16 de julho de 2026

A imortalidade de Roberto Campos, por Daniel Afonso da Silva

O deputado e seus convivas aguardavam as novidades da Academia Brasileira de Letras. Pela terceira vez, ele apresentara a sua candidatura.
Assembléia Nacional Constituinte - Sessões Plenárias - Plenário Cheio e Mesa - Votação de Matérias.

Roberto Campos tentou por três vezes ingressar na Academia Brasileira de Letras, enfrentando forte oposição e derrotas.
Em 1999, após a morte de Alfredo Dias Gomes, Campos foi eleito para a Academia, apesar da resistência da imprensa e familiares.
Campos teve papel decisivo na política e economia do Brasil, escreveu “A Lanterna na Popa” e faleceu em 2001 após sua posse.

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A imortalidade de Roberto Campos

por Daniel Afonso da Silva

Angústia e aflição inundavam a cobertura daquele conhecido edifício à rua Francisco Otaviano em Copacabana onde residia a família Campos, Roberto e Stella. Era quinta-feira, fim de tarde, dia bom. 23 de setembro de 1999. O imponente deputado e seus convivas aguardavam apreensivos as novidades da Academia Brasileira de Letras. Pela terceira vez, Roberto Campos apresentara a sua candidatura. Queria, a todo custo, virar imortal. Não por vaidade nem por precisão.

Sua vaidade – como a de Santo Agostinho – era não ter vaidade. A sua vida e a sua obra diziam por si. A Lanterna na Popa realçava a perenidade de seus feitos. Saíra mais que traço de vida. Mais que confissão e memórias. Chegou bem perto de testamento. Impedindo a indiferença do público e impondo o seu protagonista fato consumado incontornável. Por amor ou ódio. Amizade ou desafeição. Encontros e despedidas. Restando a Academia como derradeira consagração.

Em 1991, ao lado de Celso Lafer, ele havia aplicado para a imortalidade acadêmica ante João de Scantimburgo, conhecido professor e jornalista paulista. Era uma disputa complexa. Os acadêmicos eram, em maioria, declarados por João de Scantimburgo. Inibindo quaisquer concorrentes. Levando, assim, Lafer e Campos a abdicar da disputa.

Meses depois, a vaga de Francisco de Assis Barbosa vagou e Roberto Campos voltou a aplicar. Desta vez ante Sérgio Paulo Rouanet, seu colega de Itamaraty. A refrega retornou em desafio. Rouanet era ministro da Cultura e havia lançado uma Lei de Incentivos Fiscais que levava seu nome. Era – não só por isso, mas também por isso – muito querido em todos os círculos. Especialmente entre os culturais. Era quase vinte anos mais moço que Roberto Campos, mas centenas de anos mais límpido de contratempos, cabeçadas, polêmicas e mal-estares que seu concorrente. Antonio Houaiss, também diplomata, era o seu “padrinho” na Academia e oposição latente a Roberto Campos. Primeiro pelo estilo. Depois pela ojeriza ao regime militar que o antigo seminarista vindo do Mato Grosso havia servido e exonerado Houaiss.

O país vinha recém-redemocratizado. A Constituição de 1988 tinha pouquíssimos anos. A primeira presidência civil após os militares reunia poucos pares de meses. Queria-se tudo menos o passado. Exigia-se tudo menos conivência com os militares. Roberto Campos foi expoente do período Castelo Branco. Impôs modernizações determinantes para o aperfeiçoamento do país. Mas, agora, todos preferiam esquecer. Tudo e todos relacionados aos militares eram jogados no mesmo saco. Na mesma vala comum. Colocando Roberto Campos em franca desvantagem frente a Rouanet. Levando-o, assim, sans merci, à derrota.

Foi por pouco. Cinco votos. Mas o suficiente para retirar o embaixador-deputado dos trilhos da imortalidade acadêmica e lançá-lo aos braços da desilusão. Contrição profunda. Apenas superada na composição de A Lanterna na Popa. Livro memorial testamento. Com mais de mil páginas. Concluído e lançado em 1994.

1994 teve de tudo: Plano Real, Copa do Mundo, eleições, vitória de Fernando Henrique Cardoso e a publicação de A Lanterna na Popa.

A Lanterna na Popa surgiu despretensioso, mas transformou-se num acontecimento cultural no país. Roberto Campos conseguiu o impensável: humanizar Bob Fields. Ou vice-e-versa. Levando o público ao delírio.

Era imensa – e não se sabia – a curiosidade geral sobre aquela personagem eternamente cuiabana tornada diplomata, embaixador, ministro de estado, senador, deputado, professor, provocador, construtor do Brasil. Não necessariamente nessa ordem.

Os mais moços poderiam não saber, mas os mais vividos facilmente conseguiam se lembrar que Roberto Campos representara o Brasil em Bretton Woods. Participara da criação do BNDE – depois, BNDES – sob Getúlio e do Plano de Metas sob Juscelino. Fora decisivo nas reformas institucionais e bancárias do primeiro ciclo dos militares, além de reputadíssimo embaixador do Brasil em Washington e Londres.

Autodeclarado discípulo de Eugênio Gudin e de Otávio Gouveia de Bulhões e segunda face de José Guilherme Merquior e Mário Henrique Simonsen, ele, Roberto Campos, Bob Fields, nutria o prazer de ser impopular. E, agora, depois dos temporais da redemocratização, mais que nunca seguia longe da unanimidade.

Quando eleito presidente, Fernando Collor convocou-o para uma conversa em Brasília. Ambos cultivavam o pensamento liberal que Roberto Campos era dos maiores expoentes no país. Collor queria o apoio de Campos. E conseguiu. O nobre embaixador ficou entusiasmado com o rapaz das Alagoas. Acreditava que o Brasil com ele, enfim, poderia começar a assemelhar-se aos seus livros, ideias e ideais.

Tudo ia bem até que veio o confisco da poupança que reverteu todas as expectativas e humores. Roberto Campos caiu irritado, irritadíssimo. Não sabia o que pensar nem dizer.

Almoçava em casa à sós com dona Stella quando o telefone tocou. Era de Brasília. Do outro lado, Fernando Collor querendo explicar o inexplicável. Campos resistiu muito antes de ceder e ir conversar com o presidente. Deixou, assim, a mesa e foi ao aparelho. Disse “alô” com rudeza. Collor começou a explicar a essência do plano. Campos não queria ouvir. O silêncio reinava. Suas feições eram só grimaces. Como pinturas de Breton. Até que Campos rompeu a monotonia com a expressão “E bota improviso nisso!, p…”.

Reconectou o aparelho. Lançou ao ar outra expressão precisa, forte e usual como síntese de rejeição. Lia-se em seu semblante. Ele estava irado. Conseguintemente, deu por encerrado o seu apoio ao governo. Reconhecia nele méritos. Sabia que Collor e os seus tinham se empenhado na modernização da economia brasileira. Mas estava convencido que aquele confisco fora longe demais. Corroera as frentes de governabilidade do antigo governador de Alagoas. Destruindo a sua credibilidade. Restando o impeachment como antídoto. Dilúvio ou caos. Melhor dilúvio. A entropia era sem fim. Nada conseguiria conter a sangria.

Às vésperas da votação do impeachment, Roberto Campos caiu em desarranjo. Sucumbira a uma intoxicação alimentar e seguia internado em clínica do Rio de Janeiro. O seu quadro era grave. O seu semblante ficou frio. O seu corpo, trêmulo. A sua aparência, frágil. Os seus movimentos, sem ação. Mesmo assim, num momento de suspiro, mandou dizer ao líder do PMDB, Ulysses Guimarães, que iria, a qualquer custo, votar e ajudar a derrubar o presidente. E foi. Em cadeira de rodas. Chegando ao Congresso naquele 29 de setembro de 1992 simplesmente para dizer “voto com o relator”. Quatro palavras. Imenso gesto. Quatro estações. E retorno às pressas para o Rio. Ele seguia febril e sua condição demandava atenção.

Superado, sem Collor nem a Academia, restou-lhe, então, dedicar-se à sua obra-fim, A Lanterna na Popa.

Demorou poucos meses. De inícios de 1993 a meados de 1994. Escrevia rápido e com convicção.

Dez meses depois, a publicação recebeu o prêmio José Ermírio de Morais da Academia. Um prêmio relevante e de alto reconhecimento. Que chegou em bom momento e caiu como bálsamo. Levando o embaixador a reconquistar ânimo para voltar a sonhar com a Academia.

Seus eternos incentivadores – Raquel de Queiroz, Jorge Amado e Antonio Olinto – reforçaram o ímpeto para Roberto Campos voltar a novamente se candidatar.

Aguardava-se apenas uma vaga vagar. Esperava-se apenas um imortal partir. O que aconteceu em 1999. Quando Alfredo Dias Gomes nos deixou.

Foi num dia ameno e feliz em São Paulo. 18 de maio de 1999. Uma terça-feira. O dramaturgo e sua nova mulher nova tinham vindo do Rio para acompanhar um espetáculo na capital paulista. Contemplaram a obra e foram jantar em restaurante popular na região central. Tudo ia bem e tranquilo. O autor de Bandeira DoisSaramandaia, Roque Santeiro e Bem-Amado era só risos. Estava nitidamente no melhor de sua vida e arte. Completava 76 anos de idade e 60 anos de composições. Fora precoce. O seu primeiro escrito foi gestado quando ele tinha apenas 15 anos. O Pagador de Promessas seguia o seu trunfo mais memorável. Mas o seu próximo texto prometia superar todos os demais.

Ele acabou de jantar e tinha pressa de ir embora. Queria voltar logo para a hospedagem. Um hotel nas imediações da avenida Paulista. A sua cabeça também estava no Rio, para onde queria voltar logo. Regressaria na manhã seguinte. Não quis, assim, após aquele jantar, aguardar o táxi credenciado do restaurante. Pediu um qualquer por conta própria. Queria colocar no papel outra crônica e novos escritos. Sempre sonhando o futuro. Entrou no carro e pediu para o motorista acelerar. O motorista respeitou.

Numa travessa da 9 de julho, sugeriu um atalho. O motorista também anuiu. Era uma conversão arriscada e proibida. Passava da meia-noite. O motorista aceitou a contravenção. Queria por tudo agradar o criador de Senhorzinho Malta. Tornou à esquerda sem notar o perigo. Cruzou à frente de um ônibus. Não conseguiu frear nem avançar. Colidiu forte. Foi lançado bem longe. O dramaturgo nada viu. Foi tudo muito rápido. Dias Gomes estava sem cinto de segurança. Bateu cabeça e membros.

Morreu ali mesmo. Subitamente. Sem suspirar nem de ninguém se despedir. Foi o seu fim. Triste fim de Dias Gomes. Notável baiano e brasileiro. Ocupante da cadeira 21.
Retornou ao Rio apenas para seus funerais. Sóbrios funerais que anunciaram o início de sua sucessão.

Roberto Campos estava na fila. Arnaldo Niskier, Tarcísio Padilha e Antonio Olinto somaram-se a Raquel de Queiroz e Jorge Amado para incentivar.

Roberto Campos superava os 80 anos. Seguia aguerrido, mas frágil. Seu coração já não era o mesmo. Infartos sucessivos insistiam em conclamar o seu retorno ao Pai. Vivia um dia ante o outro. A todo vapor. Com e sem sobressaltos. Era indiferente a tudo e todos. Vivia como quem não tem mais nada a perder. Lançou-se nesse espírito à vaga de Dias Gomes. Queria ser imortal.

Tornado candidato, surpreendeu-se. A resistência ao seu nome foi imensa. A virulência foi sem paralelos. Jamais se vira algo similar. Setores da imprensa e da Cultura consideravam um escárnio a sua intenção. Bernadeth Lyzio, viúva de Dias Gomes, prometeu retirar os restos mortais do marido do mausoléu da Academia caso Roberto Campos fosse eleito. Os filhos do dramaturgo seguiram em linha com a madrasta. A situação inflamou-se. A diatribe monopolizou o noticiário. Roberto Campos hesitou em manter a candidatura. O constrangimento tomou dimensões gigantescas. Roberto Campos foi, então, parlamentar com o presidente da Casa de Machado de Assis, Arnaldo Niskier. Pretendia abandonar a candidatura. Arnaldo Niskier convenceu-o a mantê-la. Roberto Campos aquiesceu. Seguiu na disputa e terminou eleito. Ingressou, enfim, nessa imortalidade. Para o bem da Academia, para o bem da Cultura e para o bem do Brasil. Morreria meses depois. No 9 de outubro de 2001. Mas conseguiria, antes, ser empossado.

PS: agradeço ao embaixador Paulo Roberto de Almeida pela leitura atenta e generosa da versão inicial deste texto.

Daniel Afonso da Silva, pesquisador do Núcleo de Pesquisas em Relações Internacionais da USP

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Daniel Afonso da Silva

Daniel Afonso da Silva é doutor em História Social pela Universidade de São Paulo e autor de “Muito além dos olhos azuis e outros escritos sobre relações internacionais contemporâneas”. [email protected]

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