11 de julho de 2026

Juscelino inspira o Projeto Brasil do GGN, por Luiz Gonzaga Belluzzo

O Plano de Metas contemplava cinco prioridades: Energia, Transportes, Alimentação, Indústrias de Base e Educação.
Juscelino Kubitschek - Reprodução

Juscelino Kubitschek governou o Brasil de 1956 a 1961, implementando o Plano de Metas com foco em infraestrutura.
O Plano priorizou Energia, Transportes, Alimentação, Indústrias de Base e Educação, incluindo a construção de Brasília.
Grupos executivos coordenaram investimentos públicos e privados, promovendo crescimento econômico médio de 7% ao ano.

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Juscelino inspira o Projeto Brasil do GGN

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por Luiz Gonzaga Belluzzo

Juscelino tomou posse em 1956 e seu mandato foi ameaçado por tentativas de golpe de Estado. Prometeu avançar 50 anos em 5. Pode-se dizer que cumpriu a promessa. Governou sob a orientação do Plano de Metas elaborado a partir de dois estudos: o da Comissão Mista Brasil-Estados Unidos e o da Comissão Mista CEPAL-BNDES – Esboço de um Programa de Desenvolvimento para a Economia Brasileira.

O Plano de Metas contemplava cinco prioridades: Energia, Transportes, Alimentação, Indústrias de Base e Educação. O governo concentrou os gastos na infraestrutura. A construção de Brasília e a abertura de estradas, como a Belém-Brasília, integravam o projeto de interiorização do desenvolvimento.

Ao mesmo tempo, foram constituídos os grupos executivos, compostos por empresários do setor privado e técnicos do BNDE, coordenados pelo conselho nacional de desenvolvimento, com o propósito de coordenar os programas de investimento e a divisão do trabalho entre o capital estrangeiro e o nacional nas diversas áreas. Essa era a tarefa do GEIA (Grupo Executivo da Industria Automobilística) do GEICON (Grupo Executivo da Construção Naval), do GEIPOT(Grupo Executivo da Industria de Transporte),  GEIMAP( Grupo Executivo da Industria Mecânica Pesada). Em 1958 foi criada a SUDENE com o propósito de promover o desenvolvimento do Nordeste. 

O Plano de Metas articulou, portanto, as ações do governo, do setor privado nacional e do capital produtivo internacional que já experimentava uma forte expansão. A grande empresa americana movia-se dos Estados Unidos para a Europa em reconstrução.  As empresas europeias, em maior número, e as americanas transferiam suas filiais destas regiões para os países em desenvolvimento, dotados de estruturas produtivas mais avançadas e que apresentavam taxas de crescimento mais elevadas. O Brasil, entre 1956 e 1960 cresceu em média 7% ao ano.

O seriado Global JK atiçou nas novas gerações a nostalgia do Brasil que não viveram. Jovens – meninos e meninas – os que vão alem dos devaneios da telinha e se dão ao trabalho de escavar a história, não raro interpelam com suas angústias e esperanças os sobreviventes do desenvolvimentismo. Perguntam: Juscelino foi “tudo aquilo”?

A busca de um passado idealizado e mitificado, em sua maciça e massificante perplexidade, é a crítica ingênua de um presente atolado na mediocridade e na estagnação. 

Juscelino e suas circunstâncias foram tudo aquilo e mais alguma coisa. Mais alguma coisa é o resíduo que a história não revela aos gênios da baixaria, vetríloquos do establishment nativo, sempre empenhados na cruzada contra o que chamam de populismo. São reencarnações sucessivas e inesgotáveis dos escribas do coronelato.

Seja como for, no período desenvolvimentista foram travadas as batalhas decisivas pela consolidação do processo de industrialização. Juscelino ganhou as batalhas que Getúlio concebeu. O “desenvolvimentismo” como projeto de um capitalismo nacional cumpriu o seu destino através do Plano de Metas. Muito ao contrário do que pregam os caipiras-cosmopolitas – aquela malta que circula pelo mundo, sem entender nada do que acontece – o projeto juscelinista integrou a economia brasileira ao vigoroso movimento de internacionalização do capitalismo do pós-guerra. Por isso, os ultra-nacionalistas achavam que Juscelino perdeu as batalhas que Getúlio teria imaginado ganhar.

A análise do Plano de Metas  explicita a concepção de um bloco integrado de investimentos na infraestrutura, no setor de  bens de capital e de bens de consumo duráveis. As inovações institucionais consubstanciadas nos Grupos Executivos conferiram plasticidade ao aparelho econômico do Estado. Juscelino tomou posse em 1956 e atravessou o mandato sob as ameaças do golpismo anti-nacional, o mesmo que foi frustrado pelo suicídio de Getúlio em 1954 , mas conseguiu submeter o país na quartelada de 1964.

Luiz Gonzaga Belluzzo é professor titular do Instituto de Economia (IE) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Foi secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda (1985-1987) e de Ciência e Tecnologia de São Paulo (1988-1990). Belluzzo é formado em Direito e Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo (USP), pós-graduado em Desenvolvimento Econômico pela Comissão Econômica para América Latina e Caribe (Cepal) e doutor em economia pela Unicamp. Fundador da Facamp e conselheiro da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), é autor dos livros “Os Antecedentes da Tormenta”, “Ensaios sobre o Capitalismo no Século XX”, e coautor de “Depois da Queda, Luta Pela Sobrevivência da Moeda Nacional”, entre outros. Em 2001, foi incluído entre os 100 maiores economistas heterodoxos do século XX no Biographical Dictionary of Dissenting Economists. Em 2005, recebeu o Prêmio Intelectual do Ano (Prêmio Juca Pato).

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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