8 de junho de 2026

O que significa “acabar com o país”?, por Ricardo Mezavila

Parte da população pobre acabou absorvendo a visão de mundo e o preconceito da classe dominante. Eles julgam Lula com os mesmos olhos da elite

Extrema direita critica governo Lula por mudanças sociais e inclusão, não por indicadores econômicos.
Acusações contra Lula refletem preconceito de classe e origem, enquanto aliados são vistos com tolerância.
População pobre absorve visão da elite, rejeitando Lula e sua própria história, segundo Ricardo Mezavila.

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O que significa “acabar com o país”?

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por Ricardo Mezavila

Quando a extrema direita e aliados dizem que o governo Lula vai ‘acabar com o país”, eles não estão falando de PIB, emprego ou inflação. Eles estão falando de o que é ruim para eles e para o seu mundo.

Para eles, “acabar com o país” é ver pessoas pobres, negras, periféricas, trabalhadores, mulheres, pessoas de origem simples, ocuparem espaço de poder, terem acesso a estudo, consumo, respeito e voz.

Para eles, “acabar com o país” é ver um operário, sem curso superior, com jeito de falar diferente, mandar no país, tratar todos como iguais, e mudar as regras que sempre deram vantagem a eles.

Se a economia cresce, mas o pobre deixa de ser pobre, para eles, o país piorou. Se a economia estagna mas o lugar de cada um continua no lugar  – eles no topo, os outros embaixo –  para eles, está tudo bem.

É esse o sentido real da frase deles: “Prefiro quem não faz nada, mas mantém a ordem que me favorece, do que quem faz tudo, mas mexe com a hierarquia que eu sempre tive”.

Eles não aceitam o fato porque a verdade ataca a sua crença principal: que pessoas da classe de Lula não são capazes de governar bem. Para admitir que Lula governou melhor, eles teriam que admitir que a sua visão de mundo e a sua superioridade não existem. E isso é impossível para eles.

O que Flávio faz  – rachadinha, Banco Master, tarifaço, Dark Horse –  para eles, “coisa de político normal, negócios, não é roubo de verdade”. Porque ele é filho de militar, tem origem branca, classe média/alta, se veste e fala como eles. Mesmo que esteja errado, ele é “do nosso meio”, então os erros são “deslizes”.

Acusam Lula de ladrão,  porque ele vem de baixo, saiu da fome, não tem estudo formal, não segue as regras de etiqueta deles. Mesmo que não haja prova ou ele seja absolvido, ele é “de fora”, então qualquer coisa vira crime, e tudo o que ele faz é suspeito. Isso não é ética, não é justiça: é preconceito contra a origem, contra a aparência, contra a classe social.

Por que pessoas pobres, que mais ganham com os governos de Lula, pensam e falam exatamente como a elite pensa sobre ele? Durante séculos, quem detém o poder no Brasil – elite econômica, intelectual, política –  também deteve o controle da informação e da cultura.

Durante gerações, tudo o que se lia, ouvia, assistia na TV, aprendia na escola ou ouvia na rua vinha da visão deles. A visão de mundo da elite foi ensinada como se fosse a única verdade absoluta, o que é “correto”, “sério”, “honesto” ou “adequado”.

Quando Lula aparece — um operário, sem estudo formal, vindo da miséria, desafiando tudo isso — a elite começa a repetir, dia e noite, que ele é corrupto, perigoso, incompetente, que “não é de confiança”, que “vai acabar com o país”.

Parte da população pobre acabou absorvendo a visão de mundo e o preconceito da classe dominante. Eles julgam Lula com os mesmos olhos da elite, não porque os números ou a realidade deles indiquem isso, mas porque aprenderam a achar que pessoas como Lula – e como eles próprios –  não servem para estar no poder, não são honestas e não são capazes.

Eles rejeitam Lula porque, infelizmente, em parte, acabam rejeitando a si mesmos e à sua própria história, repetindo o discurso de quem sempre quis mantê-los afastados do poder e dos direitos.

Ricardo Mezavila, cientista político.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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