Lá na frente o mundo acaba
As big techs e a sociedade, nesta entrevista com o ChatGPT
por Rodrigo Mesquita
A (i)responsabilidade das big techs, redes sociais versus plataformas sociais, desinformação, polarização, regulação, jornalismo, modelo de negócios para os jornais, as big techs e a sociedade, nesta entrevista com o ChatGPT.
Reli esta entrevista, para a qual dou link aqui, publicada em julho de 2023, à luz da fala recente de A.G. Sulzberger, publisher do New York Times, sobre o roubo descarado praticado pelas empresas de inteligência artificial contra o jornalismo.
A entrevista é reveladora porque antecipa uma questão que hoje se tornou central: a inteligência artificial chega a uma sociedade profundamente desorganizada do ponto de vista informacional. Chega depois de duas décadas em que as chamadas redes sociais – na verdade, plataformas sociais controladas por empresas privadas – bagunçaram a esfera pública, corroeram a mediação jornalística, ampliaram a desinformação, estimularam a polarização e transformaram a atenção humana em matéria-prima de modelos comerciais opacos.
A distinção continua essencial. Rede social é a trama real de relações humanas: família, vizinhança, escola, trabalho, universidade, sindicato, associação, comunidade científica, movimento social, redação, partido, igreja, território. A sociedade sempre se organizou em redes.
Facebook, Instagram, X, TikTok, YouTube, LinkedIn e outras estruturas semelhantes são plataformas sociais nas quais cada um de nós pode expor, acionar e expandir suas redes sociais. São empresas privadas, controladas por algoritmos, organizadas por modelos de negócio e voltadas à captura de atenção, dados e publicidade.
Essa confusão conceitual está na raiz da incapacidade da imprensa, da política e da sociedade de compreender em toda sua profundidade o que ocorreu nas últimas décadas.
Da atenção à síntese
As plataformas sociais capturaram boa parte da mediação pública. Passaram a organizar fluxos de informação, emoção, pertencimento, ressentimento, consumo, mobilização e disputa política.
A inteligência artificial generativa acrescenta uma nova camada a esse processo. Ela distribui informação, responde, resume, interpreta, sugere, organiza, orienta e, cada vez mais, age em nome do usuário. A natureza do problema mudou.
A IA pode ser uma ferramenta formidável. Uso o ChatGPT diariamente para ordenar ideias, testar argumentos, comparar hipóteses, rever textos, buscar referências, organizar raciocínios e dar consequência a linhas de pensamento que venho desenvolvendo há décadas na área jornalística e ambiental, especialmente em relação ao Lagamar de Iguape, Cananéia e Paranaguá. Também o uso para coisas simples: perguntar sobre um filme, um vinho, um restaurante, uma palavra, um problema prático.
O modo de uso é a questão xis. A qualidade da resposta depende da qualidade da pergunta, do repertório de quem pergunta e da capacidade de avaliar o que recebe de volta. Quem tem alguma base de conhecimento consegue usar a IA como apoio intelectual. Quem não tem repertório, método ou capacidade crítica tende a tomar fluência por verdade, síntese por conhecimento, resposta provável por explicação confiável.
Os idiotas da objetividade
Nelson Rodrigues falava dos “idiotas da objetividade”. A expressão é brutal, mas ajuda a pensar o momento. A vida pública sempre foi atravessada por certezas imediatas, simplificações e reações sem mediação. As plataformas sociais transformaram isso em modelo de negócio. A IA pode transformar esse mesmo processo em sistema cotidiano de orientação individual.
A discussão sobre inteligência artificial costuma tratar a ferramenta como se ela atuasse da mesma forma sobre todos. Isso empobrece o debate. A IA não produz o mesmo efeito em uma pessoa que a usa para organizar conhecimento acumulado, em outra que a usa para resolver uma dúvida prática e em outra que a usa para substituir o próprio esforço de compreender. A ferramenta amplia capacidades, mas também amplia limitações. Pode ajudar a pensar melhor. Pode organizar a ignorância com aparência de sofisticação. Esse é um dos riscos centrais do momento.
A sociedade contemporânea já vive uma crise profunda de mediação. Partidos políticos perderam densidade programática. Lideranças públicas operam cada vez mais com técnicas de espetáculo, mobilização emocional e administração de plateias. A lógica do circo ganhou terreno sobre a lógica do estadista. A política se tornou, em muitos casos, gestão de atenção e conflito permanente.
Nesse ambiente, a IA pode aumentar a confusão se for entregue a indivíduos, instituições e empresas sem repertório, sem método e sem responsabilidade pública. O problema não é a inteligência artificial em si. O problema é a sua inserção em uma sociedade já fragilizada pelas plataformas, pela perda de confiança, pela crise da imprensa, pela degradação da política e pela ausência de instituições capazes de organizar sentido.
A guerra defensiva
É por isso que a fala de Sulzberger é tão importante. Ele tem razão ao denunciar o roubo do conteúdo jornalístico pelas empresas de inteligência artificial. Os jornais precisam defender seus direitos, seus arquivos, suas marcas, suas reportagens, seus profissionais e o valor acumulado por gerações de trabalho.
Sulzberger, em sua fala de abertura no WAN-IFRA World News Media Congress, em Marselha, acusou empresas de IA de praticarem “brazen theft” ao usar conteúdo protegido por direitos autorais sem permissão ou compensação, e situou essa prática como ameaça ao jornalismo e a outros setores da economia criativa.
Essa guerra defensiva precisa ser travada. Sem remuneração adequada pelo conteúdo jornalístico, sem proteção aos arquivos, sem reconhecimento do trabalho profissional de apuração, edição, verificação e publicação, a base econômica da imprensa continuará sendo corroída. Mas a defesa dos direitos autorais não resolve sozinha a crise do jornalismo.
O erro da imprensa
A indústria jornalística já errou diante da internet. Tratou a rede como novo canal de distribuição, quando ela era um novo ambiente social, informacional e cognitivo. Os jornais criaram sites, publicaram conteúdos online, correram atrás de audiência, aceitaram a lógica das plataformas sociais, adaptaram títulos, formatos e rotinas ao tráfego gerado por terceiros. Em muitos casos, confundiram presença digital com transformação editorial.
Agora correm o risco de repetir o erro diante da inteligência artificial. Se usarem IA para cortar custos, produzir resumos, automatizar chamadas, acelerar rotinas internas, fazer SEO, montar newsletters automáticas e gerar mais conteúdo dentro da mesma lógica industrial, perderão outra vez a oportunidade histórica.
A IA generativa, usada dentro de uma cultura editorial antiga, tende a reforçar os problemas que já existem. Pode aumentar a produção de textos, mas não necessariamente produzir mais sentido. Pode reduzir custos, mas não reconstruir confiança. Pode acelerar processos, mas não reorganizar a relação entre jornalismo e sociedade. O desafio é mais profundo.
A imprensa precisa aprender a operar no ambiente em rede. Precisa monitorar fluxos de informação, identificar demandas sociais reais, organizar conhecimento, sustentar memória temática, articular especialistas, ouvir públicos, separar relevância de ruído e criar ambientes próprios de curadoria e mediação. Essa é a tarefa jornalística no novo ecossistema informacional.
O poder emergente
A fala de Sulzberger também abre outra obrigação para os jornais: cobrir as empresas responsáveis por esse processo como estruturas centrais de poder.
OpenAI, Google, Meta, Microsoft, Anthropic, Perplexity, Apple, Amazon, Nvidia e outras empresas deixaram há muito tempo de ser companhias de tecnologia convencionais. Elas controlam infraestrutura, dados, modelos, interfaces, sistemas de busca, ambientes de conversação, mecanismos de recomendação, computação em nuvem, chips, padrões técnicos e parte crescente da relação cotidiana das pessoas com o conhecimento.
Essas empresas reorganizam a esfera pública, a economia da atenção, o trabalho intelectual, a publicidade, a educação, a política, a cultura, a pesquisa científica, o jornalismo e a própria forma como indivíduos formulam perguntas sobre o mundo. Isso não cabe mais em uma subeditoria de tecnologia.
Os jornais precisam criar núcleos permanentes de cobertura sobre inteligência artificial, plataformas sociais, algoritmos, dados, regulação, direitos autorais, concentração econômica, impactos trabalhistas, educação, democracia e esfera pública.
Assim como existem coberturas estruturadas de economia, política, Judiciário, Congresso, Banco Central, empresas e relações internacionais, precisa existir uma cobertura estruturada do novo sistema informacional. É ali que parte crescente do poder contemporâneo está sendo exercida.
A imprensa + sua inteligência e a IA
A cobertura é uma parte da resposta. Os jornais precisam aprender a usar a inteligência artificial com sabedoria. Não como atalho produtivo. Não como máquina de substituição. Não como instrumento para empilhar textos, cortar equipes e fingir inovação.
A IA deve ser usada para ampliar a capacidade jornalística de escuta, organização, memória, análise, curadoria e articulação. Pode ajudar a acompanhar temas complexos ao longo do tempo, identificar padrões, mapear redes reais, organizar bases documentais, comparar versões, recuperar contextos, apoiar investigações e estruturar ambientes de relacionamento qualificado com o público.
Esse uso exige direção editorial, método, transparência, responsabilidade e cultura jornalística. Sem isso, a IA vira mais uma ferramenta a serviço da mesma lógica que levou a imprensa à perda de relevância.
A entrevista que publiquei em 2023 era, naquele momento, uma exploração inicial. Hoje, relida depois da declaração de guerra de Sulzberger às empresas de IA, ela ganha outro sentido.
A disputa aberta pela inteligência artificial não se limita ao conteúdo roubado. Trata de quem organizará a inteligência social no século 21.
Nunca perca a esperança
A fotografia que acompanha este texto, feita num passeio pelas ruas do centro de São Paulo, diz: Nunca perca a esperança.
Ela poderia parecer deslocada em uma discussão sobre big techs, plataformas sociais, inteligência artificial e crise do jornalismo. Não está.
Vivemos um período de dúvida e desesperança. A crise não decorre da criação de um novo ambiente global de articulação em todos os sentidos da sociedade humana pela tecnologia. Ela envolve a perda de densidade dos partidos, a fragilidade das lideranças públicas, a transformação da política em espetáculo, a corrosão da confiança, a fragmentação da esfera pública e a incapacidade das instituições de oferecer sentido em uma época de mudanças profundas.
A imprensa não resolverá tudo isso sozinha. Mas pode dar uma contribuição enorme se voltar a cumprir seu papel público: organizar informação confiável, articular a sociedade, iluminar estruturas de poder, qualificar o debate, sustentar memória, criar espaços de mediação e ajudar a sociedade a formar juízo sobre seu próprio futuro.
Se a indústria jornalística e seus veículos compreenderem a profundidade da mudança, enfrentarem as big techs, cobrirem as empresas de IA como novas estruturas de poder e usarem essas ferramentas para reconstruir sua função pública, poderão ajudar a sociedade a recuperar alguma confiança no futuro.
Essa talvez seja hoje uma das tarefas mais importantes do jornalismo num período histórico de longa maturação de uma era para outra.
Rodrigo Mesquita – Conselheiro na InovaUSP | Comunicação Digital
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