4 de junho de 2026

Aos batedores de panelas: a redenção, por Gustavo Gollo

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Aos batedores de panelas: a redenção, por Gustavo Gollo

Nunca conheci quem tivesse levado porrada. 
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo. 

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil, 
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita, 
Indesculpavelmente sujo, ( …)
Eu que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,  (…)

Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante, 
Que tenho sofrido enxovalhos e calado, 
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;  (…)

Eu que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas, 
Eu que verifico que não tenho par nisto neste mundo. 

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo, 
Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu um enxovalho, 
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida… 

Então só eu que é vil e erróneo nesta terra? …

Álvaro de Campos, in “Poemas”

Heterónimo de Fernando Pessoa

Creio que, a essa altura, a maioria dos batedores de panela já tenha percebido o papel ridículo e nefasto desempenhado por eles, deixando-se manipular pelos poderes escusos que acabaram conseguindo destituir Dilma Roussef e interromper o processo de independência do Brasil que vinha sendo implementado havia já mais de uma década.

Longe de pretender culpá-los pelas manifestações obtusas – pois se não os culpo, não deixo de lhes reconhecer a sandice –, pretendo redimi-los, confessando meus próprios pecados, enquanto deixo aos príncipes que nunca tenham sido vis e errôneos nesta terra, o encargo de atirar a primeira pedra.

Dias atrás, o facebook me lembrou o fato de eu ter escrito e publicado os chistes equivocados que transcrevo abaixo, minhas próprias paneladas. Há muita verdade neles, mas se equivocam em um ponto fundamental: o inimigo, a grande fonte de opressão, não é mais o estado. O poder global hoje é exercido pelas grandes corporações internacionais, as gigantes multinacionais. São estas criaturas sem rosto que controlam o poder e ditam as regras do mundo atual, redefinindo, por exemplo, o significado da palavra “liberdade”, deslocando seu foco dos indivíduos para as empresas. Leiam nos jornais alguma menção dessa palavra, e verão que ela se refere à liberdade para as empresas, para o grande capital; é sempre a “liberdade de mercado” que está em pauta, a “liberdade” para oprimir o povo, patrocinada pelos monstros sem face que controlam os meios de comunicação e nos manipulam induzindo-nos a bater panelas e fazer coro com a liberdade de extinguir direitos trabalhistas e roubar o petróleo que financiaria a educação no país.

O grande irmão que nos vigia, hoje, que nos manipula, que redefine nossa novilíngua, não é o estado; são as grandes empresas que agora executam tal papel. Nesse contexto relativamente novo, o estado surge como último bastião capaz de se contrapor ao gigante opressor, tendo os políticos – os que não se vendem –, o papel de se opor ao mostro.

Foi minha ignorância, o desconhecimento de fato tão óbvio, que me levou a publicar as sandices abaixo, direcionadas a alvos errados, como ficou claro em seguida.

Tento agora me redimir-me, revelando minhas próprias paneladas de 2013, enquanto vamos assistindo à consolidação do grande acordo nacional, com o supremo e com tudo, concomitante à rapina dos bens públicos, este lauto butim angariado pelos patrocinadores e idealizadores do golpe.

Repito: errei o alvo!

Quais os mais nojentos entre os nossos políticos?

Há certo tempo, uma questão fundamental vem instigando os brasileiros: quais, dentre os políticos brasileiros, são os mais nojentos? As respostas têm polarizado a população, dividida entre a esquerda e a direita e capaz de explicitar certas razões de suas preferências, justificando assim suas respostas, mas incapaz de provar seus pontos de vista.

Embora haja um consenso quanto aos vermes em questão, quanto ao que devemos pensar, de forma geral, sobre esses parasitas, os políticos, não conseguimos estabelecer quais dentre eles compõem os grupos mais gulosos e asquerosos, fazendo com que os longos debates sobre o tema se sucedam inconclusivos, sem que sejamos capazes de demover nossos antagonistas de suas posições. Assim, permanecem ambos os grupos, os da direita e os da esquerda, afirmando que os mais nojentos são os pertencentes ao outro grupo.

Proponho agora uma maneira simples de dirimir a dúvida sobre quais sejam, dentre os políticos, os mais asquerosos. A solução para o dilema é muito simples, bastando que todos eles sejam obrigados a declarar publicamente seus bens e suas rendas. A medida sanitária, aliás, resolveria, não apenas, a dúvida acerca do título de mais nojentos e rapaces entre eles, mas consistiria em um enorme passo para o controle de seu apetite voraz. Sendo obrigados a declarar publicamente seus bens e rendas ao se candidatar a ocupar cargos públicos, ficaria mais fácil controlar a gula com que abocanham as riquezas do país.

PELA OBRIGATORIEDADE DA DECLARAÇÃO PÚBLICA DE BENS E RENDAS DE TODOS OS OCUPANTES DE CARGOS PÚBLICOS.

 

Razões para o achincalhe sistemático de nossos políticos, ou, por que escarnecer desses nojentos?

O principal papel dos políticos consiste em elaborar as leis que regem a sociedade, assim, estão eles os principais responsáveis pelo atual estado de nosso país, pelo atraso em que vivemos, pelas desigualdades absurdas aqui reinantes. Por si só, isso já lhes deveria valer bons achincalhes. Não satisfeitos com a lambança, no entanto, tratam de garantir para si enormes, inconfessáveis, fatias do bolo que repartem fundamentalmente entre os seus, fazendo, eles próprios, as leis que determinam seus vencimentos gigantescos e suas benesses inimagináveis.

Além do enorme número de salários surpreendentemente poupudos, esses parasitas recebem inúmeras outras vantagens, ainda mais gordas que os vencimentos distribuídos em muitas parcelas com o intuito de driblar as leis que restringem os salários. Também interpretam o significado da palavra “salário” de uma maneira toda especial, que permite que o deles engorde na medida da própria gula.

Gulosos que são, no entanto, ávidos de poder e de fama, além do dinheiro do qual se apossam sem cerimônias, os rapinantes não se limitam a extorquir o suado dinheiro do povo, exigem ainda, como crianças birrentas, que se lhes deem atenção às bufonerias que protagonizam pela televisão antes de cada eleição. Assim, meses antes das eleições, roubam a cena dos atores, – para não perder o hábito do furto! – para impingir suas presenças à população, apresentando umas patuscadas mentirosas e tediosas pela TV.

Conseguem de graça essa participação na televisão, ou melhor, de graça para eles, não para nós, que pagamos a conta do programa irritante que nos é empurrado goela abaixo antes das eleições.

Poderíamos escrever inúmeras páginas sobre as falcatruas desses nojentos, para mostrar o que, basicamente todos sabem: são uns parasitas gulosos a rapinar tudo o que lhes seja deixado ao alcance.

As razões aqui aduzidas, embora poucas, são já suficientes para convencer qualquer cidadão da necessidade do achincalhe sistemático desses vermes. Sugerem até ações mais enfáticas como o exercício cívico de lhes jogar tortas na cara. Esse esporte, aliás, deveria ser mais popular, sendo tal prática plenamente justificada pelo caráter moral e sanitário da ação. A grande maioria da população, no entanto, não tem acesso a esses seres, não conseguindo obter autorização para se aproximar dos nojentos, de modo que deve se contentar com o achincalhe verbal.

Assim, impossibilitados de lhes tascar chamativas tortas na cara, restritos ao exercício do escárnio, devemos nos resignar a esta prática, mas zombando dos políticos, desses parasitas asquerosos, de maneira clara e sistemática.

Quando encontrar um político, escarneça-lhe; ridicularize-o vivamente! Achincalhe-o mesmo que você não saiba porquê: ele saberá!

O equívoco destas minhas paneladas consiste em que elas dinamitam o estado, representado pelos políticos, criaturas ladinas, que em nada se assemelhando a anjos, não costumam posar de vestais, nem se fazem, usualmente, de castos. Os que assim se comportam, fantasiando-se com negras capas para alardear a honestidade impoluta que simulam possuir, embora se deixando levar pela vaidade, adulados pelos meios de comunicação de propriedades das grandes empresas, teriam sido alvo mais adequado para as tortas na cara.

Ocorre que, tendo as grandes empresas se tornado monstros incontroláveis, seu mais forte oponente, hoje, é o estado, único agente capaz de fazer frente a elas. Donas dos meios de comunicação, as gigantes multinacionais definem nossas crenças, manipulando-nos, por exemplo, para defender a liberdade delas para acabar com as garantias trabalhistas. Toda a liberdade para as empresas, que elas façam o que bem entenderem, sem nenhum controle; é o que chamam “liberalismo” – os conservadores agora se autodenominam “liberais”. Manipulados pelos meios de comunicação, repetimos tanto a designação idiota, quanto seus mandamentos, sempre contrários à liberdade do povo.

Tendo dominado os meios de comunicação, as grandes empresas não tiveram dificuldade de controlar o judiciário do país – corrupção muito mais grave que a dos políticos –, instituição que se finge de impoluta e se encarrega de resguardar os valores definidos na constituição.

Manipulados pelos meios de comunicação, instrumentos das grandes empresas internacionais, e em defesa de valores democráticos, o judiciário teve papel ativo no conluio que destituiu a presidente eleita por milhões de votos, dando início a um grande acordo nacional, com o supremo e com tudo.

Em troca da presidente democraticamente eleita, a tramoia apoiada pelas paneladas colocou no poder o estrupício que lá se encontra agora, e que desagrada a todos, exceto seus patrocinadores externos, recebedores de dádivas poupudas, como o petróleo que financiaria a educação no país. Mas tudo em nome da liberdade e da democracia e sob uma farsa legal.

Gostaria de prosseguir sobre esses novos usos da palavra “liberdade”, sobre o butim que acabou por explicar o motivo do golpe e muitos outros temas que se encontram nas raízes do golpe, mas já me estendo excessivamente… neste texto eu pretendia, apenas, confessar minhas culpa e buscar minha redenção junto à dos paneleiros.

É fundamental reconhecermos nossos erros passados para que possamos mudar. Quem nunca foi vil e errôneo nesta terra que atire a primeira pedra.

 

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Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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3 Comentários
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  1. walter araujo

    3 de julho de 2018 2:30 pm

    Caro Gustavo:
    Penso que não

    Caro Gustavo:

    Penso que não haja erros a reconhecer.

    Os alvos são múltiplos e que cada um,

    de acordo como o seu “merecimento” e

    juizo, deve ser apontado e ridicularizado.

  2. Fábio de Oliveira Ribeiro

    3 de julho de 2018 3:37 pm

    Daqui a 50 anoa o golpe de

    Daqui a 50 anos o golpe de 2016, que começou a ganhar força com os panelaços de 2015, será descrito como o maior “Boa noite cinderela” da história do Brasil. A classe média aderiu ao golpe acreditando que seria beneficiada com a queda do PT, mas o usurpador Michel Temer cuidou exclusivamente dos interesses dos banqueiros e dos acionistas da Petrobras: a corrupção aumentou, os juros não caíram, o preço do combustível (gasolina, diesel e gás) subiu assustadoramente, a economia real continuou deteriorando arrastando para o desespero e para a pobreza milhares de empresários e micro-empresários, médicos, advogados, engenheiros, etc… e, pior, o dólar subiu frustrando as desejadas viagens para Miami. Foda-se a classe média. Ela realmente merece ser enganada e estuprada pela quadrilha de Michel Temer.

  3. AMORAIZA

    3 de julho de 2018 3:49 pm

    Papai Noel
     

    Você só descobriu que papai noel não existe mas ainda não sabe quem o criou e nem porquê.

    Não se martirize e nem guarde culpas, todos somos iludidos nesta terra.

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