27 de agosto de 2026

Aquecimento provocado por combustíveis fósseis intensifica El Niño, aponta estudo

Pesquisa publicada na Science mostra que variabilidade do fenômeno climático aumentou 37% em relação ao período pré-industrial
Super El Niño - Reprodução

Aquecimento global intensifica El Niño, aumentando riscos de secas, enchentes e insegurança alimentar globalmente.
Estudo com corais das Galápagos mostra aumento de 37% na variabilidade do El Niño desde o período pré-industrial.
Fenômeno “Godzilla” deve atingir pico em 2026/27, podendo afetar 50 milhões com fome aguda, alerta Programa Mundial de Alimentos.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

O aquecimento global provocado pela queima de combustíveis fósseis está tornando os episódios de El Niño mais intensos, ampliando os riscos de secas, enchentes, ondas de calor e insegurança alimentar em diferentes regiões do planeta. É o que aponta um estudo publicado na revista Science, que analisou registros climáticos preservados em corais fósseis das ilhas Galápagos.

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O resultado ajuda a esclarecer uma questão que permanecia em aberto na ciência climática: em que medida o aquecimento provocado pela atividade humana estaria alterando o comportamento do El Niño, fenômeno natural que ocorre a cada dois a sete anos e é caracterizado pelo aquecimento das águas do Pacífico tropical central e oriental.

Segundo a pesquisa, a variabilidade dos episódios de El Niño aumentou 37% em relação ao período pré-industrial. A mudança se tornou especialmente evidente nas últimas quatro décadas, quando os eventos passaram a apresentar intensidade muito maior do que aquela observada nos mil anos anteriores.

A análise foi possível porque os corais das Galápagos preservam, em sua composição química, informações sobre as temperaturas da superfície do mar existentes durante seu crescimento. Como o arquipélago está localizado em uma região particularmente sensível ao El Niño, os fósseis funcionam como uma espécie de registro natural da evolução do fenômeno.

El Niño mais extremo amplia riscos para alimentos e clima

O fenômeno climático já é responsável por alterações importantes nos padrões de chuva e temperatura em diferentes partes do mundo. Durante episódios fortes, o enfraquecimento dos ventos alísios permite que águas mais quentes se desloquem em direção ao Pacífico oriental, desencadeando uma cadeia de efeitos atmosféricos.

Na América do Sul e no sul dos Estados Unidos, o El Niño costuma aumentar as chuvas e o risco de enchentes. Já Índia, Indonésia e Austrália tendem a enfrentar condições mais secas. Na Amazônia, períodos de El Niño estão associados a temperaturas mais altas, redução das chuvas e aumento do risco de incêndios.

O episódio atualmente em desenvolvimento é considerado excepcionalmente forte. Informalmente chamado de “Godzilla”, o fenômeno deverá atingir seu pico entre o final deste ano e o início de 2027. A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) já apontou uma probabilidade superior a 90% de que o evento seja muito forte, enquanto outras previsões indicam que ele poderá figurar entre os maiores registrados desde o início das medições modernas.

Os impactos não ficam restritos ao clima. Uma análise do Programa Mundial de Alimentos (WFP) divulgada em agosto estima que cerca de 50 milhões de pessoas poderão ser empurradas para uma situação de fome aguda até o fim de 2027 em razão dos efeitos do El Niño sobre a produção agrícola.

O WFP identificou 225 milhões de pessoas em situação de insegurança alimentar aguda em 45 países e estima que o fenômeno possa acrescentar mais de um quinto a esse contingente. América Central e do Sul, Caribe e África Austral estão entre as regiões consideradas mais vulneráveis.

O risco também passa pelos preços dos alimentos. Secas e perdas agrícolas podem reduzir a oferta de produtos básicos, pressionando mercados internacionais e afetando especialmente populações que já enfrentam insegurança alimentar.

A importância do novo estudo está justamente em demonstrar que o El Niño não deve mais ser analisado isoladamente como um fenômeno natural independente da crise climática.

Grandes episódios de El Niño já provocaram saltos nas temperaturas médias globais em anos como 1998, 2016 e 2024, mas o que a nova pesquisa indica é que esse mecanismo está ocorrendo sobre uma base climática cada vez mais quente. Dessa forma, o aquecimento provocado pela emissão de gases de efeito estufa aumenta a intensidade e a variabilidade do próprio fenômeno que, por sua vez, libera mais calor para a atmosfera.

Para os pesquisadores, a consequência é uma combinação particularmente perigosa: eventos naturais capazes de alterar o clima global passam a ocorrer em um planeta já aquecido pela atividade humana.

Com informações do The Guardian

Tatiane Correia

Jornalista, MBA em Derivativos e Informações Econômico-Financeiras pela Fundação Instituto de Administração (FIA). Com passagens pela revista Executivos Financeiros e Agência Dinheiro Vivo. Repórter do GGN desde 2019.

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