7 de setembro de 2026

Na Amazônia, faltam diagnósticos antes das obras nas “hidrovias”, por Augusto Rocha

Existe uma abundância de rios, com trânsito expressivo de embarcações por estas “hidrovias”, entre aspas, porque não são hidrovias verdadeiras
Barcaça no rio Madeira - Reprodução

Debate sobre seca na Amazônia carece de diagnósticos aprofundados antes das obras nas chamadas “hidrovias”.
DNIT investe R$ 92,8 milhões em dragagem no Rio Amazonas, mas faltam estudos técnicos que comprovem eficácia.
Projetos priorizam interesses econômicos e cobram taxas, sem considerar populações locais e complexidade ambiental.

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Na Amazônia, faltam diagnósticos antes das obras nas “hidrovias”

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por Augusto Cesar Barreto Rocha

O debate sobre a seca na Amazônia segue seca de propostas. As que existem são atiradas ao vento das ideias como se fossem soluções prontas para problemas não compreendidos. Fico com a impressão de que o que vemos são aproveitadores, tentando vender seus projetos, sem muita conexão com o problema. Há falta de calado no Rio Amazonas? Vende-se dragagem. Não importa se a dragagem resolve ou não. Outros vendem a taxa de seca. Não importa se há correlação entre o aumento de custo da operação e o que é cobrado, afinal abriu-se uma chance de cobrar mais caro e apenas de alguns. Outros ainda vendem a privatização do rio, chamando-a de concessão. Não importa se isso é a solução, afinal há um caminho para cobrar-se um pedágio.

O problema nem foi compreendido em toda a sua extensão, por ser um problema de alta complexidade e pouco dominado, mas cada um vai vendendo o que tem para vender, como unguentos para doenças. Muita solução para pouco diagnóstico. Muito jeito de transferir dinheiro da Amazônia para o exterior, para o Sudeste, para empresários, para impostos e pouca ou nenhuma preocupação com os interesses da sociedade da Amazônia. Pouco ou nenhum interesse para o que pensam os índios, os ribeirinhos ou os moradores locais. Há um impor de agenda por aqueles que detêm o poder do capital, dos cargos executivos multinacionais ou nacionais.  Em meio a isto o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente informou na semana passada que o planeta ultrapassará o 1,5ºC de aquecimento acima do nível pré-industrial “provavelmente nos próximos anos”.

Por aqui, há conversas, mas não há escutas. Há prescrições sem diagnósticos. Quando muito, há diagnósticos apressados e recorrentes. Conectados com outros problemas de outras realidades. Por isso no Norte do Brasil não há hidrovias. O que existe é uma abundância de rios, com trânsito expressivo de embarcações por estas “hidrovias”, assim entre aspas, porque não são hidrovias verdadeiras. São caminhos da natureza que permitem o trânsito da economia na Amazônia, enquanto há um ignorar de necessidades. A preocupação surge apenas no sentido de buscar oportunidades para o capital e pouco para enfrentar o problema pela perspectiva das necessidades das pessoas.

Até quando seguiremos neste modelo? Em um mundo que aquece mais a cada dia, no Rio Amazonas, o DNIT está alocando R$ 92,8 milhões, movendo 1,8 milhões de metros cúbicos, em um trecho de aproximadamente 200km. Sigo sem acreditar que esta solução é apropriada. Não consigo perceber estudos publicados e revisados por pares que demonstrem a efetividade ou viabilidade. Estudos técnicos mais profundos seriam muito mais baratos, mas não são feitos. Mais baratos? Sim. Há propostas que custam cerca de R$ 30 milhões para o ciclo de cinco anos, que levaria a uma compreensão do problema, antes da ação que apresenta impactos e custos. Mas, mesmo assim, seguimos fazendo obras de grande impacto para um efeito incerto e, muito provavelmente, nulo na solução da causa do problema.

 A boa-vontade está na fala das pessoas, mas as ações seguem erradas para a Amazônia. Seguimos com a gestão de Brasília a ignorar a Amazônia. Seguimos com empresas cobrando taxas da seca. Seguimos com o Custo Amazônia se empilhando ao Custo Brasil. Falta pensar para agir. O calor das redes sociais está invadindo a política e a gestão. Precisaremos repensar a forma de conceber o Estado, para que a institucionalidade não se perca na emoção da ação rápida, onde os marcos de democracia se perdem. O problema de distanciamento da política pública da sociedade anda hoje em dia distante em muitas dimensões. Também na dimensão da seca de ideias e de ideais para as “hidrovias”.

Augusto Cesar Barreto Rocha – Professor da UFAM.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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Augusto Cesar Barreto Rocha

Augusto César Barreto Rocha é Professor Associado da UFAM. Possui Doutorado em Engenharia de Transportes pela UFRJ (2009), mestrado em Engenharia de Produção pela UFSC (2002), especialização em Gestão da Inovação pela Universidade de Santiago de Compostela-Espanha (2000) e graduação em Processamento de Dados pela UFAM (1998).

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