21 de outubro de 2026

Brasil acusa Milei de interferência eleitoral

Acusações contra as eleições brasileiras começaram. Presidente argentino Milei, aliado de Flávio Bolsonaro, tenta interferir; Brasil reage.
Javier Milei e Flávio Bolsonaro na Convenção do PL - Reprodução PL

Brasil acusa presidente argentino Milei de tentar interferir nas eleições com acusações de fraude contra Lula.
Relatório da UFRJ revela anúncios eleitorais irregulares da Meta financiados por redes estrangeiras no Brasil.
Mensagens internas da Meta indicam falhas que prejudicaram campanha de Lula e favoreceram Flávio Bolsonaro.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

O governo brasileiro acusou o presidente da Argentina, Javier Milei, de tentar interferir nas eleições presidenciais do Brasil, após o líder argentino insinuar que o presidente Lula poderia fraudar o resultado do segundo turno, marcado para domingo (25). Em manifestação oficial, o Itamaraty classificou as declarações como uma tentativa inaceitável de ingerência externa no processo democrático brasileiro.

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Na terça-feira (20), Milei publicou na rede social X um trecho de uma entrevista concedida por Lula ao SBT e escreveu que esperava que o “último truque sujo de campanha” não incluísse “roubar a eleição”. O argentino também compartilhou um trecho do debate entre Lula e Flávio Bolsonaro (PL), no qual atacou o presidente brasileiro.

As declarações provocaram uma reação do Ministério das Relações Exteriores, que acusou Milei de reproduzir mentiras disseminadas por grupos que perderam as eleições de 2022 e participaram da tentativa fracassada de golpe de Estado.

O Itamaraty também rebateu as insinuações contra o sistema eleitoral brasileiro, afirmando que o voto eletrônico é seguro, nunca registrou irregularidades que comprometessem sua integridade e teve sua confiabilidade reconhecida por observadores eleitorais internacionais no primeiro turno.

“A decisão sobre o futuro do Brasil corresponde exclusivamente ao povo brasileiro”, afirmou o ministério, ao defender que a escolha dos eleitores ocorra sem interferências externas.

As manifestações de Milei ocorrem em meio à disputa eleitoral entre Lula e Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado. O presidente argentino é aliado declarado da família Bolsonaro e já havia atacado Lula durante a convenção do PL que oficializou a candidatura de Flávio, em julho, em São Paulo.

Segundo a agência Bloomberg, a escalada das declarações aprofunda o desgaste diplomático entre Brasil e Argentina. Desde agosto, o Brasil está sem embaixador em Buenos Aires, após o agravamento dos atritos entre os dois governos. A representação brasileira passou a ser conduzida por um encarregado de negócios, enquanto o embaixador argentino foi chamado a deixar Brasília.

A crise ocorre entre dois países com economias profundamente integradas e que ocupam posições centrais no Mercosul. A Argentina tem no Brasil seu principal parceiro comercial no intercâmbio de mercadorias, o que amplia o peso político e econômico da deterioração das relações bilaterais.

A Meta e outras interferências internacionais

As acusações contra Milei colocam em evidência a influência de atores externos sobre o processo eleitoral brasileiro. Mas as preocupações com a integridade da disputa não se limitam às declarações de Milei: conforme revelamos, denúncias sobre publicidade eleitoral irregular e decisões de plataformas digitais também levantam questionamentos sobre a circulação de informações e o alcance dos candidatos.

Um relatório do NetLab, laboratório de pesquisa da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), divulgado pelo Jornal GGN, identificou uma rede de anúncios político-eleitorais irregulares veiculados pela Meta, empresa norte-americana responsável por Facebook, Instagram, WhatsApp, Messenger e Threads. Segundo o levantamento, a companhia obteve cerca de R$ 2 milhões com anúncios que buscavam promover ou atacar candidatos e intensificar conflitos políticos durante as eleições de 2026.

O estudo identificou 1.613 publicações impulsionadas, com mais de 171 milhões de impressões, financiadas por redes coordenadas a partir do exterior. A legislação brasileira proíbe o financiamento estrangeiro de campanhas eleitorais, inclusive por meio de benefícios financeiros e publicidade impulsionada por terceiros.

Como revelamos na reportagem, 33,3% dos anúncios com irregularidades não informavam a fonte pagadora. Todas as peças analisadas foram inicialmente veiculadas sem a identificação obrigatória de que se tratava de conteúdo político, o que impede o rastreio de quem financiou. Além disso, parte expressiva das impressões foi direcionada a públicos de eleitores indecisos, como mulheres e jovens, além de eleitores de São Paulo, o maior colégio eleitoral do país.

Outro aspecto destacado pela pesquisa é que os disparos não se restringiam à promoção de um candidato específico. Os anúncios atacavam e favoreciam políticos de diferentes campos, inclusive adversários diretos, com o objetivo de ampliar a rejeição, acirrar divisões e confundir o eleitorado, uma estratégia já estudada nos atuais conflitos geopolíticos para gerar insegurança.

A dimensão internacional desse tipo de operação aparece na pesquisa do cientista político Dov H. Levin, citado pelo GGN. O pesquisador mapeou 187 intervenções eleitorais partidárias entre 1946 e 2014 e estimou que intervenções estrangeiras podem alterar o resultado de uma eleição presidencial em cerca de três pontos percentuais — margem decisiva em disputas acirradas, como a atual entre Lula e Flávio Bolsonaro.

Mensagens internas apontam prejuízo à campanha de Lula

Nesta semana, a imprensa também divulgou mensagens internas dos próprios funcionários da Meta reconhecendo problemas que prejudicaram a divulgação de conteúdos de Lula e que permitiram a recomendação indevida do perfil de Flávio Bolsonaro.

A conta de anúncios de Lula, por exemplo, ficou impedida de impulsionar publicações do feed do Instagram por quase um dia inteiro. A campanha estimou que 1,3 milhão de pessoas deixaram de visualizar anúncios em razão das restrições. A Meta atribuiu o episódio a uma falha técnica em seu gerenciador de anúncios.

As conversas internas indicam que funcionários consideraram a situação grave e demonstraram preocupação com a demora da Meta para solucionar o problema. Em uma das mensagens, um empregado afirmou que a conta de Lula estava limitada em comparação com a de Flávio Bolsonaro.

As mensagens também apontaram que o perfil de Flávio aparecia como sugestão nas buscas do Instagram, enquanto o de Lula não era exibido nem quando o usuário digitava o nome exato do presidente. Ainda, buscas no WhatsApp pelo termo “Exército do Lula” apresentavam, entre os resultados, o canal Tropa do Flávio, ligado a apoiadores do candidato adversário.

A coligação de Lula acionou o TSE contra a Meta, e o ministro Marco Aurélio Bellizze determinou que a Big Tech prestasse esclarecimentos em 48 horas e preservasse registros relacionados à moderação, aos anúncios e às métricas das publicações.

Leia mais:

Patricia Faermann

Jornalista, pós-graduada em Estudos Internacionais pela Universidade do Chile. Coordenadora de Projetos. Repórter e documentarista de Política, Justiça e América Latina do GGN desde 2013.

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