O governo brasileiro acusou o presidente da Argentina, Javier Milei, de tentar interferir nas eleições presidenciais do Brasil, após o líder argentino insinuar que o presidente Lula poderia fraudar o resultado do segundo turno, marcado para domingo (25). Em manifestação oficial, o Itamaraty classificou as declarações como uma tentativa inaceitável de ingerência externa no processo democrático brasileiro.
Na terça-feira (20), Milei publicou na rede social X um trecho de uma entrevista concedida por Lula ao SBT e escreveu que esperava que o “último truque sujo de campanha” não incluísse “roubar a eleição”. O argentino também compartilhou um trecho do debate entre Lula e Flávio Bolsonaro (PL), no qual atacou o presidente brasileiro.
As declarações provocaram uma reação do Ministério das Relações Exteriores, que acusou Milei de reproduzir mentiras disseminadas por grupos que perderam as eleições de 2022 e participaram da tentativa fracassada de golpe de Estado.
O Itamaraty também rebateu as insinuações contra o sistema eleitoral brasileiro, afirmando que o voto eletrônico é seguro, nunca registrou irregularidades que comprometessem sua integridade e teve sua confiabilidade reconhecida por observadores eleitorais internacionais no primeiro turno.
“A decisão sobre o futuro do Brasil corresponde exclusivamente ao povo brasileiro”, afirmou o ministério, ao defender que a escolha dos eleitores ocorra sem interferências externas.
As manifestações de Milei ocorrem em meio à disputa eleitoral entre Lula e Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado. O presidente argentino é aliado declarado da família Bolsonaro e já havia atacado Lula durante a convenção do PL que oficializou a candidatura de Flávio, em julho, em São Paulo.
Segundo a agência Bloomberg, a escalada das declarações aprofunda o desgaste diplomático entre Brasil e Argentina. Desde agosto, o Brasil está sem embaixador em Buenos Aires, após o agravamento dos atritos entre os dois governos. A representação brasileira passou a ser conduzida por um encarregado de negócios, enquanto o embaixador argentino foi chamado a deixar Brasília.
A crise ocorre entre dois países com economias profundamente integradas e que ocupam posições centrais no Mercosul. A Argentina tem no Brasil seu principal parceiro comercial no intercâmbio de mercadorias, o que amplia o peso político e econômico da deterioração das relações bilaterais.
A Meta e outras interferências internacionais
As acusações contra Milei colocam em evidência a influência de atores externos sobre o processo eleitoral brasileiro. Mas as preocupações com a integridade da disputa não se limitam às declarações de Milei: conforme revelamos, denúncias sobre publicidade eleitoral irregular e decisões de plataformas digitais também levantam questionamentos sobre a circulação de informações e o alcance dos candidatos.
Um relatório do NetLab, laboratório de pesquisa da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), divulgado pelo Jornal GGN, identificou uma rede de anúncios político-eleitorais irregulares veiculados pela Meta, empresa norte-americana responsável por Facebook, Instagram, WhatsApp, Messenger e Threads. Segundo o levantamento, a companhia obteve cerca de R$ 2 milhões com anúncios que buscavam promover ou atacar candidatos e intensificar conflitos políticos durante as eleições de 2026.
O estudo identificou 1.613 publicações impulsionadas, com mais de 171 milhões de impressões, financiadas por redes coordenadas a partir do exterior. A legislação brasileira proíbe o financiamento estrangeiro de campanhas eleitorais, inclusive por meio de benefícios financeiros e publicidade impulsionada por terceiros.
Como revelamos na reportagem, 33,3% dos anúncios com irregularidades não informavam a fonte pagadora. Todas as peças analisadas foram inicialmente veiculadas sem a identificação obrigatória de que se tratava de conteúdo político, o que impede o rastreio de quem financiou. Além disso, parte expressiva das impressões foi direcionada a públicos de eleitores indecisos, como mulheres e jovens, além de eleitores de São Paulo, o maior colégio eleitoral do país.
Outro aspecto destacado pela pesquisa é que os disparos não se restringiam à promoção de um candidato específico. Os anúncios atacavam e favoreciam políticos de diferentes campos, inclusive adversários diretos, com o objetivo de ampliar a rejeição, acirrar divisões e confundir o eleitorado, uma estratégia já estudada nos atuais conflitos geopolíticos para gerar insegurança.
A dimensão internacional desse tipo de operação aparece na pesquisa do cientista político Dov H. Levin, citado pelo GGN. O pesquisador mapeou 187 intervenções eleitorais partidárias entre 1946 e 2014 e estimou que intervenções estrangeiras podem alterar o resultado de uma eleição presidencial em cerca de três pontos percentuais — margem decisiva em disputas acirradas, como a atual entre Lula e Flávio Bolsonaro.
Mensagens internas apontam prejuízo à campanha de Lula
Nesta semana, a imprensa também divulgou mensagens internas dos próprios funcionários da Meta reconhecendo problemas que prejudicaram a divulgação de conteúdos de Lula e que permitiram a recomendação indevida do perfil de Flávio Bolsonaro.
A conta de anúncios de Lula, por exemplo, ficou impedida de impulsionar publicações do feed do Instagram por quase um dia inteiro. A campanha estimou que 1,3 milhão de pessoas deixaram de visualizar anúncios em razão das restrições. A Meta atribuiu o episódio a uma falha técnica em seu gerenciador de anúncios.
As conversas internas indicam que funcionários consideraram a situação grave e demonstraram preocupação com a demora da Meta para solucionar o problema. Em uma das mensagens, um empregado afirmou que a conta de Lula estava limitada em comparação com a de Flávio Bolsonaro.
As mensagens também apontaram que o perfil de Flávio aparecia como sugestão nas buscas do Instagram, enquanto o de Lula não era exibido nem quando o usuário digitava o nome exato do presidente. Ainda, buscas no WhatsApp pelo termo “Exército do Lula” apresentavam, entre os resultados, o canal Tropa do Flávio, ligado a apoiadores do candidato adversário.
A coligação de Lula acionou o TSE contra a Meta, e o ministro Marco Aurélio Bellizze determinou que a Big Tech prestasse esclarecimentos em 48 horas e preservasse registros relacionados à moderação, aos anúncios e às métricas das publicações.
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