3 de junho de 2026

Eleições 2018: facadas pela culatra e vale tudo

Nos últimos oito dias, dois novos grandes fatores surgiram na eleição, além de dois fatores menores (para o momento, mas não para o país): a facada em Bolsonaro e o lançamento da candidatura Haddad, em substituição a Lula.
Logo de início, muitos acreditaram que a facada poderia seria o golpe que o nazista tupiniquim precisava para baixar a rejeição e se gabaritar como postulante com chances reais ao Planalto. Outros diziam que isso o garantiria no segundo turno. Ao que tudo indica, pelos gráficos de interações no Twitter e pelas primeiras pesquisas de opinião, feitas logo depois do ataque, pouco, quase nada mudou para Bolsonaro: cresceu pouco e sua rejeição aumentou. Três explicações colaboram na entendimento do fato: ampla mobilização dos anti-Bolsonaros na internet, questionando a legitimidade do ataque, e o fato de não haver sangue; os discursos de ódio que marcam sua atuação “política”, reforçando o “plantou o que colheu”; e sua incompetência em explorar o evento, a despeito de toda boa vontade da mídia.
Ainda que eu prefira acreditar que a facada não foi armação, sem dúvida boa parte do que se seguiu e segue a ela, é. É estranho a mudança no quadro do candidato: de corte superficial (afinal, o esfaqueador estava bem longe) a perfuração de vários órgãos, tentou ali criar um mártir da esquerda, violenta por natureza. Para seus fanáticos, ou mesmo seguidores moderados, isso pode ajudar a reforçar seus votos – mas ainda não parecem consolidados -, de pessoas que poderia ser seduzidas pelo novo fascismo de sucesso do banqueiro, pelo fascismo vala jatista ou pelo fascismo messiânico do cabo amoroso e firme. O fato de não ter conseguido se tornar mártir, sequer crescer, mesmo com toda exposição da grande mídia, se deve ao fato de que seu discurso não combate um pretenso ser violento infiltrado na sociedade, como os imigrantes e islâmicos, na Europa e EUA, mas é só um poço de ódio: mulheres, negros, gays, pacifistas, esquerdistas e quem mais for que não seja homem branco heterossexual cristão ou não acredite na superioridade destes – isso até garante sua base, mas impede qualquer ampliação. Para completar, o pretenso mártir fazendo sinal de armas no hospital, enquanto sua equipe chama para a guerra – apenas para reiterar aos não convertidos que são eles os “profissionais da violência”. O que deve ser pensado, findo o teatro eleitoral, é como será sua atuação depois das eleições, e de seus filhos. Por fim, a grande utilidade do ataque foi para tentar incriminar as esquerdas, grudar nelas a pecha de incitadoras do ódio e da violência. Serviu, novamente, apenas para patos convertidos.
Pelas primeiras análises, quem teria perdido com a facada seria Alckmin. Contudo, são trinta dias para disputar narrativas, com internet para desconstruir verdades alternativas impostas pela grande mídia, e programa eleitoral para atacar o líder do campo golpista (a ausência de Bolsonaro nos debates, que ele já havia anunciado, é sempre positivo ao nazista). Alckmin já havia tomado um golpe um dia antes, com os vídeos do presidente golpista, afirmando que seu governo era unha e carne com Alckmin e o PSDB, numa mostra cabal do quanto a direita está desunida na luta por assumir o Planalto e liquidar de vez o que pode haver de soberania nacional. Acuado, Alckmin precisava partir para o ataque e o fez. Tem apelado para o antipetismo explícito, batendo no fato de que Bolsonaro perderia certamente para o PT. É uma tática arriscada, depende muito da ignorância desse eleitorado, porque não apenas ele também perderia para o PT, como já perdeu. Os ataques, assim que a comoção pelo ataque se arrefecer, devem aumentar, como devem aumentar os ataques ao PT, para deixar evidente seu antipetismo – o ponto é por onde irá construir esse antipetismo, pelo campo do inimigo, como Bolsonaro e seu pupilo Doria Jr, ou pelo adversário, o discurso irascível, apesar do teto baixo parece ter um piso mais alto, é portanto convidativo para o momento. O risco dessa tática é que, com crescimento de Haddad, desmobilizar seu eleitorado, “já que está perdido mesmo”. Se pegar num ponto certo (e eu acho que segurança pública seria esse ponto), arrisca derrubar Bolsonaro sem ganhar com isso. Isso mostra que a tática petista de isolar Ciro do PSB foi acertada eleitoralmente – e equivocada do ponto de vista do momento histórico.
O outro fato novo foi Haddad, oficialmente candidato, com Manu como vice. É uma composição que tenta angariar votos à esquerda – não apenas por ser do PT e ungido de Lula, mas por ter uma vice de esquerda também, contrariamente ao outro candidato competitivo do campo progressista -, como votos do centro, eleitores de Ciro ou mesmo eleitores de candidatos tecnocratas, não antipetistas necessariamente. A tentativa da GloboNews, na sua entrevista, de marcá-lo como petista aponta que ele quebra certas resistências ao PT, tal como Suplicy. Uma ótima opção eleitoral, mas que deixa dúvidas enquanto governante: sua transição com Doria Jr, na prefeitura de São Paulo, extremamente republicana e de boa vontade, mostra que seria um presidente ideal em alguma república nórdica com democracia consolidada, no Brasil do golpe e das ameaças togadas, militares, midiáticas e legislativas, talvez lhe falte certa “malandragem” que os tempos exigem. Ainda assim, por conta da penetração popular e nos movimentos sociais que o PT possui, se não cometer um estelionato eleitoral a la Dilma, pode tentar trazer esses movimentos para junto do governo – Luis Felipe Miguel tem reiterado que vencendo ou perdendo, é preciso mobilização constante da população, depois das eleições, para reverter ou frear o golpe.
A novidade Haddad trouxe à tona o velho narcisismo das pequenas diferenças das esquerdas – que mostra que se Lula e o PT talvez patinem para entender as elites brasileiras, da militância eles entendem bem. Ciristas e petistas partem para luta fratricida na internet – ao menos na minha linha do tempo, basicamente uma bolha de esquerda com diploma universitário. Os argumentos para os ataques mútuos são os mais precários, dá vergonha pensar que são filósofos, sociólogos, historiadores doutores, professores universitários, candidatos a deputado, e se esmeram em uma retórica sutil para proferir pensamentos toscos e opiniões grosseiras. Dou dois exemplos rápidos: de ciristas já li que o “PT busca manter sua hegemonia na esquerda”. Ah, vá! Um partido político querer hegemonia? A hora que um partido não agir com isso em vista, melhor abandonar a política e se dedicar a organizar bingos e campeonatos de buraco. De certa “Esquerda Peter Pan” (como falava quando era humorista no Trezenhum. Humor sem graça) li a crítica de que o PT não fez uma autocrítica convincente dos anos Dilma, o que tem sua dose de verdade, mas cabe perguntar: com ataques de todos os lados, vale se atacar um pouco mais, ou melhor se defender? Cabe notar que a defesa foi sempre do mandato de Dilma, raramente de seu governo. Me faz lembrar a “vitória moral” de Freixo, que manteve a pureza da campanha e entregou a prefeitura para Crivella. Do outro lado, li que Ciro seria cavalo de Tróia do golpismo. Do alto de seu doutorado o autor explicava: num eventual segundo turno entre Ciro e Haddad, o antipetismo (base do golpismo) vai de Ciro, logo, Ciro é golpista. Se o argumento der certo, Bolsonaro pode utilizá-lo contra Alckmin: num eventual segundo turno entre Bolsonaro e Alckmin, o PT irá de Alckmin, logo, Alckmin é agente petista infiltrado no tucanato. Por sorte, essa militância acadêmica-racional-ressentida-recalcada parece ter uma capacidade de influência condizente com sua capacidade de análises pertinentes ao momento: os ataques mútuos entre ciristas e petistas servem para tirar votos do adversário, não para ganhar votos ao seu candidato; se tiverem sucesso nessa empreitada, aumentariam os votos nulos e brancos (afinal, já que é tudo farinha do mesmo saco, se não há qualquer diferença entre Alckmin, Haddad, Ciro e Bolsonaro, tanto faz quem vença), ajudando sobremaneira os candidatos do golpe – seria a terceirização da tarefa feita por judiciário e mídia em 2016, que levou, por exemplo, à vitória em primeiro turno do fascista de boutique Doria Jr. Na impossibilidade de entenderem o momento, que esses “militontos” acadêmicos (que parecem preferir Alckmin x Bolsonaro no segundo turno a ter que enfrentar alguém do mesmo campo) mantenham sua incompetência ampla, geral e irrestrita.
Por falar nesse jargão que nos remete à ditadura (então no fim), outros fatos relevantes da semana foram o judiciário e o ministério público atuantes a um mês das eleições e militares fazendo ameaças se o povo escolher errado, nada de novo. O judiciário se afunda cada vez mais na sua credibilidade, e tende a disputar a simpatia de fanáticos fascistas e do grande capital e grande mídia com Bolsonaro, assim como ganhar a mesma rejeição que o nazista já possui. Já os militares, estão onde estiveram desde que deram o golpe que proclamou esta república bananeira: à espera do momento de fazer valer o que crêem ser seu destino manifesto: interferir na vida civil brasileira quando sentirem que os interesses da corporação (e não da nação) estão em risco.
As pesquisas de opinião, por ora, apontam um segundo turno entre petismo e fascismo. Como eu havia dito na análise do primeiro debate: parece dado que na primeira ou segunda posição, a exemplo do que acontece desde 1989, estará o PT. O que está realmente em disputa agora é deslocar Bolsonaro e ficar com o segundo posto. Alckmin, Ciro e Marina patinam na tarefa – dificultada pela facada, que tende a deixá-lo ele em completo imobilismo, se não for atropelado pelos companheiros de camapanha – e parecem birutas de aeroporto em busca do discurso que consiga angariar votos: Alckmin já foi do semifascismo pro centrista aglutinador e volta pra extrema-direita, agora como antipetista mais viável; Ciro já tentou se desvencilhar do PT, depois fez defesa do ex-presidente Lula contra a grande mídia, em performances que poucos petistas chegaram perto, agora é ver por onde tentará ir diante da onda Haddad – não descarte um flerte mais aberto com o antipetismo, só espero que não abra mão do combate aos retrocessos golpistas; Marina começou em cima do muro, ameaçou descer, não desceu, foi pelo discurso feminino, mas sem sair muito do muro. Ah, tem Amoêdo, que despontou em algum momento, graças à internet, sem chances de ser viável, mas com possibilidades de dificultar a vida para os candidatos de seu campo. De minha parte, torço para um segundo turno entre Haddad e Ciro: além da derrota inconteste do golpismo, a possibilidade de uma discussão de nível elevado de problemas e projetos de país, com vistas a um mesmo objetivo: a construção de uma nação inclusiva e soberana.

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13 de setembro de 2018

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