5 de outubro de 2026

Nuvens nacionais e os caminhos do capitalismo brasileiro, por Augusto Rocha

Até que ponto as pessoas de fato entendem que a soberania nacional é algo fundamental é uma pergunta relevante nos dias de hoje?
O triunfo da morte - autor desconhecido

O modelo brasileiro de financiamento tecnológico não apoia centros de dados nacionais, favorecendo vendas a estrangeiros.
A perda de soberania nacional ocorre em dados, redes sociais e educação, ampliando influência estrangeira no Brasil.
A elite econômica nacional prefere concessões a estrangeiros, limitando o desenvolvimento de um capitalismo tecnológico brasileiro.

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Nuvens nacionais e os caminhos do capitalismo brasileiro

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por Augusto Cesar Barreto Rocha

              Semana passada, neste espaço, refleti sobre o quanto é fundamental a construção de muitos centros de dados com armazenamento no país. A soberania precisa ser retomada para o armazenamento de dados. Todavia, há capital e tecnologias nacionais para isso? O modelo de financiamento tecnológico nosso atende a este tipo de oportunidade?

              Claramente o modelo atual de financiamento brasileiro não trata este tipo de questão. O governo e o ambiente privado não colocam recursos neste tipo de empreendimento. Todos aqueles que tenham interesse em construir negócios de alta tecnologia são pouco a pouco empurrados para uma venda para empresas estrangeiras e há um entendimento geral de que isso é positivo.

              Prevalece no país uma prática e uma cabeça de colônia. Tanto é que as eleições apresentam resultados expressivos nesta direção. Ouvimos pessoas nas ruas falando com naturalidade sobre a importância de ter um país estrangeiro indicando o que fazer por aqui. Até que ponto as pessoas de fato entendem que a soberania nacional é algo fundamental é uma pergunta relevante nos dias de hoje?

              Além da soberania no território físico e da dinâmica dos dados surge ainda a questão das relações sociais. As chamadas “redes sociais” realizam a intermediação da informação de todos com todos. Se um regime totalitário nacional é perigoso e inaceitável, por que um regime semelhante estrangeiro também não seria? Estamos pouco a pouco perdendo a soberania em vários campos, enquanto os centros tecnológicos e de pensamento sociológico vão sendo minados e desabastecidos de recursos.

              A opção de redução de gastos – a chamada “austeridade” – ou mesmo a transferência da educação para empresas privadas estrangeiras vai construindo uma teia de oportunidades de transferência de capital para o exterior. E isso viabilizará “nuvens” para armazenamento de dados nacionais? De maneira alguma. A ideia fixa de concessões e de estrangeiros no comando está tomando conta da elite capitalista nacional.

              A dificuldade que existe neste modelo é que o espaço para o capitalismo nacional vai se reduzindo, pois criaremos famílias ricas, com empreendimentos pontuais, mas sem a capacidade de negócios transnacionais com base no Brasil. Quando surge um ou outro empreendimento com esta capacidade, os olhares sempre são críticos. Parece que o capitalismo não nos cabe ou não seria aceitável para brasileiros.

               A geração de riqueza em grande escala depende de tecnologia avançada, de compreensão das dinâmicas sociais e de redes empresariais alinhadas a governos soberanos. Sem tecnologia própria, o país perde capacidade de inovação. Sem compreensão social, perde capacidade de coordenação. Sem soberania política, perde capacidade de decisão. Fora dessa articulação, reaparece o velho modelo colonial ou feudal, rebatizado no mundo contemporâneo como “tecnofeudalismo” por Yanis Varoufakis, ex-ministro das Finanças da Grécia. Ao invés de construir um capitalismo brasileiro, a elite econômica nacional parece preferir transformar o país em feudo de corporações estrangeiras.

Augusto Cesar Barreto Rocha – Professor da UFAM.

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Augusto Cesar Barreto Rocha

Augusto César Barreto Rocha é Professor Associado da UFAM. Possui Doutorado em Engenharia de Transportes pela UFRJ (2009), mestrado em Engenharia de Produção pela UFSC (2002), especialização em Gestão da Inovação pela Universidade de Santiago de Compostela-Espanha (2000) e graduação em Processamento de Dados pela UFAM (1998).

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