
O servidor da migração na Argentina saudou meu boton “Lula Livre”
por Armando Rodrigues Coelho Neto
Em maio estive no acampamento Marisa Letícia, uma experiência que já contei nesse GGN. Lá comprei alguns bótons “Lula Livre”, vários deles distribuídos a quem demonstrou interesse em usar. Um deles, porém, está sempre pregado na roupa do dia, sem fazer distinções para onde vou. Quando muito, deixo de usar em situações que podem soar como provocação gratuita. Mas, como rotina, lá está ele na jaqueta e, conforme a temperatura, é substituído por uma camiseta “Eu sou Lula”, escrito em preto no fundo vermelho, também adquirida no acampamento. É com essa configuração que me exponho a olhares simpáticos ou não.
É uma ousadia tímida para fugir da raquítica militância de sofá. Algo como para amainar a estúpida pregação para convertidos, fugir da cômoda e ao mesmo tempo incômoda posição de falar com quem concorda comigo. Não raro, interlocutores cúmplices que se alimentam das mesmas fontes de informação. Esse fenômeno, aliás, se repete nas redes sociais, onde militantes bloqueiam opositores para não ter debate, ainda que o debate propriamente dito esteja reduzido ao falso moralismo. Parte da militância tropeça no que dei de chamar “eu me amo e sou correspondido”, na ilusão do exercício da resistência, ainda que calculada e consentida pela engenharia do golpe. Resistência tratada por mimimi, na base do: “aceita que dói menos”.
Quando uso meu boton “Lula Livre”, sinto a sensação de dar visibilidade ao meu resistir, fora de meu espectro. E fico feliz quando alguém na rua, sem me conhecer, esboça um sorriso cúmplice e arrisca um “é isso aí”, pisca o olho e gesticula positivamente o polegar. Gente descuidada que pergunta se Lula já está ou vai ser solto. Pessoas simples que implicitamente vê Lula até como o “bom ladrão” e diz: “com tanto ladrão ruim solto…”. Há pouco tempo, uma senhora descuidada comentou: “Esses juízes não estão doidos não, meu senhor?”. Converso rapidamente, deu muxoxos, e até desdenhou de Sejumoro: “esse juiz não tá no esquema, não?”. Reagi com um silêncio cúmplice…
Eis que num mercadinho próximo de minha casa, a operadora da caixa pergunta se Lula foi solto. Ainda não, respondi cinicamente, talvez seja uma questão de tempo. Quem sabe antes das eleições, né? Discreta, olhou para os lados e meio que escondido por baixo da gaveta, fez um gesto de positivo.
No mesmo estabelecimento, em dia diferente, uma outra perguntou: “É verdade que Lula pode ser candidato? Ouvi no rádio hoje cedo que sim…” Estranho, né? Como fica se ele ganhar? Em situações como essas, melhor explicar que Lula foi condenado sem provas e não poderia estar preso…
Incrédula, ela contra-argumenta. Mesmo os “grandões” do outro tribunal tendo condenado também? Diz numa implícita referência aos justiceiros do TRF4. Como a fila anda, respondo apenas que meu boton Lula Livre é para provocar conversa com pessoas inteligentes… Quem sabe a gente foge das “mentiras da Globo”. Saí sob o olhar interrogativo da jovem e um certo olhar de desprezo do cliente seguinte.. Refleti sobre a engenharia social do golpe, os papeis da mídia, dos factoides e escândalos fabricados e no hediondo papel do Judiciário.
O mercadinho não foi episódio isolado. Num sábado à noite, em frente a um bar da região central de São Paulo, assisti pela enésima vez o constrangedor espetáculo de violência da PM paulista contra camelôs que arriscam vender cervejas nas ruas. Sempre fico perplexo com o aparato: tático móvel, caminhões baús, fiscais disso e daquilo, acompanhados pela trupe da Guarda Civil. Os camelôs fogem com seus carrinhos de mão, quase atropelando os frequentadores da área. De repente, do meu lado, ouço policial feminina dizer: “Perdeu, playboy!”’ Parecia que havia capturado a presa do século, usando a expressão chula.
A abordagem virou confusão. “Não sou ladrão, tenho nota, sou trabalhador”, disse o camelô. “Perdeu, playboy!”, disse a policial com uma empáfia, que mais lembrava um assalto do que uma operação policial. Não me contive: “Meu Deus! Pobre destruindo pobre”. Um dos PMs começou a filmar, com enfoque em mim. “O que o senhor faz aqui?”, pergunta um policial. “Eu só vim aqui dizer que os senhores também são pobres”. A conversa embolou, eu me limitei a repetir a expressão: “pobres, os senhores são pobres”! Irritado, um deles disse: “Por acaso é rico?” Eu também sou pobre e estou aqui para lembrar que os senhores são pobres. Ameaçadora, a policial engatilhou o fuzil sem apontar, tentando me assustar com o barulho do engatilhar. “Eu sei que a senhora não vai atirar em mim…!
Eis que o policial ao lado do que filmava olha para mim e diz: “Olha pra aí, olha pra isso… se mete onde não é chamado e ainda defende condenado…”, diz apontando meu boton “Lula Livre”.
– Condenado por quem? Por um bando de juízes corruptos?
Virou um diálogo áspero e estéril que poderia se voltar contra mim. Tive pressa em encerrar: “Eu vou embora. Eu só queria lembrar que os senhores são pobres”. Sai repetindo, pobre, pobre, pobre…
Não sei se naquela noite dormiram pensando na palavra pobre repetida com ênfase e insistência. Queria que fossem pra casa se perguntando: “Por que ele insistiu tanto chamando a gente de pobre?”. Em mim, ficou o olhar de desprezo do policial branco, cara de almofadinha e o desprezo pelo meu boton Lula Livre.
PMs à parte, um dia desses registrei a reação do empregado de um pet shop, ao constatar meu boton. “Nossa! Justo esse?”. Sim, respondi. Não acha incrível que o melhor presidente da história do Brasil esteja preso sem provas? E que um bando de ladrões com apartamentos e malas cheios de dinheiro, contas na Suíça, gravações comprometedoras esteja solto? Dalí sobrou apenas o olhar pensativo do lavador de cães.
Também na região central, o dono de um empório, sabendo que sou delegado federal aposentado, perguntou “o que é isso?”. Aproveitei para lembrar que a presidenta Dilma sancionou todas as leis moralizadoras do país, foi afastada por bandidos e o STF se calou. Qual o crime dela? Lembrei também que quem mais deu recursos para a Polícia Federal está preso dentro dela, numa sede que ele próprio mandou construir…
Estava em dúvida se escreveria um texto intitulado “Registros aleatórios sobre meu boton Lula Livre”. Titubeei. Mas, ao desembarcar no Aeroporto de Ezeiza, em Buenos Aires, resolvi a questão. Um funcionário do Serviço de Migração saiu de seu guichê e disse: “Senhor. Permita-me felicitá-lo”. Antes que perguntasse por quê, apontou meu boton, e sorridente, disse: “Ele vai ser presidente de novo…”
Como Lula hoje é uma ideia, e Haddad é Lula…
Armando Rodrigues Coelho Neto – advogado e jornalistas, delegado aposentado da Polícia Federal e ex-representante da Interpol em São Paulo.
Rpv
24 de setembro de 2018 11:31 amBela crônica.
Parabéns.
Bela crônica.
Parabéns.
Maria Luisa
24 de setembro de 2018 11:47 am“com tanto ladrão ruim solto”. 🙂
Militantes de sofa ou de bar, acho que todos fazem um pouquinho que seja. A gente, em nossa esfera de alcance, tenta explicar às pessoas em que mundo real vivemos. Não é trabalho dos mais faceis. E eu, apesar de às vezes me impacientar com os militantes do bolsodinossauro na internert, no dia a dia, sempre converso com muita calma e didatica com as pessoas. Quando vejo que balanço alguém, penso que vale a pena.
Sabado proximo faremos uma manifestação na Place de la République com o slogan #elenão. Quem estiver na cidade, que venha participar. De grão em grão, a gente vai mostrando às pessoas que ha algo de importante acontecendo no Brasil e que nos estamos lutando para que nosso Pais não deixe de ser um lugar de gente feliz e batalhadora.
emerson57
24 de setembro de 2018 12:52 pmparabéns pela coragem
Aqui em Santos eu só faria o mesmo se eu tivesse para minha defesa a AK 47 do companheiro Rui.
Dois reparos:
Eles NÃO são pobres. Eles são apenas cães de donos ricos!
O STF NÃO se calou. O STF participou e é sócio do golpe!
Márcia A. Nogueira da Silva
24 de setembro de 2018 1:19 pmResumo: Foi na raiz da
Resumo: Foi na raiz da questão, o pobre não se vê como pobre. Adorei as estórias e sei bem que é preciso coragem pra fazer isso no coração do tucanistão. Sim, são pobres que sentem prazer em humilhar pobres. Outro dia, precisei debater com um conhecido no face, porque ele não se conformava de eu ter dito que CAPITALISTA é quem tem capital e quem vive de salário é ASSALARIADO. O cara subiu pelas paredes, nem preciso dizer de quem ele é fã, tentou me convencer de todo jeito, de maneira desrespeitosa até, que capitalista é quem simpatiza com o capitalismo. Nunca ri tanto de um imbecil. Terminei a conversa dizendo pra ele continuar se achando capitalista, enquanto os verdadeiros passeiam em seus jatinhos e iates…. rsrsrsrs
AMORAIZA
24 de setembro de 2018 3:30 pmFosse aqui
Não fosse você quem é, levava uma bifa.
Respondi antes de ler o texto e vou manter, acrescendo uma experiência parecida no centro de São Paulo.
Só não sei se as personagens foram as mesmas.
No caso, a guarda municipal- os azuizinhos do prefeitinho- em plena Xavier de Toledo, entre o shopping Light e a estação de metrô Anhangabaú, em tarde de sol ardente laborava em fúria divina chutando banquinhas, pisando em roupas expostas para venda e agredindo na minha frente um rapaz que vendia barras de chocolate.
A alegria do miliciano foi bater no rapaz repetidas vezes com o cacetete, jogar todos os seus chocolates na água de esgoto da sarjeta e pisar os restantes. Eu, que apenas passava no local me ví tomando borrachadas de ódio.
Só deu tempo de dizer: Ei, fulano, eu só estou passando!
O soldado gordinho e puto da vida parou, olhou pra mim e sossegou o facho enquanto eu o chamava de santo menino bonitinho do coração de jesus, já que não podia partir pra cima. Proferi impropérios de baixo calão mesmo.
Ameacei denunciar, xinguei a geração e fui cuidar da vida e dos hematomas, pensando com os meus botões que se denunciasse o puto arrumaria uma dor de cabeça com a corporação.
A borrachada pegou a perna inteira- marca pra um mês.
Fiquei pensando na sorte do rapaz do chocolate, ferido no bolso e na dignidade, e desejei que o dito policial e sua turna passassem fome por uns tempos, para aprender a não jogar alimentos na água de esgoto e a respeitar quem trabalha.
Quanto ao boton, parabéns pela atitude corajosa.
Acho que a gente se acostuma a ser brasileiro, já que não há do que se orgulhar.