
Enviado por Felipe A. P. L. Costa
O Eu espontâneo
Por Walt Whitman [1]
O Eu espontâneo, a Natureza,
O dia amoroso, o sol engastado, o amigo com quem estou feliz,
O braço de meu amigo apoiado, preguiçosamente, sobre o meu ombro,
A encosta embranquecida pelas flores da sorveira brava,
A mesma altura do outono, os matizes de escarlate, amarelo, castanho, púrpura e verde claro e escuro,
A colcha rica da grama, os animais, os pássaros, a margem desaprumada e isolada, as maçãs selvagens, os cristais de rocha,
Os belos fragmentos gotejantes, a lista negligente de um após o outro quando os chamo ou penso sobre eles,
Os poemas reais (o que chamamos poemas sendo apenas imagens),
Os poemas da intimidade da noite, e de homens como eu,
Este poema desfalecendo, tímido e incógnito, que carrego sempre, e que todos os homens carregam,
(Que tu conheças, de uma vez por todas, o propósito declarado: onde quer que haja homens como eu, estão nossos poemas masculinos, vigorosos e secretos.)
Pensamentos de amor, fluídos de amor, cheiro de amor, oferta de amor, trepadeiras de amor, seiva trepadeira,
Braços e mãos de amor, lábios de amor, dedão fálico de amor, seios de amor, barrigas úmidas e pressionadas uma na outra com amor,
Terra de casto amor, vida que é apenas a vida após o amor,
O corpo de meu amor, o corpo da mulher que amo, o corpo do homem, o corpo da terra,
Ares macios da manhã que sopram de sudoeste,
A abelha selvagem, peluda, que zune e expressa os seus anseios subindo e descendo, que aborda a moça flor plenamente e curva-se sobre ela com pernas firmes e amorosas, toma a sua vontade de possuí-la, e se aperta trêmula e com força até estar inteiramente saciada;
A floresta orvalhada através das primeiras horas do dia,
Dois que dormem à noite, deitados próximos um do outro, um com o braço oblíquo atravessado em torno e abaixo da cintura do outro,
O perfume das maçãs, aromas de ramonas esmagadas, menta, casca de vidoeiro,
As saudades do menino, o brilho e a tensão no momento em que ele me confessa o teor de seus sonhos,
A folha seca girando em seu redemoinho e caindo paralisada e satisfeita no chão,
Os espinhos disformes que se avistam, as pessoas, os objetos, com os quais me aguilhoam,
O espinho furador de mim mesmo, aguilhoando-me tanto quanto se pode aguilhoar alguém,
Os irmãos sensíveis, esféricos, subpostos, de quem apenas os tentáculos privilegiados podem ser íntimos no lugar em que estão,
O curioso vagante tem a sua mão vagando pelo corpo inteiro, a tímida retirada da carne onde os dedos verdadeiramente param e cingem a si mesmos,
O líquido límpido dentro do jovem homem.
A corrosão irritada, tão reflexiva e tão dolorosa,
A tormenta, a maré irritável que não se acomodará,
A semelhança dos mesmos eu sinto, a semelhança do mesmo nos outros,
O jovem homem que se excita e se excita, a jovem mulher que se excita e se excita,
O jovem homem que desperta no meio da noite, a mão quente procurando reprimir aquilo que o dominaria,
A noite amorosa do místico, a estranha angústia quase bem-vinda, as visões, o suor,
O pulso que bate pela palma das mãos, cujos dedos tremulam envolventes, o rapaz que tem o rosto vermelho, envergonhado, nervoso;
A salmoura sobre mim vem do mar, meu amante, quando me deito desnudo e ardente,
A folia dos bebês gêmeos que engatinham na grama sob o sol, a mãe em momento algum desvia seu olhar vigilante sobre ambos,
O tronco da nogueira, as cascas das nozes e as nozes que amadurecem ou já maduras, as nozes graúdas,
A continência dos vegetais, dos pássaros, dos animais,
Minha vileza conseqüente; eu deixaria esquivar-me ou achar-me indecente, enquanto os pássaros e os animais nunca se esconderam nem jamais se acharam indecentes,
A grande castidade da paternidade, para equiparar-me à grande castidade da maternidade,
O voto da procriação eu já fiz, minhas filhas adâmicas e novas,
A cobiça que me devora dia e noite com fome roedora, até que eu me enjoe daquilo com que hei de produzir meninos para me substituir quando eu passar,
O alívio por inteiro, o repouso, o contentamento,
E esse bando arrancado de mim ao acaso,
Já cumpriu sua missão – eu o lanço sem cuidado para cair em qualquer parte.
*
Spontaneous me
Walt Whitman [1]
Spontaneous me, Nature,
The loving day, the mounting sun, the friend I am happy with,
The arm of my friend hanging idly over my shoulder,
The hillside whiten’d with blossoms of the mountain ash,
The same late in autumn, the hues of red, yellow, drab, purple, and light and dark green,
The rich coverlid of the grass, animals and birds, the private untrimm’d bank, the primitive apples, the pebble-stones,
Beautiful dripping fragments, the negligent list of one after another as I happen to call them to me or think of them,
The real poems, (what we call poems being merely pictures,)
The poems of the privacy of the night, and of men like me,
This poem drooping shy and unseen that I always carry, and that all men carry,
(Know, once for all, avow’d on purpose, wherever are men like me, are our lusty, lurking masculine poems,)
Love-thoughts, love-juice, love-odor, love-yielding, love-climbers, and the climbing sap,
Arms and hands of love, lips of love, phallic thumb of love, breasts of love, bellies press’d and glued together with love,
Earth of chaste love, life that is only life after love,
The body of my love, the body of the woman I love, the body of the man, the body of the earth,
Soft forenoon airs that blow from the south-west,
The hairy wild-bee that murmurs and hankers up and down, that gripes the full-grown lady-flower, curves upon her with amorous firm legs, takes his will of her, and holds himself tremulous and tight till he is satisfied;
The wet of woods through the early hours,
Two sleepers at night lying close together as they sleep, one with an arm slanting down across and below the waist of the other,
The smell of apples, aromas from crush’d sage-plant, mint, birch-bark,
The boy’s longings, the glow and pressure as he confides to me what he was dreaming,
The dead leaf whirling its spiral whirl, and falling still and content to the ground,
The no-form’d stings that sights, people, objects, sting me with,
The hubb’d sting of myself, stinging me as much as it ever can any one,
The sensitive, orbic, underlapp’d brothers, that only privileged feelers may be intimate where they are,
The curious roamer the hand roaming all over the body, the bashful withdrawing of flesh where the fingers soothingly pause and edge themselves,
The limpid liquid within the young man,
The vex’d corrosion so pensive and so painful,
The torment, the irritable tide that will not be at rest,
The like of the same I feel, the like of the same in others,
The young man that flushes and flushes, and the young woman that flushes and flushes,
The young man that wakes deep at night, the hot hand seeking to repress what would master him,
The mystic amorous night, the strange half-welcome pangs, visions, sweats,
The pulse pounding through palms and trembling encircling fingers, the young man all color’d, red, ashamed, angry;
The souse upon me of my lover the sea, as I lie willing and naked,
The merriment of the twin-babes that crawl over the grass in the sun, the mother never turning her vigilant eyes from them,
The walnut-trunk, the walnut-husks, and the ripening or ripen’d long-round walnuts,
The continence of vegetables, birds, animals,
The consequent meanness of me should I skulk or find myself indecent, while birds and animals never once skulk or find themselves indecent,
The great chastity of paternity, to match the great chastity of maternity,
The oath of procreation I have sworn, my Adamic and fresh daughters,
The greed that eats me day and night with hungry gnaw, till I saturate what shall produce boys to fill my place when I am through,
The wholesome relief, repose, content;
And this bunch, pluck’d at random from myself;
It has done its work – I toss it carelessly to fall where it may.
*
Nota
[1] Walt Whitman (1819-1892). Poema publicado em livro em 1856. A versão em português, extraída do blogue Poesia contra a guerra, é de Luciano Alves Meira e integra o livro Folhas de relva (Martin Claret, 2006).
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Henrique Nunes
12 de julho de 2018 5:42 amFolhas na relva de si
Whitman é um mistério, junkie, e um road movie na alma norte-americana.