articulação entre governos, organismos internacionais, universidades, entidades empresariais, sindicatos e organizações da sociedade civil. Embora não possua o poder decisório do Conselho de Segurança, sua existência simboliza uma ideia fundamental: problemas complexos exigem diálogo institucionalizado e participação ampla.

Essa reflexão nos leva inevitavelmente ao caso brasileiro.

A experiência brasileira do Conselhão

Em 2003, logo no início de seu primeiro mandato, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva criou o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES), conhecido popularmente como Conselhão. A iniciativa representava uma inovação importante na experiência democrática brasileira.

O país saía de décadas marcadas por hiperinflação, crises cambiais, instabilidade econômica e forte fragmentação social. Havia a percepção de que seria necessário construir uma agenda nacional capaz de reunir diferentes setores da sociedade em torno de objetivos comuns.

O Conselhão reuniu empresários, trabalhadores, intelectuais, movimentos sociais, representantes do setor produtivo, pesquisadores e lideranças da sociedade civil. Não se tratava de eliminar divergências, mas de criar um espaço onde elas pudessem ser debatidas de forma institucional e produtiva.

Nos primeiros anos, o Conselho desempenhou papel relevante. Diversas propostas discutidas naquele ambiente contribuíram para formulações ligadas à política industrial, à inclusão social, à ampliação do crédito, ao fortalecimento do mercado interno e à construção de estratégias de desenvolvimento de longo prazo.

O próprio ambiente econômico da época favorecia esse tipo de iniciativa. O Brasil crescia, reduzia desigualdades e ampliava sua presença internacional. Havia confiança na capacidade do Estado de coordenar políticas públicas e promover transformações estruturais.

Com o passar dos anos, entretanto, o Conselho perdeu protagonismo.

Durante os governos Dilma Rousseff, embora mantido formalmente, o CDES deixou de ocupar posição central na formulação das políticas públicas. A crise econômica, a crescente polarização política e as disputas institucionais reduziram sua influência.

A ruptura mais profunda ocorreria, porém, nos anos seguintes. Em 2019, já nos primeiros meses do governo Jair Bolsonaro, o Conselhão foi extinto juntamente com centenas de outros colegiados federais responsáveis pela participação da sociedade civil na formulação e acompanhamento de políticas públicas. A medida não representava apenas uma reorganização administrativa. Ela expressava uma concepção de governo que via com desconfiança os mecanismos de diálogo social construídos pela Constituição de 1988 e aprofundados ao longo da redemocratização.

Foi um enorme retrocesso. O bolsonarismo desenvolveu uma relação particularmente hostil com instituições participativas. Conselhos, fóruns, conferências nacionais e espaços de concertação passaram a ser frequentemente retratados como obstáculos à autoridade do governo ou como instrumentos supostamente capturados por adversários políticos. Em lugar da negociação e da construção de consensos, privilegiou-se uma lógica de confronto permanente, mobilização ideológica e centralização das decisões.

Foi um período com tendências de erosão democrática, enfraquecimento dos mecanismos de participação social e crescente concentração do poder decisório no núcleo governamental. O esvaziamento dos canais de diálogo entre Estado e sociedade não foi um fenômeno secundário. Fez parte de um projeto político autoritário que valorizava relações diretas entre governantes e suas bases de apoio, frequentemente em detrimento das instituições intermediárias características das democracias pluralistas.

A extinção do Conselhão tornou-se, assim, um símbolo de algo maior: a rejeição da ideia de que o desenvolvimento nacional deve ser construído por meio do diálogo entre diferentes setores da sociedade.

A recriação do Conselhão pelo governo Lula em 2023 representou, portanto, mais do que uma simples recuperação institucional. Foi uma tentativa de recuperar uma tradição de diálogo que havia sido interrompida.

Mas a verdade é que o Brasil de hoje é muito diferente daquele de 2003.

A sociedade tornou-se mais polarizada. As redes sociais fragmentaram os espaços de debate. A velocidade dos acontecimentos dificulta a construção de consensos duradouros. Além disso, desafios como a transição energética, a revolução da inteligência artificial, as mudanças climáticas e a reorganização da economia mundial exigem níveis de coordenação muito superiores aos do passado.

Talvez por isso a questão central não seja apenas recriar o Conselhão, mas fortalecê-lo.

A tradição europeia da concertação social

A experiência brasileira também não surgiu em um vácuo institucional. Diversos países europeus construíram, ao longo do século XX, mecanismos permanentes de diálogo entre Estado, empresários, trabalhadores e sociedade civil. A própria reconstrução da Europa após a Segunda Guerra Mundial foi acompanhada pela criação de instituições voltadas à concertação econômica e social, buscando reduzir conflitos e construir consensos em torno do desenvolvimento.

Na França, “o sistema de planejamento indicativo” criado após a Segunda Guerra Mundial tornou-se uma das experiências mais influentes de coordenação entre Estado, empresários e trabalhadores, contribuindo para a reconstrução econômica e para os chamados “Trinta Gloriosos”, período de forte crescimento e modernização do país. Na Itália, o Conselho Nacional da Economia e do Trabalho (CNEL), criado pela Constituição de 1948, tornou-se uma das referências mais conhecidas de participação organizada da sociedade na formulação de políticas públicas. Espanha, Portugal, Bélgica e outros países também desenvolveram conselhos econômicos e sociais que ajudaram a institucionalizar o diálogo entre os diferentes interesses presentes na sociedade.

No plano supranacional, a própria integração europeia incorporou mecanismos de consulta e coordenação econômica e social. A percepção era simples: o desenvolvimento sustentável de uma sociedade complexa exige instituições capazes de produzir diálogo permanente entre atores frequentemente portadores de interesses divergentes.

Essas experiências nasceram da compreensão de que a democracia não se resume ao voto periódico. Governar sociedades complexas exige mecanismos permanentes de consulta, negociação e construção de consensos. Durante boa parte do período de expansão econômica do pós-guerra, esses conselhos contribuíram para articular crescimento econômico, ampliação dos direitos sociais e estabilidade política.

Embora muitos desses organismos tenham perdido influência nas últimas décadas em razão da globalização financeira, da fragmentação política e da crescente tecnocratização das decisões econômicas, continuam sendo importantes referências para aqueles que defendem uma democracia mais participativa e orientada para o desenvolvimento de longo prazo.

Na América Latina, experiências semelhantes foram muito mais raras. A região historicamente conviveu com instabilidade política, rupturas institucionais e elevada desigualdade social. Nesse contexto, o Conselhão brasileiro representou uma inovação importante e relativamente singular.

A crise do planejamento e a lição asiática

O enfraquecimento de instituições voltadas ao planejamento estratégico não ocorreu apenas com o Conselhão. Desde os anos 1980, o Brasil vem assistindo a uma gradual erosão da capacidade estatal de formular projetos nacionais de longo prazo.

Durante grande parte do século XX, o país contou com instituições que pensavam o desenvolvimento para além dos ciclos eleitorais. O BNDE, posteriormente BNDES, a Sudene, a Eletrobras, a Petrobras, os órgãos de planejamento federal e inúmeras instituições de pesquisa formavam uma arquitetura voltada à transformação estrutural da economia brasileira.

A crise da dívida externa, o avanço das ideias neoliberais e a crescente financeirização da economia acabaram deslocando o centro das decisões. Aos poucos, o horizonte estratégico foi sendo substituído pela administração das urgências do curto prazo.

Enquanto isso, diversos países asiáticos seguiram trajetória distinta.

China, Coreia do Sul, Singapura e, em diferentes momentos, até mesmo o Vietnã preservaram instituições capazes de formular objetivos nacionais, coordenar investimentos e articular Estado, empresas, universidades e sociedade. Não por acaso, foram justamente esses países que mais avançaram em tecnologia, produtividade e competitividade internacional.

A experiência chinesa talvez seja o exemplo mais conhecido. A cada cinco anos, o país mobiliza milhares de especialistas, pesquisadores, empresários e dirigentes públicos na elaboração de seus planos nacionais quinquenais de desenvolvimento. Trata-se de um processo que não elimina conflitos ou divergências, mas que oferece uma direção estratégica para o conjunto da sociedade.

Não se trata de copiar modelos estrangeiros. O Brasil possui sua própria história, suas instituições e sua cultura política. Mas seria um erro ignorar a evidência de que as economias mais bem-sucedidas do século XXI não abandonaram o planejamento. Ao contrário, aperfeiçoaram seus mecanismos de coordenação estratégica.

Pensar o Brasil de 2050

A participação brasileira no ECOSOC oferece um lembrete oportuno. O desenvolvimento não nasce apenas das forças de mercado nem exclusivamente das decisões governamentais. Ele exige diálogo, coordenação e visão de longo prazo.

O Brasil precisa voltar a discutir que país deseja ser nas próximas décadas.

Como enfrentar a emergência climática sem comprometer o crescimento econômico? Como transformar a Amazônia em polo de ciência, inovação e bioeconomia? Como aproveitar a revolução da inteligência artificial para gerar empregos qualificados? Como reconstruir a indústria nacional? Como reduzir desigualdades regionais que persistem há gerações?

Nenhuma dessas perguntas pode ser respondida por um único ministério, por uma empresa isolada ou por um governo de quatro anos.

São desafios que exigem pactos sociais amplos e instituições capazes de reunir conhecimento técnico, legitimidade democrática e capacidade de coordenação.

Talvez essa seja a principal contribuição que um Conselhão fortalecido possa oferecer ao país.

Mais do que um espaço consultivo, ele pode se tornar um fórum permanente para a construção de uma visão compartilhada de futuro.

O século XXI assiste ao retorno da política industrial, da disputa tecnológica, da transição energética e do planejamento estratégico em diversas partes do mundo. Curiosamente, entretanto, muitos países ainda não reconstruíram com a mesma intensidade os espaços de diálogo social capazes de sustentar essas transformações.

O Brasil não precisa apenas de um novo ciclo de desenvolvimento. Precisa reconstruir as instituições capazes de pensá-lo coletivamente. O futuro não será produzido apenas pelo mercado nem apenas pelo Estado. Será construído, ou não será, pela capacidade de governos e sociedades voltarem a conversar sobre os destinos nacionais.

Num momento em que a política frequentemente parece prisioneira das disputas imediatas e das polêmicas do dia a dia, recuperar a capacidade de pensar o longo prazo talvez seja um dos maiores desafios da democracia brasileira.

A proximidade das eleições presidenciais de outubro de 2026 torna essa reflexão ainda mais necessária. O debate público tende a concentrar-se em nomes, pesquisas, alianças e disputas partidárias. Tudo isso é importante, mas talvez a questão fundamental seja outra: que projeto de país está sendo apresentado aos brasileiros?

A eleição não decidirá apenas quem ocupará o Palácio do Planalto nos próximos quatro anos. Decidirá também se o país será capaz de reconstruir instituições voltadas ao diálogo, ao planejamento e à construção de consensos nacionais ou se continuará prisioneiro da polarização permanente, do improviso e da lógica do conflito como método de governo.

O desafio brasileiro não é apenas ocupar uma cadeira no ECOSOC. É reaprender a valorizar, dentro de casa, os instrumentos capazes de transformar debate em projeto nacional. Porque as grandes nações não se constroem apenas administrando crises. Elas se constroem pensando, debatendo e planejando o futuro.

Maria Luiza Falcão Silva – MSc em Economia (University of Wisconsin–Madison), PhD (Heriot-Watt University), Professora aposentada da Universidade de Brasília (UnB), membro da ABED e do Grupo Brasil-China de Economia das Mudanças do Clima (GBCMC/NEASIA).

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Maria Luiza Falcão Silva – MSc em Economia (University of Wisconsin–Madison), PhD (Heriot-Watt University), Professora aposentada da Universidade de Brasília (UnB), membro da ABED e do Grupo Brasil-China de Economia das Mudanças do Clima (GBCMC/NEASIA).

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