A disputa pelas urnas brasileiras
por Gustavo Tapioca
Em editorial publicado nesta sexta-feira, 7 de agosto, o Valor Econômico registrou uma constatação incomum: “Pela primeira vez nas eleições presidenciais desde a redemocratização, há interferência externa na disputa.”
A frase não encerra o debate sobre a dimensão dessa interferência. Mas registra um fato novo: a eleição brasileira deixou de ser observada apenas como um processo político interno.
Nos últimos meses, Lula passou a agir cada vez mais como chefe de Estado. Publicou artigo no Washington Post em defesa da soberania brasileira, intensificou o diálogo com Xi Jinping, conversou com Vladimir Putin e anunciou que pretende reunir-se também com Donald Trump durante a Assembleia Geral das Nações Unidas. Ao mesmo tempo, passou a afirmar que o Brasil não aceitará interferências externas em seu processo eleitoral.
Essa mudança tem uma história.
A tentativa de golpe
Em 8 de janeiro de 2023, oito dias depois da posse presidencial, o país assistiu à invasão das sedes dos Três Poderes por grupos que recusavam o resultado das eleições de 2022. As investigações revelaram uma articulação destinada a romper a ordem constitucional, vieram as condenações de Jair Bolsonaro e de integrantes da cúpula militar e tornou-se público o chamado Plano Verde e Amarelo, que previa o assassinato de Lula, do vice-presidente Geraldo Alckmin e do então presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Alexandre de Moraes.
Pela primeira vez desde a Constituição de 1988, uma tentativa de golpe de Estado foi investigada, julgada e punida pelo próprio Estado brasileiro.
Mas compreender a eleição de 2026 exige recuar ainda mais.
Operação Brother Sam
Em 1964, a intervenção americana no processo político brasileiro não começou quando as tropas saíram às ruas.
Documentos posteriormente divulgados mostram que Washington acompanhava havia anos o governo João Goulart. Em julho de 1962, John Kennedy discutiu com seus assessores opções militares para o Brasil. Em dezembro, enviou seu irmão Robert Kennedy, então procurador-geral dos Estados Unidos, para uma reunião de três horas com Goulart, na qual pressionou o presidente brasileiro a alterar a composição e os rumos de seu governo.
O jornalista Jamil Chade recuperou nesta semana esse episódio ao analisar a atual crise entre Brasília e Washington. Pesquisa do cientista político Anthony Pereira mostra que, frustrada a tentativa de persuadir Goulart, a política americana avançou, em 1963, para o apoio à sua derrubada.
Quando o golpe começou, Washington já havia preparado a Operação Brother Sam: uma força naval para a costa brasileira, combustível, armamentos e apoio aos militares golpistas caso encontrassem resistência.
A operação praticamente não precisou ser executada. O governo caiu antes.
Mas a preparação existia.
Essa talvez seja a principal lição daquele episódio: golpes não começam quando aparecem os tanques. Começam muito antes.
Como as Democracias Morrem
É evidente que 2026 não é 1964. O Brasil e o mundo mudaram.
Em Como as Democracias Morrem, Steven Levitsky e Daniel Ziblatt mostram que, no século XXI, democracias raramente desaparecem por quarteladas clássicas. Tendem a ser corroídas por dentro, pela deslegitimação dos adversários, pelo enfraquecimento das instituições e pela recusa em aceitar como legítima a vitória do oponente.
A pergunta, portanto, não é se 1964 vai se repetir.
É outra: estaria sendo preparado um ambiente político e internacional capaz de sustentar o questionamento da legitimidade de uma eventual vitória de Lula?
A resposta fora do Brasil
Em análise divulgada nesta semana, Jamil Chade classificou o momento atual como a maior ingerência contra a soberania brasileira desde 1964 e sustentou que a ofensiva americana ultrapassa o apoio eleitoral a Flávio Bolsonaro. Na sua interpretação, está em jogo a reafirmação da influência dos Estados Unidos sobre a América Latina.
A volta de Donald Trump à Casa Branca foi acompanhada por uma estratégia de fortalecimento da presença americana no hemisfério ocidental, simultaneamente à intensificação da disputa global com a China.
Essa mudança aparece nas pressões sobre Cuba, na operação militar que resultou na captura de Nicolás Maduro e Cilia Flores, na aproximação com governos ideologicamente alinhados e na criação de novos mecanismos de segurança regional.
Entre eles está o Escudo das Américas, acompanhado por uma força-tarefa coordenada pelo Comando Sul e integrada por dezoito países latino-americanos parceiros dos Estados Unidos. Argentina e Paraguai, por sua vez, aprofundaram a cooperação militar e de segurança com Washington.
Em conjunto, esses movimentos desenham uma nova configuração geopolítica da América do Sul.
A Joia da Coroa
Foi essa percepção que inspirou o artigo “O jogo mais importante para o futuro do Brasil já começou”. O mapa político mostrava quase toda a América do Sul governada por lideranças alinhadas, em maior ou menor grau, à nova política hemisférica de Trump. Restavam Uruguai e Brasil.
Mas há uma diferença decisiva.
O Uruguai tem pouco mais de três milhões de habitantes. O Brasil é a maior economia da América Latina, integrante dos BRICS, parceiro estratégico da China e principal potência regional.
Daí surgiu a ideia da Joia da Coroa: depois de ampliar sua influência sobre quase toda a América do Sul, o Brasil passava a representar a peça decisiva da disputa geopolítica no continente.
Os acontecimentos seguintes reforçaram essa percepção.
Donald Trump recebeu Flávio Bolsonaro em Washington. Marco Rubio intensificou críticas ao governo brasileiro e ao Supremo Tribunal Federal. Representantes do Departamento de Estado tentaram vir ao Brasil para discutir temas relacionados ao processo eleitoral, mas tiveram os vistos negados pelo governo brasileiro.
Washington revogou depois o visto da embaixadora Maria Luiza Ribeiro Viotti. A indicação do novo embaixador americano tornou-se outro foco de atrito, enquanto tarifas comerciais passaram a misturar-se com questões políticas.
No mesmo período, o Consulado dos Estados Unidos em São Paulo promoveu reuniões com influenciadores conservadores para discutir liberdade de expressão e ambiente digital.
E a campanha de Flávio Bolsonaro retomou um roteiro conhecido: questionamentos ao sistema eleitoral e às urnas eletrônicas, defesa de observadores estrangeiros e acusações de perseguição política.
Nenhum desses episódios, isoladamente, demonstra uma estratégia destinada a contestar o resultado da eleição.
Mas existe um efeito cumulativo.
Cada novo conflito reforça a narrativa de que as instituições brasileiras estariam comprometidas e de que uma eventual derrota poderia ser atribuída não ao voto popular, mas ao próprio sistema eleitoral.
A lógica lembra os Estados Unidos em 2020. A narrativa da fraude começou antes da votação e culminou na invasão do Capitólio, em 6 de janeiro de 2021. Dois anos depois, o Brasil viveria sua própria tentativa de ruptura institucional em 8 de janeiro de 2023.
Por isso, a pergunta deixou de ser apenas quem vencerá a eleição.
É também se todos aceitarão o resultado das urnas.
Eduardo e a Venezuela
Foi nesse ambiente que Eduardo Bolsonaro publicou, em 6 de agosto, um vídeo em inglês dirigido à “comunidade internacional”.
Ao comparar o Brasil à Venezuela e afirmar que Lula seguiria o caminho de Nicolás Maduro, Eduardo levou para o exterior um discurso até então dirigido principalmente aos apoiadores do bolsonarismo.
O movimento coincidiu com outra característica da campanha: Flávio Bolsonaro optou por uma chapa “puro-sangue”, exclusivamente do PL, em vez da ampla coalizão partidária tradicionalmente buscada por candidaturas presidenciais competitivas.
A aposta internacional
Há um paradoxo na reta final da campanha.
Quanto mais Flávio Bolsonaro encontra dificuldades para ampliar sua base política no Brasil, maior parece tornar-se sua importância para a estratégia internacional da administração Trump.
A dificuldade para construir alianças e o distanciamento de antigos aliados contrastam com a crescente aproximação com o trumpismo. O encontro de Flávio com Trump, a interlocução com integrantes da administração americana e a atuação internacional de Eduardo Bolsonaro projetam a candidatura para além das fronteiras brasileiras.
Isso não permite antecipar como a campanha ou seus aliados reagiriam diante de uma derrota.
Mas ajuda a compreender por que a eleição brasileira passou a integrar uma disputa política e geopolítica mais ampla.
E se Lula for reeleito?
Se Flávio Bolsonaro vencer, dificilmente seus apoiadores colocarão em dúvida o resultado das urnas.
E se Lula for reeleito?
Até o momento, Trump não declarou que deixará de reconhecer uma eventual vitória de Lula. Ao contrário: um alto funcionário do Departamento de Estado afirmou nesta sexta-feira, 7, que os Estados Unidos respeitarão “qualquer governo que o povo brasileiro escolha livremente por meio de eleições livres e justas”.
É uma declaração relevante e precisa ser considerada.
Mas não apaga os acontecimentos que a precederam: o apoio ao campo bolsonarista, a escalada diplomática, as tarifas associadas ao conflito político, os atritos envolvendo representantes do Departamento de Estado, os questionamentos ao sistema eleitoral e a atuação internacional de Eduardo Bolsonaro.
Nenhum deles comprova a preparação de uma futura contestação do resultado. Em conjunto, porém, explicam por que essa hipótese passou a integrar o debate político brasileiro.
A virada de Lula
É nesse ponto que a atuação de Lula ganha outro significado.
Mais do que responder como candidato, o presidente passou a agir como chefe de Estado e a sustentar que o processo eleitoral brasileiro é assunto exclusivo dos brasileiros.
Pode-se interpretar a crise como resultado de divergências entre governos ideologicamente opostos. Mas já é difícil separar completamente a campanha presidencial das disputas diplomáticas e geopolíticas que hoje envolvem Brasil e Estados Unidos.
A verdadeira questão
Em 1964, os brasileiros só compreenderam plenamente a dimensão da participação americana no golpe contra João Goulart quando documentos oficiais começaram a ser desclassificados.
Em 2026, essa perspectiva histórica ainda não existe. Estamos acompanhando os acontecimentos enquanto eles se desenrolam.
Por isso, prudência significa não transformar hipóteses em certezas — mas não ignorar sinais que merecem atenção.
A democracia brasileira chega à primeira eleição presidencial depois da tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023 diante de uma pergunta inédita desde a redemocratização:
o Brasil conseguirá realizar sua primeira eleição presidencial pós-8 de janeiro preservando a soberania nacional, a autoridade das instituições e o reconhecimento do resultado das urnas?
A resposta pertence aos próximos meses de outubro ou novembro.
Mas democracias não são testadas apenas quando seus cidadãos votam.
São testadas quando todos — vencedores, derrotados e a comunidade internacional — aceitam que a vontade das urnas deve prevalecer.
Gustavo Tapioca é jornalista formado pela UFBa e MA pela Universidade de Wisconsin. Ex-diretor de Redação do Jornal da Bahia. Assessor de Comunicação da Telebrás, Oficial de Comunicação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e do IICA/OEA. Autor de Meninos do Rio Vermelho, publicado pela Fundação Jorge Amado.
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