10 de agosto de 2026

A disputa pelas urnas brasileiras, por Gustavo Tapioca

A eleição presidencial de 2026 deixou de ser apenas uma disputa nacional e passou a integrar a nova disputa geopolítica pelas Américas.
Imagem gerada por IA

Valor Econômico destaca interferência externa inédita nas eleições presidenciais brasileiras desde a redemocratização.
Em 2023, Brasil enfrentou tentativa de golpe com invasão aos Três Poderes e plano para assassinar líderes políticos.
EUA intensificam presença na América Latina, influenciando política brasileira e ampliando disputa geopolítica na região.

Esse resumo foi útil?

Resumo gerado por Inteligência artificial

A disputa pelas urnas brasileiras

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

por Gustavo Tapioca

Em editorial publicado nesta sexta-feira, 7 de agosto, o Valor Econômico registrou uma constatação incomum: “Pela primeira vez nas eleições presidenciais desde a redemocratização, há interferência externa na disputa.” 

A frase não encerra o debate sobre a dimensão dessa interferência. Mas registra um fato novo: a eleição brasileira deixou de ser observada apenas como um processo político interno. 

Nos últimos meses, Lula passou a agir cada vez mais como chefe de Estado. Publicou artigo no Washington Post em defesa da soberania brasileira, intensificou o diálogo com Xi Jinping, conversou com Vladimir Putin e anunciou que pretende reunir-se também com Donald Trump durante a Assembleia Geral das Nações Unidas. Ao mesmo tempo, passou a afirmar que o Brasil não aceitará interferências externas em seu processo eleitoral. 

Essa mudança tem uma história. 

A tentativa de golpe 

Em 8 de janeiro de 2023, oito dias depois da posse presidencial, o país assistiu à invasão das sedes dos Três Poderes por grupos que recusavam o resultado das eleições de 2022. As investigações revelaram uma articulação destinada a romper a ordem constitucional, vieram as condenações de Jair Bolsonaro e de integrantes da cúpula militar e tornou-se público o chamado Plano Verde e Amarelo, que previa o assassinato de Lula, do vice-presidente Geraldo Alckmin e do então presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Alexandre de Moraes. 

Pela primeira vez desde a Constituição de 1988, uma tentativa de golpe de Estado foi investigada, julgada e punida pelo próprio Estado brasileiro. 

Mas compreender a eleição de 2026 exige recuar ainda mais. 

Operação Brother Sam 

Em 1964, a intervenção americana no processo político brasileiro não começou quando as tropas saíram às ruas. 

Documentos posteriormente divulgados mostram que Washington acompanhava havia anos o governo João Goulart. Em julho de 1962, John Kennedy discutiu com seus assessores opções militares para o Brasil. Em dezembro, enviou seu irmão Robert Kennedy, então procurador-geral dos Estados Unidos, para uma reunião de três horas com Goulart, na qual pressionou o presidente brasileiro a alterar a composição e os rumos de seu governo. 

O jornalista Jamil Chade recuperou nesta semana esse episódio ao analisar a atual crise entre Brasília e Washington. Pesquisa do cientista político Anthony Pereira mostra que, frustrada a tentativa de persuadir Goulart, a política americana avançou, em 1963, para o apoio à sua derrubada. 

Quando o golpe começou, Washington já havia preparado a Operação Brother Sam: uma força naval para a costa brasileira, combustível, armamentos e apoio aos militares golpistas caso encontrassem resistência. 

A operação praticamente não precisou ser executada. O governo caiu antes. 

Mas a preparação existia. 

Essa talvez seja a principal lição daquele episódio: golpes não começam quando aparecem os tanques. Começam muito antes. 

Como as Democracias Morrem 

É evidente que 2026 não é 1964. O Brasil e o mundo mudaram. 

Em Como as Democracias Morrem, Steven Levitsky e Daniel Ziblatt mostram que, no século XXI, democracias raramente desaparecem por quarteladas clássicas. Tendem a ser corroídas por dentro, pela deslegitimação dos adversários, pelo enfraquecimento das instituições e pela recusa em aceitar como legítima a vitória do oponente. 

A pergunta, portanto, não é se 1964 vai se repetir. 

É outra: estaria sendo preparado um ambiente político e internacional capaz de sustentar o questionamento da legitimidade de uma eventual vitória de Lula? 

A resposta fora do Brasil 

Em análise divulgada nesta semana, Jamil Chade classificou o momento atual como a maior ingerência contra a soberania brasileira desde 1964 e sustentou que a ofensiva americana ultrapassa o apoio eleitoral a Flávio Bolsonaro. Na sua interpretação, está em jogo a reafirmação da influência dos Estados Unidos sobre a América Latina. 

A volta de Donald Trump à Casa Branca foi acompanhada por uma estratégia de fortalecimento da presença americana no hemisfério ocidental, simultaneamente à intensificação da disputa global com a China. 

Essa mudança aparece nas pressões sobre Cuba, na operação militar que resultou na captura de Nicolás Maduro e Cilia Flores, na aproximação com governos ideologicamente alinhados e na criação de novos mecanismos de segurança regional. 

Entre eles está o Escudo das Américas, acompanhado por uma força-tarefa coordenada pelo Comando Sul e integrada por dezoito países latino-americanos parceiros dos Estados Unidos. Argentina e Paraguai, por sua vez, aprofundaram a cooperação militar e de segurança com Washington. 

Em conjunto, esses movimentos desenham uma nova configuração geopolítica da América do Sul. 

A Joia da Coroa 

Foi essa percepção que inspirou o artigo “O jogo mais importante para o futuro do Brasil já começou”. O mapa político mostrava quase toda a América do Sul governada por lideranças alinhadas, em maior ou menor grau, à nova política hemisférica de Trump. Restavam Uruguai e Brasil. 

Mas há uma diferença decisiva. 

O Uruguai tem pouco mais de três milhões de habitantes. O Brasil é a maior economia da América Latina, integrante dos BRICS, parceiro estratégico da China e principal potência regional. 

Daí surgiu a ideia da Joia da Coroa: depois de ampliar sua influência sobre quase toda a América do Sul, o Brasil passava a representar a peça decisiva da disputa geopolítica no continente. 

Os acontecimentos seguintes reforçaram essa percepção. 

Donald Trump recebeu Flávio Bolsonaro em Washington. Marco Rubio intensificou críticas ao governo brasileiro e ao Supremo Tribunal Federal. Representantes do Departamento de Estado tentaram vir ao Brasil para discutir temas relacionados ao processo eleitoral, mas tiveram os vistos negados pelo governo brasileiro. 

Washington revogou depois o visto da embaixadora Maria Luiza Ribeiro Viotti. A indicação do novo embaixador americano tornou-se outro foco de atrito, enquanto tarifas comerciais passaram a misturar-se com questões políticas. 

No mesmo período, o Consulado dos Estados Unidos em São Paulo promoveu reuniões com influenciadores conservadores para discutir liberdade de expressão e ambiente digital. 

E a campanha de Flávio Bolsonaro retomou um roteiro conhecido: questionamentos ao sistema eleitoral e às urnas eletrônicas, defesa de observadores estrangeiros e acusações de perseguição política. 

Nenhum desses episódios, isoladamente, demonstra uma estratégia destinada a contestar o resultado da eleição. 

Mas existe um efeito cumulativo. 

Cada novo conflito reforça a narrativa de que as instituições brasileiras estariam comprometidas e de que uma eventual derrota poderia ser atribuída não ao voto popular, mas ao próprio sistema eleitoral. 

A lógica lembra os Estados Unidos em 2020. A narrativa da fraude começou antes da votação e culminou na invasão do Capitólio, em 6 de janeiro de 2021. Dois anos depois, o Brasil viveria sua própria tentativa de ruptura institucional em 8 de janeiro de 2023. 

Por isso, a pergunta deixou de ser apenas quem vencerá a eleição. 

É também se todos aceitarão o resultado das urnas. 

Eduardo e a Venezuela 

Foi nesse ambiente que Eduardo Bolsonaro publicou, em 6 de agosto, um vídeo em inglês dirigido à “comunidade internacional”. 

Ao comparar o Brasil à Venezuela e afirmar que Lula seguiria o caminho de Nicolás Maduro, Eduardo levou para o exterior um discurso até então dirigido principalmente aos apoiadores do bolsonarismo. 

O movimento coincidiu com outra característica da campanha: Flávio Bolsonaro optou por uma chapa “puro-sangue”, exclusivamente do PL, em vez da ampla coalizão partidária tradicionalmente buscada por candidaturas presidenciais competitivas. 

A aposta internacional 

Há um paradoxo na reta final da campanha. 

Quanto mais Flávio Bolsonaro encontra dificuldades para ampliar sua base política no Brasil, maior parece tornar-se sua importância para a estratégia internacional da administração Trump. 

A dificuldade para construir alianças e o distanciamento de antigos aliados contrastam com a crescente aproximação com o trumpismo. O encontro de Flávio com Trump, a interlocução com integrantes da administração americana e a atuação internacional de Eduardo Bolsonaro projetam a candidatura para além das fronteiras brasileiras. 

Isso não permite antecipar como a campanha ou seus aliados reagiriam diante de uma derrota. 

Mas ajuda a compreender por que a eleição brasileira passou a integrar uma disputa política e geopolítica mais ampla. 

E se Lula for reeleito? 

Se Flávio Bolsonaro vencer, dificilmente seus apoiadores colocarão em dúvida o resultado das urnas. 

E se Lula for reeleito? 

Até o momento, Trump não declarou que deixará de reconhecer uma eventual vitória de Lula. Ao contrário: um alto funcionário do Departamento de Estado afirmou nesta sexta-feira, 7, que os Estados Unidos respeitarão “qualquer governo que o povo brasileiro escolha livremente por meio de eleições livres e justas”. 

É uma declaração relevante e precisa ser considerada. 

Mas não apaga os acontecimentos que a precederam: o apoio ao campo bolsonarista, a escalada diplomática, as tarifas associadas ao conflito político, os atritos envolvendo representantes do Departamento de Estado, os questionamentos ao sistema eleitoral e a atuação internacional de Eduardo Bolsonaro. 

Nenhum deles comprova a preparação de uma futura contestação do resultado. Em conjunto, porém, explicam por que essa hipótese passou a integrar o debate político brasileiro. 

A virada de Lula 

É nesse ponto que a atuação de Lula ganha outro significado. 

Mais do que responder como candidato, o presidente passou a agir como chefe de Estado e a sustentar que o processo eleitoral brasileiro é assunto exclusivo dos brasileiros. 

Pode-se interpretar a crise como resultado de divergências entre governos ideologicamente opostos. Mas já é difícil separar completamente a campanha presidencial das disputas diplomáticas e geopolíticas que hoje envolvem Brasil e Estados Unidos. 

A verdadeira questão 

Em 1964, os brasileiros só compreenderam plenamente a dimensão da participação americana no golpe contra João Goulart quando documentos oficiais começaram a ser desclassificados. 

Em 2026, essa perspectiva histórica ainda não existe. Estamos acompanhando os acontecimentos enquanto eles se desenrolam. 

Por isso, prudência significa não transformar hipóteses em certezas — mas não ignorar sinais que merecem atenção. 

A democracia brasileira chega à primeira eleição presidencial depois da tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023 diante de uma pergunta inédita desde a redemocratização: 

o Brasil conseguirá realizar sua primeira eleição presidencial pós-8 de janeiro preservando a soberania nacional, a autoridade das instituições e o reconhecimento do resultado das urnas? 

A resposta pertence aos próximos meses de outubro ou novembro. 

Mas democracias não são testadas apenas quando seus cidadãos votam. 

São testadas quando todos — vencedores, derrotados e a comunidade internacional — aceitam que a vontade das urnas deve prevalecer. 

Gustavo Tapioca é jornalista formado pela UFBa e MA pela Universidade de Wisconsin. Ex-diretor de Redação do Jornal da Bahia. Assessor de Comunicação da Telebrás, Oficial de Comunicação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e do IICA/OEA. Autor de Meninos do Rio Vermelho, publicado pela Fundação Jorge Amado.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN

Gustavo Tapioca

Gustavo Tapioca é jornalista formado pela UFBa e MA pela Universidade de Wisconsin. Ex-diretor de Redação do Jornal da Bahia. Assessor de Comunicação da Telebrás, Oficial de Comunicação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e do IICA/OEA. Autor de Meninos do Rio Vermelho, publicado pela Fundação Jorge Amado.

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Recomendados para você

Recomendados