por Wilson Ferreira
Diretores, presidentes e executivos da grande imprensa e associações jornalísticas, historicamente sempre avessos às “teorizações” da área acadêmica, de repente passaram a participar ativamente de congressos e simpósios sobre jornalismo investigativo, ciberjornalismo e jornalismo online. Para repercutirem não só junto a pesquisadores, mas também clientes, profissionais e líderes de opinião a já extensa lista de livros e artigos sobre o fenômeno da “pós-verdade” e das “fake news”. Para provar como a supremacia da verdade deixou de existir no debate público atual. E os vilões: Internet, blogs, redes sociais. Por que esse repentino esforço profissional-acadêmico para dar um ar de novidade a um fenômeno tão velho quanto a própria história do Jornalismo? A necessidade em dar verniz científico para noções retóricas de “pós-verdade” e “fake news” através de um velho macete de engenharia de opinião pública: publicação de artigos científicos e livros. Conferir verossimilhança a uma agenda que traz lucros para a grande mídia: transformar jornalismo investigativo em “checagem”, colocar os jornalistas hipsters “na linha”, sentados, sem ir a campo. E com desdobramentos mercadológicos: monopólio e censura da concorrência no mercado de notícias.
O Jornalismo sempre teve relações pouco amistosas com o mundo acadêmico. Principalmente em relação ao campo do ensino e pesquisa na área da Comunicação. Do ponto de vista das redações, o mundo acadêmico sempre foi tido como “distante da prática”. Professores e pesquisadores eram acusados pelos jornalistas de não vivenciarem a prática profissional – “muita teoria para pouca prática”, era a opinião corrente entre profissionais.
Enquanto isso, nas salas de aula, alunos impacientemente aguardavam as disciplinas “práticas”, ao se defrontarem com matérias como Teoria da Comunicação, Literatura, Comunicação Comparada e assim por diante.
Mas repentinamente, empresas jornalísticas começaram a se aproximar da pesquisa acadêmica da área através de Congressos ou Simpósios em temas como Jornalismo Investigativo, Jornalismo Online, Ciberjornalismo etc. Sem falar na variedade de artigos resultantes desses eventos escritos, surpreendentemente, por jornalistas profissionais (diretores-executivos ou presidentes de Associações, Jornais ou grupos empresariais) que no passado eram avesso a qualquer tipo de produção textual para finalidades acadêmicas em revistas ou anais.
E com outra novidade: publicações científicas voltadas agora não exclusivamente para o leitor acadêmico, mas também para clientes, profissionais, jornalistas e líderes de opinião.
Nesses eventos e suas publicações decorrentes, dois temas monopolizam as discussões: “pós-verdade” e “fake news”.
A palavra do ano
Em 2016, a Universidade de Oxford elegeu “pós-verdade” como palavra do ano. Enquanto as fake news se popularizaram nas críticas à campanha de Donald Trump e ao poder viral e influência política da notícias falsas nas redes sociais. Desde então, o número de livros e artigos sobre os temas é crescente: a coletânea Ética e Pós-Verdade, o badalado livro de Mathew D’Ancona, Pós-Verdade: A nova guerra contra os fatos em tempos de Fake News e a série de artigos da jornalista Megan Garber na revista norte-americana The Atlantic são alguns exemplos.
Dois conceitos complementares: de um lado a “pós-verdade”, relacionado com o problema da fonte da notícia querer modelar a opinião pública não com fatos, mas com apelo às emoções e crenças pessoais; e do outro as “fake news”, fenômeno relacionado com a mídia, supostamente iniciado com a Internet e mídias sociais no qual conteúdos intencionalmente enganosos são viralizados para se obter ganhos financeiros ou políticos.
Por que essa súbita “aliança” entre o mundo profissional do jornalismo e o campo acadêmico? Por que repentinamente o mercado das notícias passa a se interessar em discussões “teóricas” com produções textuais e participações em eventos acadêmicos?
A “novidade” da pós-verdade e fake news
O que chama a atenção nessa produção bibliográfica intensificada a partir de 2016 é o esforço em provar a especificidade ou novidade desses conceitos sobre fenômenos midiáticos já discutidos desde Daniel Boorstin (“pseudoeventos”) e Guy Debord (“sociedade do espetáculo”) nos anos 1960 e Jean Baudrillard (“simulacros e simulações) e Umberto Eco (“eventos-encenação”) dentro do debate pós-moderno nos anos 1980 – pós-verdade e fake news tratariam de um mesmo objeto, porém num cenário diferente e com novas nuances: as novas tecnologias online e a chamada Era Trump.
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Boorstin, Debord e Baudrillard: pós-verdade e fake news são novidades ou apenas rótulos? |
Esse esforço intelectual-acadêmico dos capitães dos mercados de notícias lembra bastante aquilo que Martin Howard descreveu em seu livro We Know What You Want: How They Change Your Mind. Depois de mais de 20 anos trabalhando em agências de publicidade e marketing, Howard passou a se interessar no impacto das novas formas emergentes de comunicação. Principalmente no campo da engenharia de opinião pública – conquista das mentes por meio de estratégias indiretas de comunicação.
Como, por exemplo, o esforço de marketing da indústria farmacêutica publicar artigos em prestigiosas revistas da área médica como verniz científico para o lançamento de novas drogas para supostas novas doenças – dessa maneira, tornando verossímil para a opinião pública e o mercado de notícias novas agendas de saúde: prevenção e combate a pandemias, epidemias ou doenças novas, emergentes ou reemergentes.
A culpa é dos filósofos pós-modernos
Um caso sintomático é o livro do jornalista Matthew D’Ancona “Pós-Verdade”, publicado no Brasil pela Faro Editorial. Um livro inteiro para discutir uma questão que se confunde com a própria história do Jornalismo: como a supremacia da verdade deixou de existir no debate público.
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Martin Howard: think tank no jornalismo como engenharia de opinião pública |
Mas o jornalista, presidente do think tank conservador liberal Bright Blue (definido pelo Daily Telegraph como “organização intelectual para modernizar o partido de centro-direita britânico Conservador) se esforça em atribuir uma novidade aos rótulos “pós-verdade” e “fake News”. E necessariamente D’Ancona tem que se confrontar com os filósofos pós-modernos. Por isso, passa a criticá-los, como os “responsáveis pelos antecedentes da pós-verdade”.
D’Ancona acusa pensadores como Baudrillard, Derrida e Lyotard de terem criado um “relativismo” no ambiente intelectual pós-guerra:
“Os filósofos pós-modernos preferiam entender a linguagem e a cultura como ‘constructos sociais’; ou seja, fenômenos políticos que refletiam a distribuição de poder através de classe, raça, gênero e sexualidade, em vez de ideais abstratos de filosofia clássica. E se tudo é um ‘constructo social’, então, quem vai dizer o que é falso? O que impedirá o fornecedor da ‘notícia falsa’ de afirmar ser um obstinado digital combatendo a ‘hegemonia’ perversa da grande mídia.” (D’ANCONA, M., p. 85)
E mais! Cria uma relação e causalidade dessa desconstrução pós-moderna da verdade com as declarações de Donald Trump: ao dizer que “não tem tempo para ler”, Trump seria “um beneficiário improvável de uma filosofia que ele, provavelmente, nunca ouviu falar… Sua ascensão ao cargo mais poderoso do mundo, desimpedida da preocupação com a verdade, acelerada pela força impressionante da mídia social, foi, ao seu modo, o momento pós-moderno supremo.” (p.88).
Os pós-modernos preparam a chegada de Trump e Bolsonaro?
Será que por décadas, desde Daniel Boorstin, os pós-modernos prepararam a chegada de Donald Trump ao poder e personagens como Bolsonaro no Brasil?
O fato é que toda essa massa bibliográfica surgida a partir de 2016 obrigatoriamente tem que dialogar com os chamados pós-modernos. Alguns autores citam Baudrillard e Deboard, mas sem definir, afinal, qual a novidade conceitual das fake news ou pós-verdades atuais.




anarquista sério
22 de julho de 2018 12:33 pm”Entendeu a lógica?
”Entendeu a lógica? Nem Zuckerberg. Na mesma conversa, ele se diz preocupado com as eleições do Brasil. Os 127 milhões de brasileiros que usam a rede também deveriam estar.
Sérgio Dávila
Mark Zuckerberg não sabe o que fala
Na mesma semana em que o Facebook divulgou ter atingido no Brasil a marca inédita de 127 milhões de usuários mensais ativos (ou MAUs, na sigla em inglês), o criador da rede social deu longa e reveladora entrevista em que deixa escapar sua convicção monopolista e seu desconhecimento da natureza da informação.
À jornalista americana Kara Swisher, do site Recode, em um dos primeiros encontros com a imprensa desde que explodiu o escândalo do uso indevido de dados de usuários, Mark Zuckerberg defendeu a manutenção do tamanho de sua empresa invocando o perigo amarelo.
Se decidirem cortar as asas de companhias como a nossa, disse ele, a alternativa serão os chineses. “E eles não compartilham dos mesmos valores que temos.” A ironia é que foi a Rússia que nadou de braçada nos valores e princípios do “Feice”, ao influenciar indevidamente usuários durante as eleições presidenciais de 2016, que colocaram Trump na Casa Branca.
Em outro trecho, revela que há 20 mil funcionários dedicados a “revisar o conteúdo” publicado nas páginas do Facebook. Como eles fazem isso, e quais os critérios adotados? Zuckerberg se atrapalha na resposta.
Se uma pessoa nega que o massacre de Sandy Hook, em que um atirador matou 26 pessoas numa escola dos EUA em 2012, entre as quais 20 crianças, tenha ocorrido, os “revisores” tiram a página do ar. Se outra pessoa nega que o Holocausto judeu que exterminou milhões na Segunda Guerra tenha acontecido, sua página continuará no ar.
Se uma informação for marcada por muitos usuários como potencialmente falsa, e se os checadores factuais da empresa chegarem à conclusão de que ela é provavelmente falsa, então o conteúdo perderá sua força de distribuição nas timelines das pessoas.
Entendeu a lógica? Nem Zuckerberg. Na mesma conversa, ele se diz preocupado com as eleições do Brasil. Os 127 milhões de brasileiros que usam a rede também deveriam estar.
Willian Pederiva
22 de julho de 2018 4:44 pmGeneralizações são um
Generalizações são um problema, pois tendem a jogar o bebê com a água do banho, e a culpa dos Pós-modernos no surgimento das fake news inclui-se nesta categoria.
Negar a prática, que é um elemento de fora do texto, permite as relativizações e racionalizações mais absurdas. Wietggenstein já comentava sobre a capacidade da mente humana em criar cenários ideais como se fossem pistas de patinação, sem atrito e contato com a realidade.
Infelizmente o artigo esbarra neste problema. Sem estabelecer uma âncora no real, no experimento palpável, perde-se nas elucabrações que permitem qualquer coisa. Permitem Trump, hermenêuticas malabaristas e má-fé diversas.