14 de setembro de 2026

Dragagem no Amazonas: investimento milionário ou desperdício anunciado?, por Augusto Rocha

Com boa-vontade e diligência, gastaremos mais de R$ 90 milhões numa operação que é provável que seja, em boa medida, inútil.
Dragagem do Amazonas - DNIT - Reprodução

Há seca na Amazônia e redução dos rios, causando transbordo e aumento de custos no transporte para Manaus.
Será realizada dragagem no rio Amazonas com custo de R$ 90 milhões, mas há dúvidas sobre sua eficácia.
Falta estudo técnico adequado para solução definitiva; atual obra pode ser inútil diante da seca causada pelo El Niño.

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Dragagem no Amazonas: investimento milionário ou desperdício anunciado?

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por Augusto Cesar Barreto Rocha

Há seca na Amazônia. Há redução no nível dos rios. É quase certo que haverá transbordo de contêineres próximo à Itacoatiara, no trânsito dos navios de cabotagem e longo curso que transportam contêineres com destino Manaus. Com isso, os custos da seca aumentarão e teremos uma repetição do que aconteceu em 2024. Nestes últimos anos, entre o caos logístico de 2023, o arranjo de 2024 e a seca mais amena de 2025, aprendemos bastante como sociedade, mas ainda fizemos menos do que o necessário.

Novamente se planeja e se executa uma dragagem. Com boa-vontade e diligência, gastaremos mais de R$ 90 milhões numa operação que é provável que seja, em boa medida, inútil. É um enorme esforço operacional, com delimitação mais cautelosa da área, por parte da Marinha, com realização do DNIT com um equipamento mais apropriado, diferenciando o improviso de 2023, mas, ao final, com um desfecho que será, provavelmente, muito semelhante ao que aconteceu em 2024: o maior rio do mundo, com um volume gigante de água, terá dois trechos de restrição que impedirão a navegação das grandes embarcações.

É uma pena, pois seguiremos fazendo uma obra cara, sem um estudo prévio compatível com a necessidade que verifique qual a obra mais acertada para ser feita. Tudo isso parece ótimo para a mídia rápida. Inútil para a vida empresarial que depende deste tipo de trânsito, afinal será difícil de evidenciar uma análise Custo-Benefício adequada, que é o método preconizado na literatura da Engenharia Civil e Hidroviária para obras públicas de grande porte. Afinal, mesmo com a dragagem, a “hidrovia” deixará de operar para a navegação de maior calado.

Os custos serão enormes. A interrupção servirá novamente de argumento para a concessão, por mais que não existam estudos demonstrando que a concessão resolve. E, claramente, a concessão, em minha opinião, não resolve. A causa do problema é a seca provocada pelo El Niño, que parece agora ser um consenso amplo. Tivemos um ano de alívio e parece que esquecemos do problema. Voltamos a fazer o que não resolve, como se não tivéssemos visto a inutilidade de 2023 e 2024. Gasta-se muito com obra ineficaz, mas não se estuda qual seria a obra eficaz. Em minha opinião uma hipótese seria investigar o efeito do aprofundamento do canal como solução perene e que acabe com as dragagens.

Mesmo apresentando uma hipótese, que não sei se é válida, sigo com a percepção de que ninguém tem clareza e evidências de Engenharia sobre qual a solução para o problema, com documentação ampla e que não seja facilmente refutada. Enquanto não houver este estudo, o que teremos são soluções para redes sociais. Não temos soluções para a economia real ou para a logística da indústria amazonense. É oportuno começarmos a enfrentar o assunto de frente.

Minimamente, este artigo poderá se mostrar errado em 15/11/2026, caso a dragagem seja eficaz e a navegação não tenha sido interrompida. Por outro lado, poderemos, no dia da República, voltar ao tema da importância do debate republicando sobre o que interessa aos amazonenses no que diz respeito à Engenharia Hidroviária do Rio Amazonas, no entorno da Foz do Rio Madeira e da região do Tabocal: afirmando que em setembro de 2026 havíamos documentado publicamente que a dragagem seria inútil e se desperdiçou mais um ano e mais alguns milhões de reais.

Augusto Cesar Barreto Rocha – Professor da UFAM.

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Augusto Cesar Barreto Rocha

Augusto César Barreto Rocha é Professor Associado da UFAM. Possui Doutorado em Engenharia de Transportes pela UFRJ (2009), mestrado em Engenharia de Produção pela UFSC (2002), especialização em Gestão da Inovação pela Universidade de Santiago de Compostela-Espanha (2000) e graduação em Processamento de Dados pela UFAM (1998).

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1 Comentário
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  1. alfredo machado

    14 de setembro de 2026 10:24 am

    Ótimo comentário, por parte de quem conhece a questão. Traz uma chance para evitar o habitual improviso.

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