
Algumas coisas que eu sei sobre Paulo Francis
por Márcia Denser
Escrevi em algum lugar que “o brasileiro não só não tem memória como antecipa o esquecimento”, contudo, como exceção à regra, a frase não se aplica à memória de Paulo Francis. Morto a 4 de fevereiro de 1997(se vivo fosse estaria fazendo 88 anos), Franz Paul Heilborn mantém acesa a chama em torno da sua lenda.
Francis gozou de um estatuto raro no jornalismo brasileiro até a década de 90: escrevia na grande imprensa o que queria. Não estava a serviço dos interesses políticos do patrão, quer este fosse a Folha, o Estado ou a Globo. Assim, durante décadas, graças a essa independência de espírito, cultura enciclopédica e estilo corrosivo, tornou-se o maior crítico cultural e político da sociedade brasileira.
Pessoalmente refinado, amoral, elitista e excludente, publicamente temido, respeitado, odiado e sobretudo invejado, seus inimigos eram legião, bajuladores idem.
Insubornável.
Infelizmente não terá sucessores. Alguém como ele não é mais possível no insalubre contexto histórico contemporâneo.
No entanto, sua figura emblemática continua crescendo na razão inversa duma mídia que cada vez mais se banaliza, se acanalha, se vende, perde credibilidade e sua função que é informar. Resta o consolo de tê-lo como paradigma, quer dizer, alguém de grande porte para botar nos devidos lugares – essa terra de ninguém entre a irrelevância e o esquecimento – jabores, mainards e demais aspirantes ao esquecimento e lixo da História. Entende-se por que as mediocridades de plantão precisam destruir sua memória. Irônica e involuntariamente o fazem no melhor estilo ancilar.
O editor e amigo Paulo Roberto Pires considera que a posteridade tem sido injusta com Francis ao pintá-lo como reacionário em tempos “politicamente corretos”. Direita Volver é o título da matéria (15/2/06-FSP) que tentava fazer de Francis algo entre santo padroeiro, intelectual de butique e grão-mestre dos “intelectuais a favor” – a favor do patrão em geral, dos USA em particular e das elites em si.
Uma contradição nos termos, pelo que foi dito anteriormente: Francis só foi quem foi porque escrevia o que queria e não cedia a pressões e o público sabia disso.
Agora falta contar minha relação pessoal com o Francis: pesquisando para escrever esse texto, encontrei outro artigo do Paulo Roberto Pires, Razões e Sensibilidades cujo mote central é o tremendo impacto na cultura que representou a associação extra-oficial de amizade e idéias Paulo Francis/Ênio Silveira nas décadas de 70-80: porque sou produto dessa associação.
Ênio foi meu primeiro grande editor: apostou em mim desde O Animal dos Motéis (1981) até Exercícios para o Pecado (1984) que revisou pessoalmente, escreveu as orelhas, prefaciou, o diabo; livros que, aleatoriamente, sem nenhuma recomendação, remeteu com vários outros para Francis em Nova York. E, contra todas as expectativas – porque na mesma remessa haviam outros muito mais importantes – Francis leu!
Então numa manhã do julho de 1983, abri o Diário da Corte, FSP e vi sua nota:”Li uma escritora brasileira que sabe escrever. Se chama Márcia Denser. Tem um cuidado com a palavra que sempre imaginei morto aí, onde nossos escritores ou contam histórias ou propõem teses para nos salvar do capitalismo. Ela tem uma cabeça capaz de criar o que vê, como é, sem adornos. Parabéns.”
Foi a primeira nota crítica, mas haveriam outras. Futuramente.
Nesse dia, passei a ter uma idéia precisa do seu poder de fogo: o telefone não parou de tocar a partir das sete da manhã lá em casa, a começar por – pasmem – Raduan Nassar! “Já leu a Folha hoje?” O primeiro a cantar a bola. O resto, vocês podem imaginar. Pensando bem, não. Não podem.
Não sabem o que significa tornar-se o alvo permanente duma inveja unânime, espessa, letal. Anônima e coletiva. Porque como crítico, Francis me consagrou. Irrevogável e definitivamente.
Ah, sim, vivíamos conversando por telefone, quer dizer, ele me ligava de Nova York. Previsivelmente tímido, várias vezes esteve na cidade, mas jamais teve coragem de me conhecer pessoalmente. Assim como voltar ao Brasil: “Vão me comer vivo!” ele dizia – me contava Sonia Nolasco, sua mulher que, volta e meia, morrendo de saudade, insistia em procurar apartamento em São Paulo.
A propósito, nesse mesmo Diário da Corte de julho de 83, Francis também fala de política: “Nada mais pândego que exigir de propagandistas do “establishment” que se portem como jornalistas independentes. São parte do sistema, ajudam os poderosos a ludibriar as massas o tempo todo. Não só brasileiros são ingênuos. Um deputado do PMDB disse ontem que não se escreve história com baioneta ou fuzil. Ao contrário, é plausível argumentar que só se escreve história com baioneta, fuzil ou equivalente, de Júlio César a Robespierre, a Hitler e Stalin”.
Interessante é que é ele quem parece descrever a presente atuação dos nossos lamentáveis intelectuais-a-favor, os meninos direitos de quem não seria santo padroeiro nem aqui nem na casa do caralho!
Meu querido Francis, eu te devia essa. Que descanse em paz.
(In DesEstórias, 2016, Kotter Editorial)
Lucinei
12 de setembro de 2018 1:27 pmParei no…
Parei no
“…escrevia na grande imprensa o que queria…”
É evidente. E digo mais: é bastante provavel que sequer revisassem seus textos. E isso não se devia à sua “erudição”, à sua “maestria”, ao polemismo, ao deslumbramento, ao americanismo Hollywood, etc., etc., mas, sim, à certeza de que viria mais uma diatribe contra a esquerda ou algum ditirambo ao “liberalismo”.
A ironia é que morreu depois de condenado pela justiça de Nova Iórrrrque; como se não soubesse onde pisava pra praticar mau jornalismo.
Que descanse em paz.
Luís Henrique Donadio Baptista
12 de setembro de 2018 2:09 pmAs pessoas mudam…
Até um certo ponto em sua carreira, Paulo Francis foi o que Márcia Denser descreve. Depois, foi o que você diz. É uma pena que Márcia não se dê conta, ou não queira se dar conta, da transformação de Francis em protótipo de Diogo Mainardi, que é o que ele foi nos seus últimos anos, já completamente vendido ao establishment.
rdmaestri
12 de setembro de 2018 3:23 pmO segredo do texto foi o elogio. Nada como inflar um ego!
O que a Márcia sabe do Paulo Francis foi que ele inflou o ego da escritora, após isto ele poderia fazer aqueles programas nojentos do Manhattan Conexion, que para isto ela não tinha olhos.
Álvaro Noites
12 de setembro de 2018 4:15 pmManhattan Conection e seus
Manhattan Conection e seus pulhas começou com este reacionário.
ana s.
12 de setembro de 2018 8:04 pmMárcia Denser é tuiteira de
Márcia Denser é tuiteira de mão cheia. Do lado bom da força, é precisa na crítica.
Dito isso, me pergunto como é possível publicar e republicar as frases abaixo sem a devida correção:
“E, contra todas as expectativas – porque na mesma remessa haviam (sic) outros muito mais importantes – Francis leu!”
“Foi a primeira nota crítica, mas haveriam (sic) outras.”
Hoje em dia não existe mais quem faça revisão?