Judeus pela utopia e a memória de um insubmisso: lições do pensamento de Leôncio Basbaum para hoje
por Ivonaldo Neres Leite[1]
Em geral, todos seres humanos, ao atingirem uma certa idade, variável para uns e para outros, até mesmo sem desejarem, “começam a refletir sobre o seu passado e a perguntar, por vezes, a si mesmos: valeu a pena ter vivido? Que fiz eu por mim e pelos meus semelhantes? As horas de felicidade superaram as horas de amargura?”
São essas as palavras e questões com as quais Leôncio Basbaum (1907 – 1969) abre a sua obra Uma Vida em Seis Tempos – o seu livro de memórias. Como ele próprio afirma, as respostas a tais indagações dependem do que se pretendeu na vida, do que se considera importante e válido, do caráter do sentimento que se tem. Ademais, podemos acrescentar, depende, também, do ‘contexto originário’ de cada um. E esse é, em significativa medida, o caso dele.
Filho de imigrantes judeus, Basbaum nasceu em Recife a 6 de Janeiro de 1907. Espaço de acolhimento de vastos contingentes da imigração judaica (tanto sefardita como asquenaze), criou-se em Pernambuco, a dada altura, uma ‘ambiência de terra prometida’, a ponto de se assinalar a existência de uma ‘Jerusalém Pernambucana’[2]. E isso não se tratou de algo circunscrito a Recife, mas se espalhou pelo interior pernambucano, na démarche de intercorrências históricas que levaram judeus a viver em comunidades rurais isoladas no Agreste do estado, sendo exemplificativo disso a própria ascendência do autor do presente artigo. De resto, Pernambuco foi sempre uma arena revoltosa, dando prova a esse respeito a Guerra dos Mascates, a Batalha de Tejucupapo, a Revolução Republicana de 1817, a Confederação do Equador e a Revolução Praieira.
Foi nesse território de insubmissão que Leôncio Basbaum nasceu. Não apenas biologicamente, dado que nascer como ser social é mais do que isso. Nasce-se aos poucos, na medida em que se vai tomando consciência do mundo, integrando-se e totalizando-se nele. Sob essa ótima, Basbaum nasceu cedo. Registra ele, em suas memórias, o seguinte: “Certa manhã, estava eu à porta da loja – uma pequena joalheria e oficina ourives que meu pai possuía na rua da Imperatriz, em Recife, onde eu aparecia todos os dias, quando não havia aula, para ajudar em alguma coisa e aprender o ofício -, quando ouvi, ao longe, o som de uma banda de música que mal sufocava o alarido humano, que se vinha aproximando, partindo dos lados da Praça Maciel Pinheiro […]. Era o dia 11 de novembro de 1918 e eu tinha completado 11 anos de idade uma semana antes. […] Havia sido assinado o armistício e terminara a [Primeira] Guerra na Europa […]. Não resisti a onda envolvente de alegria e entusiasmo, e juntei-me à multidão que gritava: ‘Viva o Brasil!’ ‘Viva a França!’ ‘Viva os Aliados!’ ‘Abaixo a Alemanha!’ Quando dei por mim, já estávamos na Rua do Imperador, bem longe de casa […]. Nem lembrava que meus pais e irmãos deviam estar preocupados com a minha longa ausência. Mas já me sentia outro. O mundo me envolvera, ou eu me envolvera nele, com os seus problemas. Essa passeata exerceu profunda influência no meu futuro[3].”
E como foi intenso o seu futuro! Aos dezesseis anos, mudou-se para o Rio de Janeiro para cursar medicina, curso que concluiu, mas, salvo atuações breves, não chegou a exercer plenamente a profissão de médico. Abraçou-se e foi abraçado pela política, pelas letras, pela atividade intelectual, etc. Em 1926, aos 19 anos, ingressou no recém-fundado (1922) Partido Comunista Brasileiro (PCB) e foi um dos fundadores da Juventude Comunista (1927), tendo sido eleito o seu secretário-geral. Foi um dos representantes do PCB no VI Congresso da Internacional Comunista, realizado em Moscou (1928), e chefiou a delegação do partido na I Conferência Latino-americana dos Partidos Comunistas (1929), em Buenos Aires. Nessa oportunidade, estando Luís Carlos Prestes a viver na Argentina, Basbaum foi encarregado de estabelecer contacto com ele, no sentido de que, a partir de um programa, Prestes fosse o candidato a presidente do PCB nas eleições presidenciais de 1930. Diante da recusa de Prestes em assumir determinadas propostas, o entendimento não prosperou.
Entre 1928 e 1932, Leôncio Basbaum foi preso quatro vezes, tendo sofrido outras detenções políticas posteriormente. Manteve uma relação de convergência e divergência com as linhas de atuação do PCB, principalmente quando “saiu de cena” a primeira geração (fundacional) do partido e ascenderam outros dirigentes, como Diógenes Arruda, a quem Basbaum chamou de ‘Stalin brasileiro’. A sua coerência política e o seu compromisso com a causa da emancipação humana (em função das quais, aliás, pagou um alto preço pessoal) não o levaram à renúncia do pensamento crítico-analítico, pelo que questionou, em diversas oportunidades, posições partidárias, tendo sido, por isso, remetido ao ostracismo pelo aparelho burocrático dirigente[4]. Não obstante a dimensão e o valor da sua contribuição para a vida partidária, tanto política como até mesmo material – a exemplo do seu papel em “fazer finanças” para o PCB e de ter abrigado Prestes em sua residência por quase um ano, após ele sair da prisão em 1945. Os seus questionamentos o levaram, em definitivo, ao afastamento do partido, mas o tempo (a História) deu-lhe razão quanto à natureza das suas críticas.
Do seu pensamento autônomo e insubmisso, nasceu uma vasta obra, sendo exemplo disso trabalhados como História Sincera da República (quatro volumes); Sociologia do Materialismo (publicado incialmente, na Argentina, como Los Fundamentos del Materialismo); O Processo Evolutivo da História; No Estranho País dos Iugoslavos; História e Consciência Social; Alienação e Humanismo; Caminhos Brasileiros do Desenvolvimento. Trata-se de uma obra ampla; em muitos casos, ignorada, e, em outros, simplesmente desconhecida. Por outro lado, as poucas abordagens a respeito dela, em geral, padecem de um dos problemas da especialização acadêmica, qual seja: a captura fragmentada de passagens e a extração descontextualizada de ilações. Dessa forma, há abordagens que se caracterizam, substancialmente, como meras descrições de fatos (sem escrutínio) e há outras que, extraindo ilações em modo de pinceladas, qualificam a obra de Basbaum, em sua totalidade, como defasada. Quer em um caso, quer em outro, no mais das vezes, são abordagens tributárias de leituras politicistas, que não conseguem enxergar para além da esfera do político tout court.
Se há uma homenagem que pode ser prestada a ele, às vésperas dos 120 anos do seu nascimento, essa diz respeito a evitar o referido tipo de enfoque acerca do seu pensamento. Concebendo-o, então, sob outra perspectiva, isto é, sob uma perspectiva ontológica.
A propósito das perguntas de Basbaum, realçadas no início deste artigo, sobre, ao se realizar um balanço da vida, indagar-se se ‘valeu a pena viver’, eu afirmei, na sequência de como ele respondeu as indagações, que a resposta depende, também, do ‘contexto originário’ de cada um, e que esse seria, em significativa medida, o caso dele. A primeira face do contexto originário seu foi o “revoltoso território pernambucano”, com a passeata celebrando o fim da Primeira Guerra Mundial ‘levando o mundo a lhe envolver e ele a se envolver com o mundo e os seus problemas’, fato este marcante, conforme as suas próprias palavras, para o seu futuro. Mas há outra face do seu contexto originário que requer mais argúcia na sua identificação, e tem relação com a sua origem judaica, mesmo tendo sido ele um judeu secular – o que, de resto, não é variável determinante para a definição da pertença ou não à condição judaica.
É essa segunda face que demanda uma perspectiva ontológica na apreciação da obra de Leôncio Basbaum. Mutatis mutandis, trata-se de ter em atenção uma postura analítica semelhante à adotada por Michael Löwy na sua pesquisa sobre os ‘judeus libertários’ da Europa Central, postura que, ao mobilizar o conceito de afinidade eletiva, evidenciou, entre eles, uma relação vinculando a redenção judaica e o romantismo anticapitalista (a utopia). Löwy demonstrou isso no tocante, por exemplo, a Walter Benjamin, Ernst Blcoh, György Lukács e Erich Fromm[5]. Quanto a Basbaum, em mais de um momento da sua ampla obra, encontramos indicações semelhantes.
A propósito, é significativa a dedicatória que ele faz do livro Alienação e Humanismo: “Ao homem desconhecido; aos milhões de seres humanos anônimos que, no decurso da História, como partes das massas, das multidões, dos exércitos, dos povos, nasceram, lutaram, morreram, sem deixar rastros; aos milhões de escravos sem nome que, com suas mãos, tudo fizeram; aos que foram e nada são, mas que um dia serão tudo […]”[6]. Soa bastante consistente, aí, o que se espera da Era de Mashiach e a sua relação com o romantismo revolucionário, a busca pela realização da utopia. Na introdução do livro, ao tratar do seu objetivo, ele é ainda mais revelador no referido sentido: “O objetivo deste trabalho […] é descobrir as causas fundamentais da alienação a que o homem [ser humano] foi lançado no processo do desenvolvimento histórico das sociedades humanas; mostrar que o homem não está totalmente perdido nesse emaranhado das relações econômico-sociais resultantes da evolução histórica; e que é possível salvá-lo[7] […]”.
Eu poderia reproduzir outras citações com o mesmo foco, mas o já exposto é suficiente para sustentar a hipótese da afinidade eletiva relacionando a redenção judaica e a utopia no pensamento de Basbaum. Dito isso, afirmando uma perspectiva ontológica acerca das suas abordagens, é preciso extrair três inferências delas, úteis à reflexão no debate social e político progressista hoje.
A primeira é que a sua concepção emancipatória, principalmente nos seus últimos trabalhos, não se circunscreve ao escopo de um projeto político-partidário e ideológico – em sentido estrito. A sua apreciação do chamado socialismo real é bastante sugestiva a esse respeito. Diz-nos ele, ao falar sobre como nasceu o livro Alienação e Humanismo: “A ideia deste ensaio surgiu ainda em 1961, quando da visita que fiz a alguns países socialistas do leste europeu. Refletindo sobre o que então vi e ouvi, comecei a compreender que o socialismo, tal como fora posto em prática nesses países, havia resolvido, realmente, muitos problemas sociais e humanos, mas não todos. E, entre eles, o da alienação e do humanismo. Verifiquei que a contradição homem versus sociedade não havia sido resolvida, mas apenas posta a nu mais incisivamente[8] […]” [grifos do autor]. Por suposto, aí está em causa, entre outras questões, os temas da liberdade e do significado da democracia. Ele viu nos anos 1960, no auge da Guerra Fria, o que, até hoje, alguns setores de esquerda têm dificuldade de enxergar, mesmo após a queda do muro de Berlim há já quase quarenta anos. Quer dizer, a sua perspectiva emancipatória assume um caráter de emancipação humana integral.
A segunda inferência diz respeito à degeneração dos aparelhos burocráticos partidários – e também de movimentos sociais, pode ser dito -, supostamente comprometidos com a “mudança social”, mas que se transformam em campo fértil para o arrivismo e para a busca de proveito pessoal, tornando-se burocracias oligarquizadas movidas a oportunismo. A crítica nesse sentido foi, possivelmente, uma das mais duras que Basbaum dirigiu a determinados dirigentes do PCB, diante dos descaminhos do partido. Afirmou ele: “haviam transformado o PC em um meio de vida”[9]. Denominou-os de ‘pulgas’.
A terceira inferência corresponde ao desastre que é o anti-intelectualismo em “ambientes de esquerda”; o desprezo pelos livros e pela reflexão, em nome da “prática”; a rejeição aos intelectuais, para que prevaleça “a palavra do povo”; negar o direito a alguém, externo a um grupo subjugado, de falar sobre as injustiças que ele sofre, mesmo quando esse alguém desenvolve estudos e pesquisas sobre tal grupo, ou seja, mesmo que tenha inteligibilidade sobre ele. Esse enviesamento e apologia à ignorância, na história do PCB, chamou-se obrerismo, significando o expurgo da sua direção de quem demonstrasse qualquer ‘característica intelectual’, para dar lugar apenas a operários. Basbaum foi objeto dessa purga e combateu o obrerismo firmemente.
Narrando os acontecimentos em torno do obrerismo no partido, ele afirmou: “uma Conferência Nacional, ou melhor, uma reunião ampliada do Comitê Central, que durara dois dias, havia destituído dos cargos todos os seus antigos membros intelectuais, eu inclusive […]. Os intelectuais, agora, deviam receber ordens dos operários”[10]. E definindo o que representava o obrerismo, enfatizou: “era um […] desvio, uma incompreensão da proletarização, o desprezo pelos aliados de classe, sobretudo pelos intelectuais, endeusamento do operário […], copiar modos de vida e comportamento dos operários, principalmente os mais atrasados do ponto de vista político”[11].
O PCB pagou um elevado preço por esse desatino. Dessa forma, reiterar a inferência sobre o desastre que é o anti-intelectualismo em ambientes de esquerda afigura-se relevante num tempo, como o atual, em que o extremismo identitarista se veste de roupas similares ao obrerismo.
Mais do que um enfoque histórico, enfim, sobre a obra de Leôncio Basbaum, importa regressar ao seu pensamento de forma ontológica, tendo em atenção a afinidade eletiva entre redenção e utopia, num exercício de rememoração (zichron) que consiste em tornar o passado vivo e presente.
[1] Sociólogo, com Doutorado pela Universidade do Porto/Portugal e Pós-doutorado no Departamento de Sociologia da Facultad de Ciencias Sociales de la Universidad de la República/Montevideo; é professor na Universidade Federal da Paraíba. De ascendência sefardita/criptojudaica.
[2] A propósito, ver, por exemplo: VAINFAS, Ronald. O fim da Jerusalém Pernambucana, in Revista del CELSA, nº 29, 2022. Disponível em: https://www.redalyc.org/journal/2433/243371957010/243371957010.pdf; VAINFAS, Ronald. Jerusalém Colonial: Judeus portugueses no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010. Para um panorama da ampla presença judaica em Pernambuco, ver RIBEMBOIM, Jacques. História dos Judeus de Pernambuco. Recife: CEPE, 2023.
[3] Cf. BASBAUM, Leôncio. Uma vida em seis tempos. 2 ed. São Paulo: Alfa-Omega, 1978, pp. 17-18.
[4] Hersch W. Basbaum, filho de Leôncio Basbaum, fez vir a lume um livro muito ilustrativo a respeito da trajetória de divergências e questionamentos do pai em relação ao PCB, reproduzindo cartas que ele dirigiu ao Comitê Central. Ver, BASBAUM, Hersch. Cartas ao Comitê Central: História sincera de um sonhador. São Paulo: Discurso Editorial, 2009.
[5] Ver LÖWY, Michael. Redenção e utopia: o judaísmo libertário na Europa Central. Tradução: Paulo Neves. São Paulo: Perspectiva, 2020.
[6] Cf. BASBAUM, Leôncio. Alienação e humanismo. 4 ed. São Paulo: Global, 1981, p. 11.
[7] Ibid., p. 14.
[8] Ibid., p. 14.
[9] Cf. BASBAUM, Leôncio. Uma vida em seis tempos. 2 ed. São Paulo: Alfa-Omega, 1978, p. 208.
[10] Ibid., p. 94.
[11] Ibid. 94.
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